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Austeridade e repressão

Carregar sobre uma concentração sindical que protesta contra os cortes salariais é não apenas uma afronta, mas também um sinal preocupante.

A carga policial e detenção de dois dirigentes sindicais que, na semana passada, se manifestavam em frente à residência oficial do primeiro-ministro, fizeram lembrar outros tempos. Não que neste nosso tempo a repressão esteja ausente – longe disso, sabemo-lo bem. A questão é saber se este poder em erosão evidente, confrontado com a conflitualidade social que as suas opções anti-populares produzem, está convencido que a força do medo é a solução para calar a rua. Carregar sobre uma concentração sindical que protesta contra os cortes salariais é não apenas uma afronta, mas também um sinal preocupante. Mais um.

É sobejamente conhecida a via da repressão, nas suas diversas expressões, para lidar com as tensões sociais e tentar derrotar os movimentos populares e de trabalhadores. Na Europa de hoje, vemos como vários governos seguem este caminho: enquanto a austeridade massacra a vida de milhões de pessoas, as polícias e os exércitos substituem demasiadas vezes uma política corajosa e que responda pela maioria e as suas dificuldades – Grécia, Inglaterra ou Itália são exemplos disso mesmo.

Em Portugal também sabemos bem o que significa esta opção. Há, infelizmente, vários exemplos ao longo dos últimos anos. Para Cavaco Silva, quando o seu Governo definhava e enfrentava o protesto (dos estudantes universitários, na ponte 25 de Abril), a agressividade da força repressiva de Estado foi o suspiro duma maioria que estava absolutamente desgastada e que já não conseguia responder ao país. Nas últimas décadas e de forma sistemática, os bairros da periferia das grandes cidades – onde foram irresponsavelmente aglomeradas pessoas que vivem, muitas vezes, a exclusão, a pobreza e a precariedade – foram alvos da violência policial, com demasiadas vítimas a lamentar. Mais recentemente, a Cimeira da NATO foi envolvida numa ofensiva mediática, baseada no medo e na intimidação, que nos queria convencer duma ameaça que não se concretizou: os protestos contra o militarismo e os donos do mundo só poderiam, nesta versão oficial, ser povoadas de terroristas; à falta deles, a polícia não resistiu à tentação e isolou uma parte da manifestação em Lisboa – já agora, convém relembrar, os famosos blindados servirão certamente para outras operações.

Neste ano difícil que agora começa, temos como certo o agravamento generalizado das condições de vida, que pesará particularmente sobre os mais fracos. Além de todas as chantagens, a luta política e social contra a ofensiva em curso deverá contar com tentativas de criminalização das organizações e das mobilizações contra a situação. Na resposta forte que precisamos, enfrentamos também a intimidação e as pressões várias para aceitarmos a austeridade como único futuro possível. Reforça-se, sem dúvida, ainda mais a necessidade de juntar forças neste combate decisivo.

Sobre o/a autor(a)

Ativista da Associação de Combate à Precariedade – Precários Inflexíveis
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