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Cancún: “Mais vale nenhum acordo do que um mau acordo”

Para a Via Campesina, organização internacional da qual faz parte, entre outros, o Movimento dos Sem-Terra do Brasil, os governos continuam indiferentes diante do aquecimento do planeta. A seguir, a sua declaração no final da Cimeira de Cancún.
A Via Campesina em Cancún. Foto de ianmackenz, FlickR

Nós membros da Via Campesina de mais de 30 países de todo o mundo unimos as nossas lutas em Cancún para exigir da Cimeira sobre a Mudança Climática (COP 16) justiça ambiental e respeito à Mãe Terra, para denunciar as ambiciosas intenções dos governos, principalmente do Norte, de comercializar todos os elementos essenciais à vida em benefício das corporações transnacionais e para dar a conhecer as múltiplas soluções para melhorar o clima e travar a devastação ambiental que hoje ameaça muito seriamente a humanidade.

Tomando como principal espaço de mobilização o Foro Alternativo Global pela Vida, a Justiça Social e Ambiental, realizámos reuniões e assembleias com os nossos aliados e uma acção global que denominámos “os milhares de Cancún”, que repercutiu por todo o planeta e até mesmo nas salas do Moon Palace da COP 16. Esta acção de 7 de Dezembro teve como expressão da nossa luta uma marcha de milhares de membros da Via Campesina, acompanhada pelos indígenas Maias da península mexicana e os nossos milhares de aliados de organizações nacionais e internacionais.

A mobilização até Cancún começou no dia 28 de Novembro através de três caravanas que partiram desde San Luis Potosí, Guadalajara e Acapulco, que passaram pelos territórios mais simbólicos da devastação ambiental, apesar da resistência e das lutas das comunidades afectadas. O esforço das caravanas foi um trabalho conjunto com a Assembleia Nacional de Afectados Ambientais, o Movimento de Libertação Nacional, o Sindicato Mexicano de Electricistas e centenas de pessoas que nos abriram as portas de sua generosidade e solidariedade. Em 30 de Novembro chegámos com as nossas caravanas à Cidade do México, celebrámos um Foro Internacional e uma marcha, acompanhados de milhares de pessoas e centenas de organizações que também lutam pela justiça social e ambiental.

Na nossa jornada até Cancún, outras caravanas, uma de Chiapas, outra de Oaxaca e uma da Guatemala, depois de muitíssimas horas de viagem, uniram-se em Mérida, para celebrar uma cerimónia em Chichen Itzá e finalmente chegar a Cancún em 3 de Dezembro para instalarmos o nosso acampamento pela Vida e a Justiça Social e Ambiental. No dia seguinte, 4 de Dezembro, abrimos o nosso foro e assim demos inicio à nossa luta em Cancún.

Os actuais modelos de comércio e produção estão a causar uma destruição no meio ambiente da qual nós povos indígenas, camponesas e camponeses somos as principais vítimas. Assim, a nossa mobilização até Cancún e em Cancún foi para dizer aos povos do mundo que necessitamos de uma mudança de paradigma de desenvolvimento e economia.

É necessário transcender o pensamento antropocêntrico. Devemos reconstituir a cosmovisão dos nossos povos, que se baseia no pensamento holístico da relação com o cosmos, a mãe terra, o ar, a água e todos os seres viventes. O ser humano não é dono da natureza, mas uma parte do todo que tem vida. Ante esta necessidade de reconstituir o sistema, o clima da mãe terra, denunciamos

1. Que os governos continuam indiferentes ante o aquecimento do planeta e em vez de debater sobre as mudanças de políticas necessárias para arrefecê-lo, debatem sobre o negócio financeiro especulativo, a nova economia verde e a privatização dos bens comuns.

2. As falsas soluções que o sistema capitalista neoliberal implementa, como a iniciativa REDD+ (Redução de Emissões por Desmatamento e Degradação); o MDL (Mecanismo de Desenvolvimento Limpo), a geo-engenharia, representam a comercialização dos bens naturais, a compra de permissão para contaminar os créditos de carbono, com a promessa de não destruir bosques e plantações no Sul.

3. A imposição da agricultura industrial, através da implementação de produtos transgénicos, que atenta sobre a Soberania Alimentar.

4. A energia nuclear, que é muito perigosa e de nenhuma maneira é uma solução.

5. O Banco Mundial, o Fundo Monetário Internacional, a Organização Mundial do Comércio por facilitar a intervenção das grandes transnacionais nos nossos países.

6. Os impactos que provocam os tratados de livre comércio com os países do Norte e com a União Europeia, que não são mais que acordos comerciais que abrem as portas dos nossos países às empresas transnacionais para que se apossem dos nossos bens naturais.

7. A exclusão dos camponeses e dos povos indígenas nas discussões dos temas transcendentais na vida da humanidade e da mãe terra.

8. A expulsão de companheiras e companheiros do espaço oficial da COP 16 devido à sua oposição aos argumentos dos governos que apelam para um sistema depredador que acabará por exterminar a mãe terra e a humanidade.

Não estamos de acordo com a simples ideia de “mitigar” ou nos “adaptarmos” à mudança climática. Por isso, exigimos:

1. Retomar os princípios do acordo de Cochabamba de 22 de Abril de 2010 como um processo que realmente nos leve à redução de emissão de gases que provocam o efeito estufa e para conseguir a justiça social e ambiental.

2. A Soberania alimentar com base na agricultura camponesa sustentável e agroecológica, posto que a crise alimentar e a crise climática são o mesmo, porque ambas são consequência do sistema capitalista.

3. É necessário mudar os estilos de vida e as relações destrutivas do meio ambiente. Devemos reconstituir a cosmovisão dos nossos povos originários, que se baseia no pensamento holístico e na relação com o cosmos, a mãe terra, o ar, a água e todos os seres viventes.

A Via Campesina, como articulação que representa milhões e milhões de famílias camponesas de todo o mundo e preocupados pela recuperação do equilíbrio climático, chama a:

1. Assumir a responsabilidade colectiva da mãe terra, mudando os padrões de desenvolvimento das estruturas económicas e o fim das empresas transnacionais.

2. Reconhecemos governos como o da Bolívia, Tuvalu e alguns mais que têm tido a coragem de resistir ante a imposição dos governos do Norte e das corporações transnacionais e fazemos um chamado para que outros governos se somem à resistência dos povos frente a crise climática.

3. Obrigar a todos os que contaminam o ambiente a prestar contas pelos desastres e delitos cometidos contra a mãe Natureza. Da mesma forma, obrigá-los a reduzir as emissões de gases no lugar onde são gerados. O que contamina deve deixar de contaminar.

4. Alertamos aos movimentos sociais do mundo sobre o que acontece no planeta para defender a vida da mãe terra, porque estamos a definir o que será o modelo das próximas gerações.

5. A acção e a mobilização social das organizações urbanas e camponesas, a inovação, a recuperação das formas ancestrais de vida, devem fazer parte de uma grande luta para salvarmos a mãe terra, que é a casa de todos, contra o grande capital e os maus governantes – esta é a nossa responsabilidade histórica.

6. Que as políticas de protecção à biodiversidade, soberania alimentar, manejo e administração da água se baseiem nas experiências e administração plena das próprias comunidades.

7. A uma consulta global aos povos para decidir as políticas e as acções globais para deter a crise climática.

Hoje, agora mesmo, chamamos a humanidade para actuar imediatamente pela reconstituição da vida de toda a mãe natureza, recorrendo à aplicação do “cosmoviver”.

Por isto, desde as quatro esquinas do planeta nos levantamos para dizer:

- Nenhum dano mais à nossa Mãe Terra!

- Fim à destruição do planeta!

- Respeito aos nossos territórios!

- Nenhuma morte mais aos filhos e filhas da Mãe Terra!

- Não à criminalização das nossas lutas!

- Não ao entendimento de Copenhaga. Sim aos princípios de Cochabamba.

- REDD não! Cochabamba sim!

- A TERRA NÃO SE VENDE, RECUPERA-SE E DEFENDE-SE!

- GLOBALIZEMOS A LUTA, GLOBALIZEMOS A ESPERANÇA.

Delegação da Via Campesina em Cancún, em 9 de Dezembro de 2010.”

Tradução do blog do Fausto Brignol

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