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Se o clima fosse um banco estava salvo

Para salvar o clima não temos de o transformar num banco, mas exigir justiça climática juntando as vozes das populações.

Depois de Copenhaga, um ano depois, temos um novo fracasso na Conferência Climática da ONU. Nem mesmo o acordo de última hora, apresentado pelo México, veio salvar a face dos cerca de 190 países que aí se reuniram para negociar o protocolo pós-Quioto.

Nem metas vinculativas de redução das emissões poluentes para depois de 2012, o que seria fundamental para evitar aumentos da temperatura média global superiores a um máximo de 2º C (o que já trará consequências humanas e ambientais graves), nem medidas consequentes para apoio à adaptação dos países vulneráveis às alterações climáticas inevitáveis. Ficámos com o vazio, apenas na certeza da continuidade das soluções de mercado que apenas transferem a poluição dos países ricos para os pobres e privatizam os recursos naturais e ecossistemas, como se quer fazer com as florestas.

Ao capitalismo global não interessa salvar o clima. Porque salvar o clima e as condições de vida de milhões de pessoas em todo o Planeta, significa transformar o modelo económico de crescimento que assenta na sobre-exploração dos recursos, no desperdício poluente, na irracionalidade do uso dos bens públicos, bem como na desigualdade social ao privar os mais pobres do acesso aos mesmos e porque são eles as primeiras vítimas dos fenómenos extremos resultantes das alterações climáticas. A razão: as escolhas económicas são feitas para obedecer aos critérios do lucro e da acumulação de capital em poucas mãos, ou seja, da ganância, e não para responder às necessidades das populações, mesmo as mais básicas, e preservar os recursos e o ambiente para as gerações futuras.

Este é o mesmo modelo e as mesmas escolhas responsáveis pela actual crise financeira e económica, sem precedentes à escala global, cujos reflexos sociais são gigantescos pela destruição de emprego e alastramento da pobreza. E também aqui o capitalismo escolhe os seus alvos: corre a salvar os bancos e continua a alimentar a sua ganância, impondo toda a austeridade sobre a maioria social que trabalha e foi desde o primeiro momento atacada pelos efeitos da crise. É a esses que são pedidos todos os sacrifícios, a quem é pedido que transfiram uma fatia cada vez maior do valor do seu trabalho para os patrões e a banca que especula com os dinheiros públicos.

É que toda a consolidação orçamental que é feita, à conta do corte de salários, das prestações sociais, do subsídio de desemprego, do aumento de impostos sobre o rendimento e consumo, da penúria dos tribunais, das escolas, dos hospitais e centros de saúde, serve para pagar os prejuízos e a usura dos mercados financeiros, os quais não pagam nada, apenas colectam. A especulação financeira continua e não paga imposto, seja em offshores como nas grandes transacções financeiras do dia-a-dia. Ou seja, vivemos pior, temos piores serviços públicos, pagamos mais, tudo apenas para alimentar a ganância dos que nos enfiaram na crise.

E o ataque prossegue quando se quer flexibilizar ainda mais as relações laborais e facilitar os despedimentos, impondo a precariedade e insegurança no trabalho como a norma social, com o propósito claro de tornar ainda mais baixos os salários já baixos desta maioria de pessoas e, assim, melhor remunerar os accionistas. É que os prémios e bónus milionários dos gestores ou os milhões distribuídos em dividendos, esses vão continuar a fazer o seu caminho sem grandes perturbações.

As promessas do capitalismo falharam. Uma sociedade com necessidades básicas asseguradas, com distribuição dos recursos por todos, com conforto e bem-estar social, com tempo para viver, com ambiente de qualidade, é uma miragem. Ela existe para uns poucos, mas não para a maioria da população mundial. Porque ao capitalismo interessa salvar os bancos, impondo a miséria social e a exploração do trabalho, como ao capitalismo interessa fazer negócio com os monopólios naturais, os recursos de todos e a poluição, impondo a escassez e as catástrofes sobre a maioria social, a começar pelos mais pobres.

Para salvar o clima não temos de o transformar num banco, mas exigir justiça climática juntando as vozes das populações. As mesmas vozes que serão precisas para exigir justiça na economia e travar a austeridade do desemprego, dos salários de miséria e da indignidade social.

Sobre o/a autor(a)

Dirigente do Bloco de Esquerda, engenheira agrónoma.
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