O que a Wikileaks revelou

porLuís Leiria

15 de December 2010 - 0:11
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Apesar do poder da Casa Branca e do espernear da extrema-direita, os telegramas continuam a ser divulgados dia-a-dia.

Primeiro, tentaram desvalorizar as fugas de informação da Wikileaks. Eram só fofocas, diziam, nada que justificasse tamanho alarido. Coisas como aquela do líder líbio Kadafi que só viaja com uma voluptuosa enfermeira ucraniana.

Mas essa tentativa de minimizar o impacto do chamado Cablegate logo se mostrou contraditória com a reacção furibunda das autoridades e da direita norte-americana. Se as revelações eram tão inócuas, como explicar que houvesse um quase candidato à Presidência dos EUA, o republicano Mike Huckabee, a defender que o responsável pelas fugas fosse executado? Alguma coisa naqueles telegramas devia ser realmente importante.

Ora a verdade é que há muita coisa importante no que já foi revelado. E não esqueçamos que, dos 250 mil telegramas na posse da organização dirigida por Julian Assange, apenas foram publicados, até agora, menos de 1.500. A procissão ainda vai no adro.

Mas já ficámos a saber muitas coisas importantes.

Alguns exemplos:

– A própria chefe da Diplomacia americana, Hillary Clinton, ordenou que os diplomatas americanos se transformem em espiões na ONU, coscuvilhando números de cartão de crédito, números de cartão de milhagem e até ADN dos representantes dos outros países na instituição, incluindo o próprio secretário-geral.

– A farmacêutica Pfizer contratou investigadores para descobrir eventuais casos de corrupção ligados ao procurador-geral do país, Michael Aondoakaa, de forma a pressioná-lo a abandonar o processo aberto contra a multinacional devido a um ensaio clínico que acabou por causar a morte de 11 crianças.

– Os EUA realizaram ataques com mísseis no Iémen, contra supostos alvos terroristas, matando vários inocentes. O presidente iemenita assumiu a autoria: “Vamos continuar a dizer que as bombas são nossas, não vossas”, disse ao general David Petraeus.

– Os ataques de hackers à Google na China foram ordenados pelas autoridades chinesas, que ordenaram também invasões electrónicas aos computadores de opositores e de activistas tibetanos.

– O inquérito sobre o Iraque realizado no Reino Unido foi ajustado para proteger os “interesses dos Estados Unidos”.

– A Suécia é um membro encoberto da NATO, e a partilha de informação de espionagem é escondida do parlamento.

– A diplomacia americana exerceu forte e directa pressão sobre o governo e as autoridades judiciais espanholas para obter o arquivamento de três processos contra os Estados Unidos ou militares americanos, nomeadamente a que se refere à morte do cinegrafista José Couso, em Bagdad, provocada por disparos do exército americano em 2003, durante a invasão do Iraque.

– Em Portugal, descobrimos (por enquanto) que a diplomacia americana agradece a Sócrates ter "permitido aos EUA usar a base das Lajes nos Açores para repatriar detidos de Guantánamo", "uma decisão difícil que nunca se tornou pública", segundo o El País;e também que temos banqueiros que se oferecem à embaixada americana para ser espiões.

E olhem que a lista acima é curta. Há muitas, mas muito mais revelações graves e sérias, que nada têm a ver com enfermeiras ucranianas.

Mas a mais grave revelação provocada pela Wikileaks não vem em qualquer telegrama. O mais sério foi que ficámos a saber que o governo dos EUA pode actuar quase instantaneamente para estrangular financeiramente qualquer cidadão, usando empresas multinacionais e nacionais sem sequer ter um mandato judicial. Basta um telefonema. Agora sabemos que estas – Amazon, Paypal, Mastercard, Visa, PostFinance obedecem cegamente, sem qualquer consideração pelos próprios clientes... Basta um ai do Departamento de Estado para que um banco suíço bloqueie uma conta e revele publicamente o seu titular. Isto na Suíça, famosa mundialmente pelo seu segredo bancário...

Mas talvez a maior revelação da Wikileaks é que apesar do poder desmesurado da Casa Branca, do espernear da extrema-direita, da histeria de tantos comentadores vendidos, da derisão com que alguns tentam minimizar este verdadeiro serviço público de informação, os telegramas continuam a ser divulgados dia-a-dia. Ninguém o consegue impedir. Poderosos, habituem-se.

Luís Leiria
Sobre o/a autor(a)

Luís Leiria

Jornalista do Esquerda.net
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