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O que é a Estabilidade?

A elite burguesa em Portugal vende-nos a sua estabilidade como sendo a nossa. Para eles continuarem estáveis no poder político, económico e social, a nossa vida tem de ser instável.

Na Palestina, quando um tanque israelita entra numa zona residencial espalhando o terror e os adolescentes respondem com a sua única arma, pedras, é considerado uma "ameaça à estabilidade". Prender os jovens que defendem como podem o seu bairro, a sua vida, já é considerado "restabelecer a ordem", o regresso à esmagadora estabilidade.

No Egipto, na Líbia, na Tunísia, no Iémen, a estabilidade era sinónimo de ditadura até há poucas semanas. E os EUA, a UE, a NATO, entre outros, nunca esconderam o descarado apoio aos ditadores que oprimiam o seu povo na fome, na miséria, na abstinência democrática absoluta, queimando o erário público em festas "à lá Berlusconi" dia sim, dia sim. Mas nesses países há agora uma ameaça à estabilidade: as pessoas.

As pessoas revoltaram-se contra a estabilidade ditatorial. A estabilidade sanguinária que lhes sugava a vida, exigindo o seu trabalho e o seu silêncio em prol duma elite muito estável. Aos milhões, encheram as ruas da alegria que é lutar pela liberdade.

A (in)discutível estabilidade entra pelas nossas casas todos os dias. Entra pela televisão, pelos jornais, comentários e editoriais alheados da realidade que nos falam da necessidade extrema de mantermos esta estabilidade, esta segurança, em qualquer país, em qualquer cidade, em qualquer lar. É melhor não nos queixarmos muito porque se falarmos demais, "o pior ainda pode estar para vir".

A elite burguesa em Portugal vende-nos a sua estabilidade como sendo a nossa. Para eles continuarem estáveis no poder político, económico e social, a nossa vida tem de ser instável. E a ditadura opinativa da comunicação social faz-nos crer. Crer que a solução para acalmar os mercados são estágios não-remunerados, precariedade, dívida à segurança social, terceira propina mais cara da Europa, cortes nas bolsas, cortes nos salários. E surpreendentemente, mesmo assim, os juros continuam estavelmente a subir.

A estabilidade é um conceito relativo e opressor, que nos faz viver no medo. O medo dos mercados, do FMI, da Direita, da dívida pública. A estabilidade é o conformismo, é aceitar o que uns decidem porque "são todos iguais" e porque é "inevitável". Mas os povos árabes disseram-nos claramente: quando tanques nos esmagam a vida, temos de responder com pedras.

Esta estabilidade que nos esmaga tem de ser derrubada. Se todos os precários, desempregados, explorados, oprimidos e estudantes "à rasca" derem as mãos, o país vai tremer.

Sobre o/a autor(a)

Gestor de redes sociais, investigador em comunicação política.
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