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Doutrina do Choque, Estados Unidos

O que está a acontecer em Wisconsin é uma tentativa de explorar a crise fiscal para destruir o último contrapeso ao poder político das corporações e dos ricos. E a jogada de poder vai além de destruir os sindicatos.
“Demite Walker”, cartaz em manifestação realizada em Madison, Wisconsin, 17 de Fevereiro de 2011 – Foto de Paul Baker/Flickr

Aqui vai uma reflexão: talvez Madison, Wisconsin, não seja mesmo o Cairo. Talvez seja Bagdade — especificamente, Bagdade em 2003, quando o governo Bush colocou o Iraque sob o controle de autoridades escolhidas mais pela lealdade e confiabilidade políticas do que pela experiência ou competência.

Como muitos leitores se vão lembrar, os resultados foram espectaculares — no mau sentido. Em vez de focar nos problemas urgentes de uma economia e sociedade destroçadas, que em breve mergulhariam numa guerra civil assassina, os nomeados por Bush estavam obcecados com a imposição da sua visão ideológica conservadora. De facto, com saqueadores ainda soltos pelas ruas de Bagdade, L. Paul Bremer, o vice-rei americano, disse a um repórter do Washington Post que uma de suas maiores prioridades era “transformar em corporações e privatizar as empresas estatais [iraquianas]“– palavras do sr. Bremer, não do repórter — e “afastar das pessoas a ideia de que o Estado está presente em tudo”.

A história da obsessão privatizadora da Autoridade Provisória da Coligação é central no best-seller de Naomi Klein, “A Doutrina do Choque”, que argumentou que o Iraque fazia parte de uma tendência mais ampla. Desde o Chile nos anos 70, sugeriu ela, ideólogos da direita exploram as crises para empurrar a sua agenda, que não tem nada a ver com a resolução das crises, mas tudo a ver com a imposição de uma sociedade mais dura, mais desigual, menos democrática.

O que nos leva a Wisconsin 2011, onde a doutrina do choque está a ser demonstrada no seu conjunto.

Nas últimas semanas, Madison é o cenário de grandes manifestações contra o orçamento do governador, que negaria o direito de contratação colectiva aos trabalhadores do sector público. O governador Scott Walker alega que precisa aprovar a lei para lidar com os problemas fiscais do Estado. Mas o seu ataque aos sindicatos não tem nada a ver com o orçamento. Na verdade, os sindicatos já deixaram clara a sua posição de fazer substanciais concessões financeiras — uma oferta que o governador rejeitou.

O que está a acontecer em Wisconsin é, na verdade, uma jogada de poder — uma tentativa de explorar a crise fiscal para destruir o último contrapeso ao poder político das corporações e dos ricos. E a jogada de poder vai além de destruir os sindicatos. A lei em questão tem 144 páginas e há algumas coisas extraordinárias escondidas nela.

Por exemplo, a lei inclui linguagem que permitiria a autoridades nomeadas pelo governador fazer grandes cortes no seguro de saúde das famílias de baixo rendimento sem passar pelo processo legislativo normal.

E então há isso: “Sem considerar ss. 13.48 (14)(am) e 16.705 (1), o departamento pode vender qualquer fábrica de aquecimento, refrigeração ou hidroeléctrica ou pode contratar uma entidade privada para a operação de tal fábrica, com ou sem concorrência pública, por qualquer valor que o departamento determinar ser o melhor para os interesses do Estado. Apesar da ss. 196.49 e 196.80, nenhum aprovação ou certificação de uma comissão de serviço público é necessária para que uma empresa pública compre ou contrate para a operação de tal fábrica, e qualquer compra é considerada de interesse público desde que considere os critérios de certificação do projecto sob s. 196.49 (3)(b)”.

O que significa isso? O estado de Wisconsin é dono de um certo número de fábricas que fornecem aquecimento, refrigeração e electricidade a entidades estatais (como a Universidade de Wisconsin). A linguagem na lei do orçamento permite, na verdade, que o governador privatize qualquer uma delas. Não apenas isso, ele poderia vendê-las, sem concorrência, a quem ele escolher. E note que qualquer venda destas, por definição, seria “considerada de interesse público”.

Se isto lhe soa como uma perfeita preparação para compadrio e lucro — lembram-se daqueles biliões sumidos no Iraque? — você não está só. Na verdade, existem muitas cabeças a suspeitar da Koch Industries, de propriedade dos irmãos bilionários que jogam um papel decisivo na ofensiva do sr. Walker contra os sindicatos, que a empresa se sentiu forçada a emitir uma nota a dizer que não está interessada na compra das fábricas. Você se sente seguro disso?

A boa nova de Wisconsin é que o protesto pelo ultraje público — ajudado pelas manobras dos democratas no Senado estadual, que se ausentaram para negar quórum aos republicanos — atrasou o processo. Se o plano do sr. Walker era aprovar a lei antes que as pessoas tivessem noção dos seus reais objectivos, aquele plano fracassou. E os eventos em Wisconsin podem ter paralisado outros governadores republicanos, que pareciam a caminho de apoiar jogadas parecidas.

Mas não esperem que o sr. Walker ou o resto do seu partido mudem os seus objectivos. Destruir os sindicatos e privatizar continuam a ser prioridades e os republicanos vão continuar a esconder estas prioridades sob o discurso de “equilibrar o orçamento”.

Publicado no New York Times em 24de Fevereiro de 2011, traduzido e disponibilizado em Vi o mundo

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