Palomares radioactiva 45 anos depois

09 de February 2011 - 12:47

A 17 de Janeiro de 1966, um bombardeiro B52 da Força Aérea dos EUA colidiu com um avião cisterna KC-135. Ambos os aparelhos foram destruídos. O B52 transportava quatro bombas termonucleares Mk 28. Três bombas caíram junto à aldeia piscatória de Palomares na Andaluzia, Espanha.

porRui Curado Silva

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Quarta bomba que caiu no Mar Mediterrâneo e foi recuperada dois meses mais tarde – Foto retirada do site brookings.edu

Há cerca de 45 anos, mais precisamente a 17 de Janeiro de 1966, durante uma operação de reabastecimento em voo, um bombardeiro B52 da Força Aérea dos EUA colidiu com um avião cisterna KC-135. Ambos os aparelhos foram destruídos. O B52 transportava quatro bombas termonucleares Mk 28. Três bombas caíram junto à aldeia piscatória de Palomares na Andaluzia, Espanha. A carga não-nuclear de duas bombas explodiu tendo espalhado plutónio radioactivo por uma área de cerca de dois quilómetros quadrados. A carga nuclear não explode por impacto como as bombas convencionais, mas através do correcto funcionamento do dispositivo detonador. A quarta bomba caiu no Mar Mediterrâneo, tendo sido recuperada dois meses mais tarde.

O nível de contaminação do solo de Palomares só atingirá o nível de radioactividade natural dentro de alguns milhares de anos. Para minimizar os efeitos da radioactividade, logo após o acidente, equipas americanas removeram mais de 1300 metros cúbicos de solo contaminado que foi transportado e colocado num depósito de lixo nuclear em Savannah River na Carolina do Sul, EUA. No entanto, depois de um estudo realizado por técnicos espanhóis em 2004 estima-se que restam ainda cerca de 50 mil metros cúbicos de solo contaminado numa área interdita à população local. No mesmo ano os EUA concordaram em pagar a limpeza do restante terreno contaminado, cujo custo foi estimado em cerca de 31 milhões de euros, mas o compromisso de limpeza da área e os pagamentos acordados não têm sido cumpridos na íntegra pelos americanos. Recentemente, uma fuga da wikileaksrevelou a preocupação da Embaixada dos EUA em Madrid sobre o impacto negativo na opinião pública espanhola e nas relações bilaterais entre os dois países, se a Administração Obama não respeitasse os compromissos assumidos.

Apesar de os EUA terem enviado recentemente uma equipa de cientistas para avaliar o estado de contaminação dos solos, o governo espanhol endureceu a sua posição e enviou uma mensagem directamente a Obama para que se procedesse à remoção do plutónio o mais rapidamente possível. A passada semana, 45 anos depois do acidente, Espanha decretou a interdição de reabastecimento em voo sobre o território espanhol de aviões da Força Aérea Americana.

Rui Curado Silva
Sobre o/a autor(a)

Rui Curado Silva

Investigador no Departamento de Física da Universidade de Coimbra