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UE e Líbia: duplicidade da posição

Até agora os países europeus estiveram envolvidos em proveitosos negócios de armamento com o governo líbio. Chefes de governo como Sarkozy e Tony Blair empenharam-se para que a Líbia fizesse negócios com os fabricantes de armas dos seus países.
Já em Julho de 2007, na sequência de uma visita de Nicolas Sarkozy à Líbia, foi assinado entre este e Kadhafi um contrato com vista a uma cooperação militar alargada entre a França e a Líbia.

Segundo uma notícia publicada no Expresso no dia 8 de Março, o presidente da Comissão Europeia, Durão Barroso, disse perante o Parlamento Europeu, em Estrasburgo, que não pode haver qualquer ambiguidade por parte da União Europeia na condenação do regime líbio liderado pelo coronel Muammar Kadhafi. "Não pode haver ambiguidade da parte da União Europeia. Um regime que dispara contra o seu próprio povo não tem lugar na família das nações", declarou José Manuel Durão Barroso.

O presidente do executivo comunitário disse reconhecer "a extrema complexidade da situação" na região, "os desafios e as dificuldades", mas reforçou a necessidade de não haver qualquer ambiguidade relativamente à posição da UE.1

No entanto, um artigo publicado no mesmo dia no jornal diário conservador alemão Frankfurter Allgemeine Zeitung deixa bem patente a duplicidade das actuais posições de consternação europeias a propósito dos acontecimentos na Líbia e da actuação do governo de Kadhafi, recordando que até agora os países europeus estiveram envolvidos em proveitosos negócios de armamento com o governo líbio, e não só, mas também com outros países árabes.2 Os factos apontados pelo FAZ são os seguintes:

1) Já em Julho de 2007, na sequência de uma visita de Nicolas Sarkozy à Líbia, foi assinado entre este e Kadhafi um contrato com vista a uma cooperação militar alargarda entre a França e a Líbia, incluindo o fornecimento de armamento à Líbia.

2) Pouco depois, o consórcio pan-europeu de aeronáutica e armamento EADS deu a conhecer o fornecimento de mísseis anti-tanques ao regime de Kadhafi no valor de 168 milhões de euros, armas essas que já foram entregues. O maior accionista individual do EADS é o construtor automóvel alemão Daimler.

3) O SIPRI (Stockholm International Peace Research Institute) informa que chefes de governo europeus como Sarkozy e Tony Blair se empenharam, na Líbia, pelos seus fabricantes de armamento nacionais e que os motivos eram em primeira linha comerciais.

4) Na feira de aeronáutica líbia Lavex a indústria europeia apresentou ainda em 2009 instrumentos de guerra, como o helicópetro de combate da EADS ”Tiger”.

5) O construtor de aviões francês Dassault rearmou nos últimos anos aviões “Mirage” antiquados líbios, máquinas essas que, segundo o SIPRI, Kadhafi está agora a usar contra os revolucionários.

6) O gigante americano de armamento General Dynamics vendeu ainda em 2008, através da sua sociedade-filha inglesa, técnicas de comunicação para as tropas de elite de Kadhafi.

7) O fabricante belga FN Herstal forneceu em 2009 armas de fogo e munições à Líbia.

8) A Rússia deu, no verão passado na feira de aeronáutica  inglesa em Farnborough, à Líbia expectativas sérias de fornecimento de aviões de combate de tipo SU-35.

9) A Líbia tem uma participação de 2% no consórcio de armamento italiano Finmeccanica, que é ao mesmo um dos fornecedores de Kadhafi.

10) Segundo os dados do relatório de exportação de armamento da União Europeia publicado em Janeiro, referente ao ano de 2009, foram concedidas nesse ano autorizações de exportação de armamento da Alemanha para a Líbia no valor de 53 milhões de euros. Tratou-se sobretudo de exportações de “técnicas de comunicação militar”, sem outras especificações mais precisas. A Alemanha foi o maior fornecedor de equipamento militar para o governo de Kadhafi, à frente da França e da Grã-Bretanha.

11) Desde que em 2003 foi levantado pelas Nações Unidas um embargo à venda de armamento à Líbia e até 2008, Kadhafi realizou, segundo os cálculos do SIPRI, despesas militares no valor de 4,4 mil milhões de dólares. Não são conhecidos números posteriores a este ano.

12) Em comparação com outros países árabes, estas despesas, neste momento conhecidas, da Líbia são, apesar de tudo, relativamente modestas. A Arábia Saudita, que tem o maior orçamento militar da região teve, só no ano de 2009, custos com as forças armadas de cerca de 41 mil milhões de dólares.

13) Os Estados do Golfo como a Arábia Saudita, os Emirados Árabes Unidos, o Omã e o Barhain contaram-se nos últimos anos entre os mais importantes mercados em crescimento da indústria de armamento internacional.

14) Entretanto, e enquanto a região se assemelha a um barril de pólvora, ainda nas passadas semanas o negócio continuou. Na feira de armamento Idex, no Abu-Dabhi, que é uma das maiores exposições mundiais do ramo, participaram cerca de 900 expositores, 70 dos quais provenientes da Alemanha.

1 “UE amplia sanções à Líbia”, http://aeiou.expresso.pt/ue-amplia-sancoes-a-libia=f636440

2 Artigo de Marcus Theurer „Libyen-Europas Rüstungskonzerne hofierten Gaddafi“, FAZ, edição online de 08.03.2011, www.faz.net, Síntese e tradução de João Alexandrino Fernandes.

http://www.faz.net/s/Rub87AD10DD0AE246EF840F23C9CBCBED2C/Doc~EB5D5C5F6C9084C11AC566070F6065AB8~ATpl~Ecommon~Scontent.html.

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Sobre o/a autor(a)

Professor universitário em Tübingen, Alemanha
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