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Combustíveis fósseis impunes em Cancún

Na cimeira mundial sobre o clima não há censura a nenhum país que amplie os seus planos de explorar combustíveis fósseis. Por Stephen Leahy, correspondente da IPS
Marcha Cancún - Foto de www.cloc-viacampesina.net

Cancun, México, 6 de Dezembro (Terramérica).- O principal motor da mudança climática é a queima de combustíveis fósseis. Então, por que continuam a ser investidos milhares de milhões de dólares na procura e extracção de mais petróleo, carvão e gás? A pergunta foi feita por delegados de povos indígenas do Canadá no Klimaforum, a cimeira da sociedade civil paralela à conferência da mudança climática de Cancun.

“A exploração das areias de alcatrão do Canadá lança na atmosfera 40 milhões de toneladas de dióxido de carbono por ano, e os ambiciosos planos de crescimento elevarão esse número para quase 140 milhões de toneladas até 2020. Toda a Dinamarca emite apenas 52 milhões de toneladas por ano”, disse Melina Laboucan-Massimo. A activista procede da comunidade cree do Lago Lubicon, na província canadiana de Alberta. Ali são explorados milhares de quilómetros quadrados de areia de alcatrão existentes em prístinos bosques e pântanos.

Os países partes da 16ª Conferência das Partes (COP 16) da Convenção Marco das Nações Unidas sobre Mudança Climática, que acontece até ao dia 10, no balneário mexicano de Cancun, não censuraram o Canadá por esta flagrante desconsideração com o clima mundial, afirmou Melina. A COP 16 busca estabilizar as emissões de gases causadores do efeito estufa para mitigar a perigosa mudança climática, embora não haja muitas esperanças de êxito. De facto, em Cancun não há censura a nenhum país que amplie as suas operações com petróleo, carvão ou gás natural.

A queima de apenas um quarto das reservas desses três combustíveis fósseis aumentará a temperatura média mundial acima dos dois graus, segundo a comunidade científica. “Não deveríamos esquecer que um aumento mundial de dois graus significa que o aquecimento nos levará muito além das variações naturais que a vida terrestre experimenta desde que os seres humanos existem”, disse no ano passado ao Terramérica Malte Meinshausen, do Instituto Potsdam para a Investigação do Impacto Climático, da Alemanha.

“Em Alberta, a região canadiana com mais Sol, não há investimento em energia solar”, disse Melina, do Greenpeace Canadá, ao falar perante representantes da sociedade civil sob um toldo plástico no El Rey Polo Country Club. O encontro aconteceu no Klimaforum, a cimeira da sociedade civil que tenta “promover e debater soluções sustentáveis e socialmente mais justas” para enfrentar a mudança climática.

Realizado nesse clube no meio de bosques costeiros, a 20 quilómetros da sede da COP 16, os jogadores de polo galopavam em torno do encontro, num enorme campo de jogo, enquanto Melina falava aos participantes sobre os danos da extracção de petróleo em Alberta. Não se trata apenas do maior projecto industrial do mundo, mas do mais destrutivo, pois gera entre três e cinco vezes mais emissões de carbono do que a produção petrolífera convencional, alertou Melina.

Milhões de litros de água doce são fervidos com gás natural para extrair alcatrão da areia. Esta água está tão contaminada que mata os pássaros que pousam sobre os lagos que cobrem mais de 50 quilómetros quadrados, acrescentou. “É uma loucura. Realmente, dá medo ver quanta terra mudou ao longo da minha vida, e nem mesmo tenho 30 anos”, enfatizou.

A maior parte dos 2,7 milhões de barris de petróleo produzidos diariamente vão para os Estados Unidos. Por isto que, tanto este país quanto o Canadá, pressionam e intimidam outras nações para impedir que proponham nestas reuniões uma moratória à expansão e exploração de combustíveis fósseis, disse Clayton Thomas-Muller, da nação cree de Mathias Colomb, no Norte do Canadá, e organizador da Rede Ambiental Indígena.

“Estes e outros países industrializados preferem acertos tecnológicos como a iniciativa REDD (Redução de Emissões de Carbono Causadas pelo Desmatamento e a Degradação das Florestas), carvão vegetal e mecanismos de captura e armazenamento de carbono em lugar de reduções reais das emissões”, disse Clayton ao Terramérica. Se o mecanismo REDD for aprovado, os países mais ricos poderão pagar para manter florestas em regiões tropicais como forma de compensar suas emissões contaminantes.

Assim, esses países obterão “créditos de carbono” que os ajudarão a provar que reduziram seus gases causadores do efeito estufa. “Estes mecanismos de mitigação baseados no mercado são alarmantes para os povos indígenas”, afirmou Clayton. São “falsas soluções” para a mudança climática e ameaçam direitos, terras e culturas dos povos originários, que reclamam uma suspensão de novas actividades petrolíferas. Se a maioria das pessoas se opõe naturalmente à privação de água, por que se deveria admitir a privatização da atmosfera mediante mercados de carbono?, perguntou.

A Bolívia tentou propor uma moratória junto de outros países signatários do “Acordo dos Povos”, de Cochabamba. Cerca de 35 mil pessoas reuniram-se em Abril nessa cidade boliviana para realizar a Conferência Mundial dos Povos sobre a Mudança Climática e os Direitos da Mãe Terra. Ali concordaram em reclamar a moratória e exigir dos governos do mundo que reconheçam os direitos da Mãe Terra.

Os aspectos medulares da plataforma de Cochabamba estavam incluídos no texto de negociação para um novo acordo vinculante, como outros tantos aspectos nos quais ainda não há consenso. Porém, a ministra dos Negócios Estrangeiros mexicana, Patricia Espinosa, que preside à COP 16, submeteu à consideração dos negociadores uma proposta de rascunho que excluía os temas de Cochabamba.

Apesar de, após a reclamação da Bolívia, ter sido informado que esse texto era apenas uma iniciativa pessoal e não o texto oficial de negociação, “aqui, na COP 16, as coisas são como sempre”, disse Clayton. Também funcionam como de costume os negócios da multinacional British Petroleum (BP), que anunciou o início do seu primeiro projecto nas areias de alcatrão do Canadá.

Junto com um sócio chinês, a BP, empresa responsável pelo desastroso derramamento de petróleo deste ano no Golfo do México, espera extrair três mil milhões de barris de petróleo com o seu projecto “Sunrise”, que tem investimento superior a 3 mil milhões de dólares e consumirá três anos. “Se queimamos o petróleo das areias de alcatrão, temos poucas possibilidades de impedir uma catástrofe climática”, disse Jess Worth, da UK Tar Sands Network (Rede Britânica pelas Areias de Alcatrão). “A BP sabe disso, e não dá importância”, afirmou Jess em um comunicado.

Artigo produzido para o Terramérica, projecto de comunicação dos Programas das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) e para o Desenvolvimento (Pnud), realizado pela Inter Press Service (IPS) e distribuído pela Agência Envolverde.

(Envolverde/Terramérica)

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