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Quando as palavras acordarem…

Quando a rua fala a verdade, e nela se reclama a vingança de todos os crimes cometidos e que ficaram por punir, os culpados tremem.

É nas palavras que o pensamento se constrói.

Hoje, a televisão utiliza um vocabulário que integra cerca de trezentas palavras.

O nosso vocabulário reduziu-se, à medida que os grandes mestres neoliberais foram entrando na nossa vida. Empobreceram-nos de palavras para nos empobrecerem de cabeça. Servem-nos todos os dias palavras ocas para ficarmos de cabeça vazia. Estratégias.

Têm medo das palavras. Por isso vão zombando de algumas que quando aparecem são imediatamente carimbadas com o estigma do “fora de moda”. Palavras interditas.

Gente medrosa, esta. Tem a audácia da pouca-vergonha e da impunidade, mas em contrapartida tem o pavor da frontalidade de um ajuste de contas.

Se por exemplo se disser – nós estamos pobres porque vocês estão ricos – esta gente chama-nos demagogos, simplistas, e saca da vergasta da linguagem económica e cifrada, encriptada de números e de leis herméticas e densas. Depois respira fundo e, furibunda e assertiva, ainda cospe mais um insulto: ignorantes.

As palavras às vezes desaparecem durante muito tempo e de repente visitam-nos com um ar inquisidor. Sentem-se traídas. Sentem em cada letra que as compõe a faca afiada do esquecimento. Nessa altura vingam-se. Querem provar que estão vivas.

As palavras, então, apoderam-se dos discursos e passeiam-se nas ruas. Às vezes legalmente, de facto e de direito; outras, à margem da lei, quando a lei decreta o seu fim ou a sua mais profunda infelicidade.

Os que têm medo das palavras, e por isso zelam pela sua deslembrança procedendo ao seu saque, é melhor que se acautelem. Podem ver-se gregos com elas, com as palavras esquecidas.

Porque as palavras têm a força de uma corrente que arrasta imparável tudo quanto é obstáculo.

As palavras abertas e livres são muitas vezes dramáticas. Nelas se contém o sofrimento da maioria. Mas não são trágicas. Trágicas são aquelas que sendo poucas, embrutecidas e desreguladas zelam pelo fim da frase e da gramática.

A herança das palavras. Há palavras que nos conduzem por caminhos estreitos donde não se vê coisa alguma que jeito tenha. Outras dão-nos acesso a geografias de futuro.

Há palavras que nos transformam em animais abjectos e outras dão-nos a dimensão do que a humanidade é capaz de fazer quando munida de pensamento onde não se sente o roçar do lucro e da esmola.

Há palavras que respeitam a particularidade de cada célula e outras impõem a normalidade a ferro e brasa.

Há palavras que depois de devidamente edificadas sustentam pensamentos magníficos como catedrais góticas e intensas. Outras, escavam no lodo concentracionário de pântanos imundos.

Há palavras que perdem a pele porque se assemelham a um mero produto fabricado numa linha de montagem, de uma qualquer fábrica de retórica. São essas as que são debitadas pela aparelhagem sonora dos que têm medo das palavras verdadeiras.

Há palavras lentas e outras velozes, como as ditaduras e as libertações; outras, ainda, são ritmadas e saltitantes, como aquelas em que os povos se reencontram; e há as que são penosas e dementes como uma tarde de desesperança em Wall Street.

As palavras às vezes revoltam-se e viram-se contra quem as usou e delas abusou para intentos sinistros. Contra quem à sua sombra cometeu as maiores patifarias.

Quando as palavras se asseguram da patranha em que foram incluídas rebelam-se contra os embusteiros. E nessa rebelião aparecem e impõe-se num diálogo altivo que não permite objecções. Metem medo.

Um exemplo? A palavra desregulação.

Desregulação? Não foi isso que quiseram e fizeram?

Aqui estou eu, a desregulação. Na rua onde a luta dói. Na greve onde as mãos se dão. Aqui estou eu. Simétrica e proporcional à que vocês utilizaram. Simétrica como as asas de uma borboleta. Proporcional como a força que cortou salários, esquartejou direitos, e defendeu tesouros extorquidos. Proporcional ao sorriso infame com que continuam nos vossos cargos de despojo. Aqui estou eu.

Tempo perigoso, este, em que vivemos. Tempo enganoso, parco de ideias asseadas que as grandes palavras sempre sustentam. Palavras antigas e poderosas. Palavras acesas. Tempo perverso aquele que nos espreita.

Há-de haver um outro tempo. O tempo da justíssima vingança. Há palavras perigosas. E também há vinganças leais alicerçadas na esperança, essa lâmina afiada que corta o desespero.

Há palavras que são frutadas e limpas. Outras são ácidas e provocam dor.

A própria vingança reconhece que não é justiça. Mas a vingança só aparece quando não há justiça. É a impunidade do crime que a provoca.

Por isso quando a rua fala a verdade, e nela se reclama a vingança de todos os crimes cometidos e que ficaram por punir, os culpados tremem. Então hão-de protestar pela regulação. Pelo garante da justiça.

E ela, a justiça, até agora tão dúbia, tão afastada da vida, talvez se decida a chegar.

Espera-se que não seja tarde de mais.

Sobre o/a autor(a)

Advogada, dirigente do Bloco de Esquerda. Escreve com a grafia anterior ao acordo ortográfico de 1990
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