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A mobilidade está cara

Dois números hoje conhecidos atestam o estado da economia nacional e a forma como os portugueses antecipam o aumento dos impostos e descida dos salários que terão lugar daqui a menos de duas semanas.

Não só os portugueses estão a gastar menos 22% no mês de Natal, como o clima de actividade económica e o indicador de actividade económica de Setembro e Outubro agravaram-se decididamente.

Como se o próximo ano não tivesse já todos os ingredientes para ser um pesadelo para as famílias portuguesas, o Governo decidiu atirar gasolina para a fogueira e aumentar os transportes colectivos muito acima da inflação. Ao anunciar um aumento geral de +4,5% nos preços dos transportes, e a redução para quase metade do apoio aos passes dos jovens estudantes, o Governo cede mais uma vez aos interesses dos patrões da indústria.

Quem paga? São sempre os mesmos. Com uma agravante evidente: é que 2011 vai ser um ano de redução generalizado do rendimento líquido das famílias, de redução de salários, aumento dos impostos e de congelamento de pensões. Por isso, 4,5% de aumento é um aumento brutal de preços, é um ataque inaceitável ao poder de compra das famílias, cujos contornos ainda não estão, aliás, completamente definidos.

Veja-se, por exemplo, o caso dos passes sub23. O Governo já aprovou no OE2011 a sua “redução” mas ainda não foi ontem que o Governo explicou que redução será essa. Vai acabar a redução de 50% nos passes sub23? Vai ser reduzida a metade? Qualquer que ela seja, ela será sempre significativa não para o suposto défice tarifário nos transportes mas para aumentar a exclusão de milhares de utilizadores dos transportes. Uns, porque já não podem pagar; outros porque vão deixar de querer pagar.

Ao mesmo tempo que, num ano de crise e diminuição dos rendimentos, o Governo aumenta decididamente os transportes colectivos, as empresas públicas anunciam o maior despedimento colectivo do ano. São milhares de despedimentos, não apenas na CP.

Despedir não é só lançar no desemprego centenas de trabalhadores e trabalhadoras, invocando, por exemplo, como anuncia a Administração da CP, no seu Plano de Actividades aprovado para 2011, a “extinção de postos de trabalho com recurso a mecanismos legais”.

Nesse capítulo, o grupo CP anuncia já hoje um total de 815 despedimentos.

Despedimentos são também os que vêm a seguir à redução de todos os serviços de transportes que se anunciam de Norte a Sul do país, urbanos, interurbanos ou regionais, rodoviários, ferroviários, aéreos ou fluviais.

Apesar de não parecer, esse é o anúncio mais profundo e determinante que o Governo se prepara para fazer: em nome da redução do défice, impor a redução da oferta em todos os serviços, reduzir, eliminar carreiras, zonas e regiões inteiras que vão deixar de ter acesso a transporte público.

E isso traz mais despedimentos, mais sangria das empresas públicas, para ficarem menos problemáticas para a privatização próxima.

Questionado pelo Bloco de Esquerda, no último debate quinzenal, sobre o número de despedimentos que se avizinham, o primeiro-ministro deu uma das suas assertivas respostas que, como já vem sendo costume, antecipam o contrário do que nos garante José Sócrates.

Despedimentos? Isso é um “disparate total”, uma atoarda do Bloco de Esquerda. Pois sim. A resposta não demorou uma semana. Uma empresa tutelada pelo mesmo Governo que, no Parlamento bate o peito e garante que despedimentos “jamais”, vai despedir quase mil trabalhadores.

Disparate total é aumentar os transportes muito acima da inflação num ano de redução dos salários.

Disparate total é, num ano em que muitos milhares e milhares de portugueses vão deixar o carro em casa, porque já não têm dinheiro para a gasolina, reduzir o número de carreiras e ligações dos transportes colectivos.

Disparate total é tornar os transportes colectivos tão pouco atraentes, seja pelo aumento do preço seja pela redução de serviços, tornando o caos em que se tornou o centro das grandes cidades ainda menos transitável.

Disparate total é um Governo que não tem outra política para os transportes que não seja ceder às exigências das empresas privadas e preparar a futura privatização dos operadores públicos.

Mas essa guerra ainda não está toda travada. Há muitas batalhas para travar. Com os trabalhadores, com as suas organizações sindicais e comissões de trabalhadores, com todos os cidadãos e cidadãs que não se importam que o dinheiro dos nossos impostos vá para financiar transportes públicos, baratos, acessíveis e integrados, o Bloco de Esquerda marcará presença na luta para combater os despedimentos, as privatizações, a redução de serviços, o transporte público.

Sobre o/a autor(a)

Economista de transportes
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