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Quem avisa, amigo é: nunca dê confiança a espiões ocidentais

A cada nova fuga, mais e mais a WikiLeaks expõe o desencaminhamento, o beco sem saída da política externa dos EUA e dos seus supostos “aliados”.
La Clinton recusou-se a confirmar a autenticidade dos 250 mil perfeitamente autênticos documentos. Foto de Nrbelex, FlickR

Diferente do que me informavam os boatos, a mulher disse, ao telefone, que não era espia, mas simples attaché da embaixada, que só queria conversar um pouco sobre o futuro do Líbano. Eram dias de sequestros na capital do Líbano, e ser visto num almoço com o comensal errado terminava numa cave dos subúrbios do sul de Beirute. Acreditei na mulher. E errei totalmente. Ela chegou com dois guarda-costas britânicos, armados, que se sentaram à mesa do lado. Minutos sentados num restaurante de peixe na parte alta do Raouche, e ela começou um interrogatório sobre armas do Hezbollah no sul do Líbano. Levantei-me e saí do restaurante. Na mesa do outro lado, havia dois homens do Hezbollah. Telefonaram-me, na manhã seguinte. Tudo bem: tinham visto que eu saíra do restaurante. Mas eu que ficasse esperto.

Desde que aquela mulher mentiu – mais de dois anos depois, contaram-me que ela tinha medo de fazer o que fazia como agente de espionagem – sempre evitei embaixadas dos EUA pelo mundo. A não ser que seja para falar com diplomatas irlandeses, suecos e noruegueses que conheço, ninguém jamais me verá em embaixadas de países ocidentais, em lugar algum do mundo. E nunca fui sequestrado.

Interessante é que, quase no mesmo momento em que a embaixada britânica tentava aplicar-me aquele golpe, os iranianos publicavam, em forma de livro, quantidades inacreditáveis de arquivos secretos da Embaixada dos EUA no Irão.

Os estudantes consumiram longos dolorosos anos, depois da revolução islâmica de 1979, a colar fragmentos rasgados das cópias dos telegramas diplomáticos enviados a Washington pela missão dos EUA em Teerão. Os norte-americanos confiscaram todos os livros que chegaram aos EUA – ah, os gloriosos dias de papel, antes da Internet – mas consegui comprar e tenho todos os livros em Beirute.

Dentre outras coisas, lê-se lá, num dos telegramas, a conclusão, redigida pelo attaché Bruce Laingen (13/8/1979), segundo a qual “a psique persa é de insuperável egoísmo (...). Resultado prático dessa psique é a preocupação quase total dos persas com eles mesmos, o que não deixa espaço para que compreendam pontos de vista que não sejam o de cada um”. Li e escrevi sobre este telegrama para o The Times há já quase 30 anos. E agora, lá está o mesmo telegrama, divulgado pela WikiLeaks, elevado ao trono de manchete pelo New York Times e por seu filhote International Herald Tribune, como se fosse extraordinário furo de reportagem. Não há – como se sabe – memória humana no New York Times. Lamento, mas essa “caxa” é dos iranianos. E esta semana, sabendo que os documentos bem podem conter o nome de infortunados jornalistas que vomitam o que sabem sobre o primeiro attaché “da Defesa” de embaixadas ocidentais no Médio Oriente, foi um conforto saber que ninguém leria lá o meu nome.

Foi fascinante assistir a Hillary Clinton, na tentativa inicial de denunciar a torrente de telegramas da WikiLeaks como “ataque contra a comunidade internacional”. Em dois momentos, ela avisou aos jornalistas que também haveria nomes de jornalistas, nos telegramas – portanto, que ninguém viesse com questões sobre liberdade de imprensa, dado que a WikiLeaks também conhece os nomes de muitos valorosos guerreiros mediáticos. O mais espantoso foi o efeito do “aviso”. Mal La Clinton se recusou a confirmar a autenticidade dos 250 mil perfeitamente autênticos documentos – ela falou de “supostos documentos” – e lá estava a BBC, imediatamente, também duvidando da autenticidade de “supostos documentos”; como se a matéria que estivera na manchete da BBC de minuto em minuto, de hora em hora, todos os minutos e horas das recentes 24 horas pudesse ser boato, coisa inventada. Depois, infelizmente, a Al-Jazira cometeu o mesmo erro.

O problema, é claro, é que não é boato nem coisa inventada. E a arrogância pomposa que La Clinton considerou necessária, para explicar a diferença entre os telegramas diplomáticos (os quais, sim, têm alguma relação com a realidade, embora nem sempre bem escritos) e os “documentos”, que emergem de seu hoje muito reduzido gabinete diz tanto quanto a enxurrada da WikiLeaks. Porque essa senhora, que não poderá escrever a própria biografia, ordenou – e tenho de sacudir a cabeça para acreditar em tal coisa – que seus serviçais espionassem na ONU.

Que La Clinton tenha mandado que os seus escravos no Departamento de Estado brincassem de agentes secretos com essa velha e patética ONU – a besta que saltita pelo palco, zombando do fracasso das fracassadas políticas dos EUA para o Médio Oriente, esse arranha-céus decrépito no East River, embrulhado em asbesto suficiente para envenenar uma nação inteira de guardiões da paz, essa ruína burocrática, com o seu patético secretário-geral, cujo inglês ainda carece de muito aprimoramento – mostra o Departamento de Estado dos EUA como é: uma instituição absoluta e totalmente sem qualquer serventia.

La Clinton mandou-os espionar detalhes encriptados da vida dos delegados, transacções com cartões de crédito, até cartões de empresas aéreas mais usados. Mas quem teria interesse em ler o nonsense que o pessoal da ONU e seus salários superinflacionados escrevem, ou quanto gastam em almoços no Nobu com o cônsul da Nicarágua, ou quem paga as passagens de amantes de quem para ir a Havana de boleia nesses voos da ONU?

Há muito tempo, a Air France concordou em entregar a espiões dos EUA os detalhes dos voos de seus clientes mais frequentes. Para que, então iriam querer a mesma coisa, outra vez? E por que espiar a ONU, se se sabe que o pessoal lá dirige a organização mais cheia de furos e fugas do globo? Uma vez, recebi tantas cópias idênticas de relatórios de soldados da paz da ONU no sul do Líbano – o tenente-general aposentado William Callaghan, irlandês, é testemunha – que tive de pedir aos soldados da ONU que me verificassem as suas listas, para saber quantas vezes o meu nome lá aparecia, repetido.

Mas fiquemos só no Médio Oriente. Hoje sabemos que o presidente Hosni Mubarak do Egipto “odeia o Hamas e os vê como parte da Fraternidade Muçulmana do Egipto, que, vê como a sua mais perigosa ameaça política”. Macacos me mordam. Para quem assistiu aos gangsters do Partido Nacional Democrático de Tio Hosni espancar a Fraternidade há duas semanas – para não falar dos polícias pagos a um dólar por dia, metendo na cadeia milhares de Irmãos – não chega a ser propriamente novidade. E tampouco é novidade, por falar nisso, que a imprensa egípcia sempre leal a Mubarak, depois das eleições, tenha alardeado o modo como o Partido Nacional Democrático “salvou a nação” com sua vitória massiva (tudo isso, claro, antes de conhecer-se qualquer resultado das urnas).

Quando Mubarak ouve o nome de seu adversário eleitoral Ayman Nour – homem encantador, com quem estive em Beirute, antes das eleições – diz que “sente náuseas”, segundo o telegrama da WikiLeaks. Exactamente o que Nour sentiu quando Mubarak o prendeu na prisão de Tora, antes das eleições de 2005. Todos aguardamos, naturalmente, para saber o que os telegramas diplomáticos realmente disseram sobre o facinoroso Yasser Arafat e – mais importante – o governo colonial de Israel na Cisjordânia. Mas nada temam, nenhuma verdade que lá exista jamais obnubilará os acintosamente arrogantes documentos “políticos” da lavra de La Clinton e seus antecessores.

A cada nova fuga, mais e mais a WikiLeaks expõe o desencaminhamento, o beco sem saída da política externa dos EUA e dos seus supostos “aliados”. É. De facto. A comunidade internacional está, sim, sob ataque. Está mesmo!

18/12/2010

Traduzido pela equipa de tradutores da Vila Vudu

Publicado originalmente no Independent. Retirado de Redecastorphoto

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Sobre o/a autor(a)

Jornalista inglês, correspondente do jornal “The Independent” no Médio Oriente. Vive em Beirute, há mais de 30 anos
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