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O nuclear ou a vida

Não podemos evitar catástrofes naturais como sismos e tsunamis. Eles fazem parte da dinâmica natural do planeta que ocupamos. Mas está ao nosso alcance impedir uma política energética baseada no nuclear que corresponde a uma ameaça persistente ao nosso território e às nossas vidas.

O sismo e o tsunami que devastaram o Japão no passado dia 11 de Março destruíram milhares de edifícios, fizeram mais de 10 mil mortos. No entanto, as atenções japonesas e mundiais não estão viradas para o sismo e tsunami mais devastadores e mortíferos que o Japão registou desde 1923, mas antes concentradas em problemas técnicos ocorridos numa pequena unidade industrial na zona de Fukushima.

Passados 25 anos do acidente nuclear em Chernobyl, a ameaça criada pela central nuclear de Fukushima já levou à evacuação de 200 mil habitantes próximos da central e, segundo a própria empresa de produção de energia eléctrica que explora a central, seis trabalhadores foram já expostos a níveis elevados de radiações. A radioactivadade poderá afectar zonas a 200 km de distância, permanecerá no ambiente e nas cadeias alimentares durante mais de 300 anos e já foi registada em níveis elevados no leite, vegetais e água do mar nas proximidades da central. A crise económica provocada directamente e apenas por este acidente também já começa a ser sentida em todo o território.

Os receios de um acidente na Europa rapidamente alastraram. O comissário europeu para a Energia, Günther Oettinger, considerou este acidente “apocalíptico” e fora de controlo e para, acalmar os ânimos, os ministros da Energia da UE27 já prometeram fazer testes de “stress” às suas centrais nucleares. A Suíça e a Alemanha suspenderam projectos de renovação das suas centrais nucleares e a Alemanha encerrou 7 centrais até que seja averiguada melhor a sua segurança, assistindo-se a protestos de dezenas de milhar de pessoas pelo abandono do nuclear.

Por outro lado, os defensores da energia nuclear em Portugal já vieram em sua defesa, alegando que os reactores japoneses em risco foram construídos nos anos 70 e afirmando que, se houve 4 reactores nucleares japoneses a falhar, os restantes 50 estão óptimos. Iniciaram mesmo uma propaganda com terminologia académica sobre o bom funcionamento da nova geração de reactores nucleares e há até quem ache, como o empresário Patrick Monteiro de Barros, que faz todo o sentido propor ao próximo Governo português uma nova central nuclear.

Esta lata desconcertante, que supera o “manifesto dos 33” por acontecer no pior “timing” possível, não só desvaloriza o risco de segurança - reduzido mas sempre eminente e devastador - de uma central nuclear, como o crescente consumo de combustíveis fósseis necessários à extracção cada vez mais difícil de urânio, bem como da incapacidade de garantir a segurança no armazenamento do lixo radioactivo.

Por isso a energia nuclear não é segura, nem limpa, nem faz parte da solução para as alterações climáticas.

A empresa japonesa Tepco, responsável pela central nuclear, apresentou lucros de 1,3 mil milhões de euros no segundo semestre de 2010, mas por outro vai fazer todo o país pagar este acidente nuclear.

Tal como aconteceu agora no Japão, ou tal como no derrame de petróleo da BP no Golfo do México em Abril de 2010, a segurança do ambiente, das pessoas e dos serviços que servem a população não pode estar nas mãos dos grandes interesses económicos.

Portugal, apesar de importar actualmente energia proveniente de França, não produz energia nuclear, muito embora tenham havido tentativas de construção de uma central em Ferrel, em 1986, abandonada devido aos protestos populares.

Mas temos às nossas portas uma central nuclear de Almaraz em Espanha a cerca de 100 km da fronteira com Portugal, junto a Portalegre e Castelo Branco. Esta central foi construída nos anos 70 e deveria ter encerrado em 2010, mas o governo espanhol, permitiu o prolongamento da sua actividade por mais 10 anos.

Não podemos evitar catástrofes naturais como sismos e tsunamis. Eles fazem parte da dinâmica natural do planeta que ocupamos. Mas está ao nosso alcance impedir uma política energética baseada no nuclear que corresponde a uma ameaça persistente ao nosso território e às nossas vidas e está ao nosso alcance exigir a criação de empregos direccionados para o aumento da nossa eficiência energética e aproveitamento das nossas energias renováveis.

É a nossa vida que está em jogo.

Publicado originalmente em A Comuna.

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