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Ambientalismo foi pretexto para manter limpeza étnica

Reino Unido usou um pretexto ambientalista e a conivência de ONGs para esconder o seu neo-colonialismo em Chagos.
Área protegida tem como objectivo impedir o regresso dos chagossianos

A sul das Maurícias fica o arquipélago de Chagos, formado por atóis de coral. Apesar de fazer parte das Maurícias, o arquipélago continua a pertencer ao Reino Unido, dado que em 1965 a coroa britânica aí constituiu o seu Território Britânico do Oceano Índico com o fim de lá criar bases militares. Em 1966, o governo britânico expulsou os 2000 chagossianos que ainda por lá viviam, tendo-os forçado a realojarem-se nas Maurícias, onde enfrentam desde então uma vida de miséria. A limpeza étnica tinha como objectivo permitir que os EUA lá pudessem construir uma mega-base militar, o que aconteceu em 1971, ano em que começou a construção da base nuclear de Diego Garcia.

Desde então, os chagossianos têm recorrido insistentemente aos tribunais para reclamar o seu direito a voltar a casa. Tendo-se tornado evidente que o Reino Unido não poderia esconder por muito mais tempo o seu crime humanitário, surgiu então um plano para criar uma reserva natural em Chagos, excluindo a área de Diego Garcia.

Desde o princípio que os sobreviventes de Chagos denunciaram a forma como o suposto ambientalismo por parte do governo britânico seria apenas parte de um plano para impossibilitar o seu regresso às ilhas. Mas isto não impediu algumas ONGs ambientalistas, como a União Internacional para a Conservação da Natureza e a Greenpeace, de apoiar o projecto.

A Zona Protegida Marítima de Chagos acabou mesmo por ser criada em Novembro, entre promessas do governo britânico de que a decisão não inviabilizaria o direito de regresso dos chagossianos. Mas um telegrama revelado pela Wikileaks mostra como o governo de Cameron e Clegg mentiu.

No telegrama enviado em nome do Ministério dos Negócios Estrangeiros e da Commonwealth, Colin Roberts, director dos territórios ultramarinos, admitiu que a proposta para a criação de uma área protegida tinha como objectivo impedir o regresso dos chagossianos. Roberts usa termos abertamente racistas para mencionar o povo de Chagos, como “Man Fridays” [alusão ao sexta-feira, o escravo de Robinson Crusoe] e explica que não se arrepende da expulsão da população. Ainda mais revelador é o facto de explicar às autoridades dos EUA que o lóbi ambiental é bem mais poderoso que o dos chagossianos. Nenhuma das ONGs envolvidas reagiu à denúncia da Wikileaks.

Fonte: Guardian

Sobre o/a autor(a)

Ricardo Coelho, economista, especializado em Economia Ecológica
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