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FMI, letargia e Cavaco

Interiorizou-se a ideia de que a crise é regular, é constante, é o dia-a-dia normal.

Parece que está tudo à espera da chegada do FMI. Aliás, parece é que está tudo à espera que o FMI aterre na Portela e traga consigo a resolução dos problemas do país. Na verdade, existem alguns sectores de direita que gritam a altos brados que a única hipótese de resolução dos problemas do país é a vinda do FMI. Com excepção do governo PS, que diz que são tudo calúnias e que não há necessidade nenhuma de entrar por aí adentro o FMI, mas que se entrar também não há-de significar uma falha do governo, porque Sócrates vai tratar de levar a situação a bom termo, quase toda a opinião pública e publicada está conformada com o regresso do FMI.

Com efeito, não é que ande tudo contente com esta história mas ecoa pelos ares muita resignação. Como se se tratasse, mais do que duma hipótese provável, de uma inevitabilidade. E como as inevitabilidades não se discutem, em vez de se apurar as causas e as consequências concretas em torno de uma eventual intervenção do FMI no país, vai-se preparando o advento da coisa, ou seja, vai-se a aclimatando a sociedade à noção de que a pátria e sua branda maneira de ser hão-de adoptar a sua habitual cultura de sobrevivência às novas circunstâncias que aí vêm.

Parte do problema do momento que vivemos reside precisamente aí. No facto de, na percepção de um cada vez maior número de portugueses, a crise não se tratar, no horizonte das suas vidas, de um evento, esporádico e marginal, mas sim de um processo, duradouro e persistente, dos seus quotidianos. Dito de outro modo, interiorizou-se a ideia de que a crise é regular, é constante, é o dia-a-dia normal. A gente há-se se desenrascar. Ou não.

Há dias, numa acção de campanha, Cavaco Silva protagonizou um instante repulsivo quando, abordado por uma mulher que lhe dizia que já não sabia o que fazer para alimentar o filho, o candidato a presidente respondeu que deveria recorrer a uma instituição de solidariedade que não fosse estatal. Assim mesmo, alto e bom som, curto e grosso, sem pejo nenhum. Mostrou que, no seu entender, a vulnerabilidade do ser humano à miséria não deve ser assunto do Estado, e deixou claro que, apesar dos seus discursos, pronunciados em palcos de casino, a propósito da necessidade da responsabilidade e da sensibilidade social, não acredita naquilo que é uma evidência, que políticas públicas, económicas e sociais, orientadas para o amortecimento das desigualdades, podem ter efeitos palpáveis em termos de limitação dos impactes da crise social.

A questão é que, subscrevendo a política da austeridade, que vai enjaular o país ainda mais num ciclo vicioso de recessão, desemprego e pobreza, Cavaco Silva junta-se ao PSD e ao PS, formando um triunvirato que, especulando a propósito de como se evitar a subida dos juros da dívida ou como se pode acalmar os mercados, ignora o fundamental: que os PEC’s e os orçamentos que têm aprovado e promulgado fazem deles os senhores da crise, os responsáveis pelo agudizar das condições de vida de tantos portugueses e os arautos da letargia imbecil que apregoa que não existe alternativa possível ao neoliberalismo selvático e predador, letargia imbecil, essa, com que se preparam para, docilmente, receber o FMI e o fundo de emergência europeu.

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