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Criar empresas para controlar empresas - o céu é o limite

Segundo Gabriela Canavilhas, a criação de uma nova estrutura que irá criar mais um nível administrativo entre a direcção artística e a tutela irá não só não custar um único euro como ainda provocar ganhos de eficiência extraordinários.

O Opart é hoje uma ideia falhada. Em apenas duas semanas assistimos à demissão do Presidente e do vogal da administração desta estrutura e ainda uma proposta de resolução do Bloco de Esquerda, aprovada pelo PS, que impede a fusão dos teatros nacionais de Lisboa e do Porto no Opart.

Jorge Salavisa evocou razões pessoais e só o devemos respeitar por isso, a sua demissão foi um passo de coragem e mérito, mas também deixou claro que não tinha condições profissionais para continuar no cargo. Rui Catarino, vogal da administração, decidiu apresentar as suas razões de forma clara e em carta pública. Confirmamos assim algo que já era claro: as projecções de ganhos de produtividade resultantes da fusão, que a ministra apontava na ordem dos 1,8 milhões de euros, foram construídos de forma falaciosa e irrealista. Em Cultura não há fórmulas mágicas que curem o desinvestimento.

Estes números no entanto pouco importam. A inabilidade governativa de Gabriela Canavilhas hostilizou o aparelho cultural e isolou o seu gabinete do próprio Partido Socialista, a aprovação do projecto resolução do Bloco assim o comprova. Perante esta situação Gabriela Canavilhas deu um salto em frente e anunciou um Agrupamento Complementar de Empresas (ACE) que irá gerir as Empresas Públicas do Estado pertencentes ao Ministério da Cultura (TNDM II, TNSJ e Opart). A ideia é de força. Uma super empresa para gerir empresas, todo um mundo de eficiência para pôr a Cultura a trabalhar. Mas há mais, esta super-estrutura terá custo base zero. Ou seja, segundo Gabriela Canavilhas a criação de uma nova estrutura que irá criar ainda mais um nível administrativo entre a direcção artística e a sua tutela irá não só não custar um único euro aos nosso bolsos como ainda provocar ganhos de eficiência extraordinários. Nestas coisas o céu é sempre o limite. 

Vamos ser claros, com este processo assistiremos a uma duplicação de funções, uma opacidade de responsabilidades e multiplicação de cargos de administração. Uma confusão que estas estruturas não mereciam. 

Na ideia da ministra esta super-estrutura irá administrar tudo o que não tem carácter artístico nestas instituições. No entanto aquilo que aparentemente é claro e simples tem implicações tremendas no dia-a-dia. Fica desta maneira consagrado que a direcção artística é totalmente autónoma, ao exponencial ridículo de não ter qualquer palavra a dizer na administração da estrutura onde trabalha. Esta ideia de que os artistas são incapazes de gerir seja o que for, para além de ser insultuosa é esquecer que o único período em que o Teatro Nacional São Carlos funcionou bem foi quando a direcção artística tinha sempre uma palavra a dizer. E isto é verdade no TNSC, tal como no Teatro Dona Maria, na Gulbenkian, em Serralves, na Ópera de Paris e no Met em Nova Iorque.

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