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“Nenhum soldado dos EUA permanecerá no Iraque”

O primeiro-ministro do Iraque Nuri al-Maliki está nas manchetes da imprensa, por causa de entrevista que deu ao Wall Street Journal - Maliki on Iraq’s Future - durante a qual repetiu várias vezes que os soldados dos EUA estarão fora do Iraque dia 1/1/2012. Por Juan Cole.
Apesar do anúncio, em Setembro, da retirada das tropas de combate no Iraque, mais de 50 mil soldados dos EUA permanecerão no país. Foto US Army/Flickr

WSJ: Funcionários dos EUA têm falado sobre planos de contingência que estariam a ser preparados em Washington para a possibilidade de alguns batalhões dos EUA ficarem [no Iraque] depois de 2011. O senhor conhece esses planos? O senhor precisará de soldados?
Mr. Maliki: Não me interessa o que andem a dizer. O que me interessa é o que está escrito e assinado e o que foi acertado. O acordo SOFA [Acordo sobre o Estatuto dos Exército - Status of Forces Agreement] vigente, que regula a presença de soldados dos EUA no Iraque expira dia 31/12/2011. Nenhum soldado dos EUA permanecerá no Iraque.

Esse acordo é legal e tem um prazo determinado e não prevê extensão, excepto se o novo governo, com aprovação do Parlamento, desejar firmar outro acordo com os EUA ou qualquer outro país – o que é outra questão. O acordo actualmente vigente não admite prorrogação, não pode ser modificado e expira dia 31/12/2011.

Al-Maliki, ao lembrar que o Parlamento é o corpo competente para fazer qualquer novo acordo com os EUA para a volta de soldados dos EUA ao Iraque, deita água fria nas esperanças de muitos, em Washington, que ainda esperam conseguir que o primeiro-ministro estenda a autorização para a permanência de soldados estrangeiros no país.

Nem há qualquer razão para supor que al-Maliki teria interesse em fazê-lo. Em Janeiro passado, um alto funcionário dos EUA em Bassorá escreveu que “Segundo XXXXXXXXXX, o Governo do Iraque está ansioso para “livrar-se de todos esses brancos armados que enchem as ruas” [Guardian, 21/12/2010, WIKILEAKS, em: WikiLeaks cables: Iraq security firms operate “mafia” to inflate prices]. 

Não há 163 representantes no Parlamento iraquiano e respectivos votos interessados em prolongar a permanência de soldados norte-americanos no Iraque, e qualquer movimento nessa direcção derrubará, muito provavelmente, o governo de al-Maliki. 

O movimento Muqtada al-Sadr e seguidores têm 40 lugares-votos no Parlamento e são o partido que lidera a Aliança Nacional Iraquiana – dos partidos xiitas fundamentalistas que, juntos, têm 70 lugares-votos. Derrubariam o governo de al-Maliki e, muito provavelmente, voltariam à actividade militante, antes de votar contra as suas expectativas. A própria coalizão de al-Maliki “Estado de Direito”, que inclui o seu Partido Missão Islâmica (Da`wa) de modo algum aprovaria a permanência de soldados estrangeiros no país. São 89 lugares-votos no Parlamento. Esses dois blocos religiosos xiitas têm, somados, 159 lugares-votos. E, entre os árabes sunitas do grupo Iraqiya, há com certeza pelo menos 4 que se opõem à permanência de soldados dos EUA no Iraque. Et voilà, 163 votos. O Parlamento não aprovará.

Há muitas dúvidas ainda e desconfiança, entre muitos norte-americanos, sobre se os EUA realmente sairão do Iraque. Dúvida e desconfiança que se justificam, e há poderosos interesses políticos e militares em Washington que não querem sair do Iraque. Mas tudo parece indicar que a missão militar dos EUA no Iraque vive os seus últimos dias. 

De vez em quando ouço dizer que os EUA jamais abandonarão as suas preciosas bases militares, que são “permanentes” ou “duradouras”. A verdade é que bases militares permanentes não existem. Nasci numa base militar e fui criado em bases militares norte-americanas no exterior, nenhuma das quais sobreviveu até hoje.
De facto, eu estava entre os filhos e dependentes de militares que foram forçados a deixar a França, por ordem de DeGaulle em 1965-1966, quando retomou a França das mãos dos militares da NATO e fechou as bases dos EUA. Passei a minha adolescência em Kagnew Station, base dos EUA em Asmara, Eritrea – uma memória sombria. As bases são sempre o resultado de acordos bilaterais que expiram ou são rompidos ou são traídos (viz.: as Filipinas).

Os militares norte-americanos têm trabalhado muito, ultimamente, nas actividades necessárias para entregar já ex-bases dos EUA aos iraquianos, ou para organizar o comando conjunto EUA-Iraque de outras bases. Em Agosto, já haviam fechado 411 bases [Iraq withdrawal: unmistakeable signs of US military on way out ]. No website dos militares no Iraque, é evidente o “clima” de retirada [Official website of United States Forces – Iraq ]. No mês passado, os EUA anunciaram a transferência da base Al Tib, na fronteira com o Irão, para o comando dos iraquianos [US transfers border outpost to Gol]. 

Esta base, na fronteira com o Irão, era considerada um importante posto para escuta e observação do território iraniano e ponto preferencial para controlar o contrabando de armas do/para o Irão. Muitos militares dos EUA certamente gostariam de manter pelo maior tempo possível o comando dessa base. E a base já foi entregue ao comando dos iraquianos.

Há sinais muito claros de retirada rápida e significativa. Dia 5/12/2010, o NYT noticiou [U.S. Departures Leave Iraqi Workers in Limbo] que o número de iraquianos empregados nas bases e outros serviços prestados a militares dos EUA caíra de 44.000, para apenas 10.500, a partir de Janeiro de 2009. Ao longo do último Verão, de 2010, o número de contratos e bolsas e contribuições pagos directamente pelo governo dos EUA no Iraque caiu quase 25%. 

Começo a acreditar que realmente já não haverá bases norte-americanas no Iraque dentro de um ano. Alguns instrutores norte-americanos terão de treinar pilotos e outros soldados que terão de operar equipamento militar sofisticado. Mas já não se fala de contingentes muito numerosos, no máximo, algumas poucas centenas – e não estarão em missão militar. A Força Aérea dos EUA será a força aérea do Iraque, mesmo que sem querer, durante alguns anos (o Iraque já encomendou jactos de combate e helicópteros armados norte-americanos, que deverão ser entregue em 2013; os pilotos iraquianos precisarão de anos de treino para poder operá-los a plena força). Mas as missões de apoio aéreo poderão ser comandadas da base al-Udeid, no Qatar. 

Muitos ainda se preocupam com a influência política que os EUA poderão ter sobre o Iraque, nos próximos anos. Certamente haverá influência, mas influenciar não é sinónimo de ocupar nem de dominar. O Iraque buscará relações equilibradas entre as exigências dos EUA e do Iraque – como de facto já tem feito nos últimos anos. 

Os telegramas publicados por WikiLeaks mostraram o quanto o governo dos EUA influenciou, por exemplo, o governo australiano. E pode-se esperar que os EUA terão menor poder para influenciar governos no Iraque do que têm hoje para influenciar governos na Austrália. 

Nem de longe se sugere aqui que esse muito típico, específico, camuflado poder do Império Americano esteja a chegar ao fim, com a retirada dos soldados do Iraque. Mas estão a acabar, isso sim, os jogos caros e anacrónicos de dominação imperial directa, à moda George W. Bush.


Artigo de Juan Cole, publicado em www.juancole.com, traduzido por Colectivo Vila Vudu/Redecastorphoto
 

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