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Uma moção clarificadora

A moção de censura ao Governo anunciada pelo Bloco incomodou muita gente e está a levar a que se clarifiquem posições, que se separem as águas.

Instaurou-se a histeria colectiva nos jornais e noticiários em geral. Os mercados financeiros vão ressentir-se, a instabilidade vai instalar-se, o país ficará pior. E multiplicaram-se as acusações de irresponsabilidade, de aproveitamento, de todo o género e do mais gratuito. A instabilidade social e o crescimento da direita. São esses os perigos com que nos querem intimidar essa tropa de comentadores que cerrou fileiras contra a censura ao Governo.

Dizem eles que “as pessoas não percebem” a moção de censura anunciada, que o país não aguenta, e que o futuro do Bloco está ameaçado. A exploração da fragilidade e dos temores dos mais fracos e atingidos pela crise social, que funciona como uma espécie de chantagem colectiva, e esse elogio ao “quanto pior melhor” que tem intoxicado os media nos últimos dias não surpreende. Perante o anúncio do Bloco e a ameaça aos poderes instalados que este constitui, o catastrofismo era a teoria mais evidente, mais básica, e acreditam os arautos da crítica, mais eficaz.

Uma coisa ficou clara: a moção de censura ao Governo anunciada pelo Bloco incomodou muita gente e está a levar a que se clarifiquem posições, que se separem as águas.

Mas já chega de intoxicação. Basta da teoria do pânico e do horror, do karma que nos vai perseguir de ora em diante. Todos sabemos que esta gritaria tem uma razão de ser. É que a instabilidade, a angústia, o desespero, o temor sobre o dia de amanhã, são já a realidade diária de milhares de portugueses.

Irresponsabilidade são as centenas de milhares de portugueses sem trabalho, sem esperança, sem vida, a quem é urgente dar alternativas. São milhares de jovens sem recursos, sem forma de vida, sem planos. E agitar o fantasma da direita é uma ameaça estafada: o PS já está a governar com a direita, e é o principal executor das políticas neo-liberais do PSD.

O que as pessoas percebem, com toda a clareza, é que as suas vidas estão hipotecadas, e que a factura está já a ser paga por todos.

Esta moção de censura é um forte instrumento nesta luta do Bloco: inverter esse caminho da instabilidade, alterar esta marcha rumo ao abismo. Aos que acusam a debilidade desta censura na mobilização social respondemos com a determinação de quem sabe que é preciso que o centro da política saia para a rua. Se seria mais fácil ficarmos calados, imóveis, imperturbáveis, perante o agravamento da situação social do país, tolhidos pelo calculismo eleitoral? Talvez fosse, mas não era a mesma coisa, pois não seria o Bloco.

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Jornalista
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