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O mundo não é um Golem

Dois terços dos países do mundo já reconheceram o Estado da Palestina, e a onda cresce.

Israel, como todos sabemos, é a terra do impossível sem limites. Em Israel, por exemplo, diplomatas fazem greve.

Greve de diplomatas? Impossível! Carteiros fazem greve. Estivadores. Mas diplomatas? O que poderia ser mais conservador, mais ‘establishment’, que os diplomatas? Em Israel, servem o governo, seja qual for. Diplomata é gente que encontra explicações para o que fazem os governos, façam o que fizerem.

Pois em Israel, é possível: os diplomatas israelitas, todo o serviço diplomático, todo o ministério de Negócios Estrangeiros cruzaram os braços. Estão em greve. Nada de passaportes para os cidadãos que perderam os documentos em Moscovo, nem ajuda do consulado a cidadãos que estejam largados numa cadeia em Nova York. Pararam todos os preparativos para a visita de Benjamin Netanyahu a Paris.

Há anos, o pessoal diplomático trabalha sob condições miseráveis. Os salários beiram o ridículo. Então... entraram em greve.

* * *

O primeiro-ministro está furioso? O ministro dos Negócios Estrangeiros perdeu o sono? Nem de longe. Netanyahu não moveu um dedo para pôr fim à greve, e Avigdor Lieberman não deu um passo para tentar levar os seus funcionários de volta às mesas de trabalho. Não ligam nenhuma. Ao contrário, parecem contentíssimos. No que dependa deles, que a greve continue para sempre.

E estão certíssimos. Esta semana, todos vimos o quão certos estão.

O presidente da Federação Russa, Dmitry Medvedev, tinha visita marcada a Israel. Mas antes, foi a Jericó, considerada a mais antiga cidade do mundo. Ali, na presença do presidente Mahmoud Abbas, declarou que a Rússia reconhecera o Estado palestiniano há muito tempo e que continua a reconhecer o direito dos palestinos a terem o seu Estado, com a capital em Jerusalém Leste.

Não é bem assim. Não foi a Rússia que reconheceu a Palestina, mas a União Soviética. E reconheceu o Estado virtual que Yasser Arafat declarou em 1988. É coisa muito diferente de reconhecer o Estado palestiniano agora, quando já se aproxima de tornar-se realidade.

Depois de visitar Jericó, Medvedev deveria ir a Jerusalém, para ser fotografado ao lado de Benjamin Netanyahu e apertar a mão de Avigdor Lieberman. Como Netanyahu reagiria à declaração de Jericó? Como arrancar-se do pântano, como afastar-se da questão sem se auto-humilhar e sem ofender o maior país do mundo?

A greve dos diplomatas israelitas resolveu o problema. Recusaram-se a preparar a visita e a organizar as reuniões. Medvedev entendeu, e os dois grandes estadistas – Netanyahu e Lieberman – respiraram aliviados.

No fundo do coração, Lieberman com certeza encantou-se com a atitude do pessoal que trabalha para ele, e que ele odeia. Desta vez, salvaram-lhe a pele. O que poderia dizer a Medvedev? Desde que entrou no ministério de Negócios Exteriores como um elefante em loja de porcelana, não faz outra coisa além de repetir que mantém magníficas relações com a Rússia. Os EUA amaldiçoam-no? Quem liga? Os EUA são um império decadente. Os europeus não querem recebê-lo? Quem liga? Quem, afinal, os europeus pensam que são?

Mas a Rússia é a Rússia. Ali, sim, temos amigos de verdade. Lieberman é admirador de Vladimir Putin, aquele grande democrata, que sabe lidar com gentinha, como os chechenos. Lieberman e Putin têm a mesma língua-mãe. Lieberman não se cansa de vangloriar-se de que mantém relações íntimas com a Rússia. E, agora, a Rússia lhe faz essa desfeita. Que desgraça!

* * *

A verdade é que Putin não é amigo de Lieberman. Yvette Lieberman (esse é o seu nome verdadeiro) só tem um amigo no mundo: Aleksandr Lukashenko, presidente da Bielorrússia, “o último ditador na Europa”.

Sim, Lieberman não nasceu em Bielorrússia, mas na Moldávia soviética. Mas não há dúvidas de que a Bielorrússia é a sua segunda pátria. Passava férias em Minsk, capital da Bielorrússia. Escondeu-se lá, quando, precisou chantagear (de facto, nem precisava) Netanyahu, até que “Bibi” lhe implorou que se unisse ao governo de coligação.

Lukashenko é a sua alma gémea. O seu modelo. Aprendeu com ele a lidar com organizações de direitos humanos. É fórmula patenteada pelo presidente da Bielorrússia, apenas licenciada para o líder do partido “Israel nosso lar”. Foi Lukashenko quem mandou aviso oficial aos activistas de direitos humanos no seu país, ameaçando-os com pesadas penas se continuassem a “distorcer informações” sobre a Bielorrússia.

“O ministério da Justiça distribuiu alerta por escrito”, diz o texto, “para o Comité Helsínquia sobre a Bielorrússia, a propósito de violações da lei sobre organizações civis e os média e por distribuir informação falsa que desmoraliza as agências de aplicação da lei e distribuição de justiça do país”. A polícia invadiu sedes de organizações de direitos humanos e a KGB (sim, os velhos nomes sobrevivem na Bielorrússia) abriu uma investigação oficial.

Daí Lieberman colheu a inspiração quando declarou guerra à paz e aos activistas dos direitos humanos em Israel, os quais, esta semana, chamou de “colaboradores do terrorismo”. Não falo línguas eslavas, mas tenho a certeza de que a expressão soa muito mais autêntica em bielorrusso que em hebraico.

* * *

Há quem ria (pelo menos por enquanto) de Lieberman dizer que as organizações do campo da paz e defensoras dos direitos humanos ‘deslegitimam’ o Estado de Israel e deslegitimam, sobretudo, o exército israelita.

Mas não se pode rir da própria deslegitimação. Cada dia que passa, mais e mais governos reconhecem o Estado da Palestina, e, no processo, batem com força no ouvido do governo de Netanyahu.

Quando o Conselho Nacional Palestiniano declarou, há 22 anos, a fundação do Estado Palestiniano independente, cerca de 110 países reconheceram o novo estado. Todos elevaram as delegações palestinianas ao estatuto de embaixadas. O governo de Israel ignorou-os. Para o governo de Israel, seria declaração vazia e reconhecimento sem significado. Nada foi alterado. Aos olhos do governo de Israel, outra colónia exclusiva para judeus na Cisjordânia seria mais importante que a opinião de uma centena de países. Como dizem em iídiche: Oilam Goilam – o mundo é um Golem1 (o monstro imbecil das lendas judias).

Mas a nova onda de reconhecimentos do Estado palestiniano é coisa completamente diferente. Quando países importantes como Brasil, Argentina e Chile reconhecem a Palestina, arrastando com eles outros países latino-americanos, a coisa é importante. Quando a Rússia renova o reconhecimento, pela voz dos seus mais altos representantes e em solo palestino, é evento importantíssimo. Se todos estão confiantes no apoio inabalável dos EUA, ao qual Israel se habituou, devem começar a prestar atenção a pequenas notícias que apareceram essa semana: a delegação permanente da OLP em Washington DC foi autorizada a hastear a bandeira palestiniana à entrada do prédio – direito de que só gozam as embaixadas.

Está em andamento, um interessante roteiro. Dois terços dos países do mundo já reconheceram o Estado da Palestina, e a onda cresce. Já não são apenas pequenos Estados do Terceiro Mundo, mas actores significativos do cenário mundial. Mahmoud Abbas e Salam Fayad continuam silenciosa e persistentemente a construir as instituições do Estado da Palestina. Estão empenhando muito esforço no trabalho de desenvolver e construir uma nova cidade ao norte de Ramallah, limitando os poderes das forças de segurança e ganhando a simpatia e a atenção de governos em todo o mundo.

E então? – pergunta o israelita médio. Afinal, os Goyim só estão a provar, outra vez, que são anti-semitas. Que importância tem o que façam os palestinianos? Nós mandamos no território e nenhum truque diplomático pode mudar isso. E enquanto os EUA nos apoiarem irrestrita e ilimitadamente, pouco nos importa quem reconheça o quê.

Será mesmo? Por muitos anos, Israel confiou cegamente nos EUA. Não havia resolução ‘anti-Israel’ que não fosse imediata e firmemente vetada pelos EUA. Mas... isso continua a ser o que antes foi? Quando tantos países importantes do mundo reconhecem o Estado da Palestina – que importância terá que os EUA, sozinhos, jamais reconheçam?

Enquanto os diplomatas israelitas fazem greve, uma nova iniciativa contra a construção de colónias exclusivas para judeus em territórios palestinianos ocupados ganha força no Conselho de Segurança da ONU. Todo o planeta é contra essas construções, que são manifestamente ilegais e contrárias à lei internacional. Até os EUA já pediram o fim das construções. Os EUA conseguirão vetar alguma resolução que manifeste a sua própria política, sem se tornarem, os EUA, motivo de escárnio universal? E se correrem o risco, e vetarem, e se tornarem motivo de escárnio universal desta vez... o que acontecerá da próxima vez, e depois, e depois?

E se o veto dos EUA controla o Conselho de Segurança, não controla a Assembleia Geral da ONU. Em 1947, foi a Assembleia Geral, não o Conselho de Segurança, que decidiu pôr na Palestina, lado a lado, um Estado judeu e um Estado muçulmano árabe. Se a Assembleia decidir que está mais que na hora de realizar a segunda metade daquela resolução – e estabelecer o Estado muçulmano e árabe na Palestina – estará apenas a reforçar o reconhecimento da Palestina que, hoje, já é praticamente planetário.

* * *

Os governos árabes, que muito têm falado a favor da causa palestiniana, mas até agora não moveram uma palha a favor de ajudar a criar o Estado palestiniano – devem agora pensar novamente.

Na Tunísia, o povo levantou-se contra uma ditadura igual a tantas outras ditaduras árabes – um pequeno gangue corrupto, indiferente aos desejos do povo e mais declaradamente ou menos declaradamente sempre ao lado de Israel.

Durante os 13 anos que Yasser Arafat viveu na Tunísia, visitei-o lá várias vezes. Sempre soube que por trás da fachada liberal e atraente, havia um duro e repressivo estado policial. Mas via os homens tunisinos pelas ruas, com uma flor de jasmim presa atrás da orelha (chamam Shmum), e nunca imaginei que ali, dentre todos os lugares do mundo, brotaria a primeira revolta popular no mundo árabe.

Pois aconteceu. E na Tunísia. É sinal de despertar para todos os países árabes, de Marrocos a Omã, aviso de que cairão todos os ditadores, de que todos tratem de criar regimes liberais democráticos; e que se não o fizerem, por todos os cantos brotarão regimes islâmicos.

Está escrito pelas paredes. O actual governo de Israel empurra o país rumo ao desastre. Esta semana, Israel afundou mais um pouco, quando Ehud Barak, Napoleão-de-bolso-de-colete, finalmente deixou cair a fantasia de esquerda social democrata e inventou um partido assumidamente de direita, uma espécie de Likud II – parceiro leal de Netanyahu e Lieberman.

Com esse governo, Israel precisaria de algum outro inimigo?

22/10/2011,

Publicado no site do Gush Shalom [Bloco da Paz], Israel

Tradução do colectivo da Vila Vudu, publicado em redecastorphoto

1 No folclore judaico, o golem (גולם) é um ser animado, feito de material inanimado, muitas vezes visto como um gigante de pedra. No hebraico moderno a palavra golem significa "tolo", "imbecil", ou "estúpido". O nome é uma derivação da palavra gelem (גלם), que significa "matéria-prima" [mais, em http://pt.wikipedia.org/wiki/Golem].

Sobre o/a autor(a)

Escritor israelita, jornalista, fundador do movimento de defesa da paz Gush Shalom.
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