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Uma Encantadora Falsidade

Enquanto pressionava Stewart Brand para admitir que estava errado, parece que eu terei tropeçado numa nova táctica na guerra de propaganda empresarial.

Na semana passada dei a Stewart Brand um desafio simples. No seu livro “Whole Earth Discipline”, ele afirmou que o pesticida DDT “foi proibido em todo o mundo” como resultado da campanha de ambientalistas, matando milhões. A afirmação foi repetida no filme do Channel 4 de que ele foi o principal protagonista e que se intitulava “Aquilo em que o Movimento Verde Errou”. Desafiei Brand a que, ou fornecesse provas que apoiassem a sua afirmação, ou admitisse que estava errado.

Ao responder-me, não fez nenhuma das duas coisas. Também não conseguiu fornecer as fontes que prometera mostrar-me durante o debate televisionado a seguir ao seu filme. Escrevi isto para o sítio Web de The Guardian. Em resposta ele enviou-me uma longa série de mensagens de correio electrónico que poderá ler na íntegra no meu sítio.

Nenhum deles vai de encontro ao meu desafio, mas abriram-me os olhos em relação ao que temo ser a sua verdadeira agenda – que parece muito diferente do que afirma estar a fazer. Aqui está a carta aberta que acabo de lhe enviar, na qual respondo às suas novas afirmações e exprimo as minhas preocupações.

Caro Stewart,

Obrigado pelos suas mensagens e lamento levar algum tempo a responder: tive de verificar as suas afirmações antes de lhes responder. Antes de prosseguir, deixe-me lembrar-lhe algumas coisas que diz no seu livro:

“Toda a entrevista com uma figura pública deveria incluir a pergunta “Em que esteve errado e como isso mudou a sua visão?” A resposta dir-nos-á se a pessoa é intelectualmente honesta ou se é propagandista profissionali com umas historietas e manias de infalibilidade. ”

"Confessar ajuda a aprender"

"Não conseguir admitir um erro é paralisante"

Deveremos assumir que este conselho se aplica só a outras pessoas?

Dei-lhe agora várias oportunidades – antes, durante e depois do nosso debate na televisão – para admitir que cometeu um erro quando afirmou, em relação ao controle da malária, que o “DDT foi proibido em todo o mundo”. Em vez de o fazer, meteu-se num buraco ainda mais fundo.

Isto não é um assunto complicado. Uma proibição mundial não pode ter lugar sem um instrumento internacional. O único instrumento que conheço que regulamenta o DDT a nível global é a Convenção de Estocolmo de 2001. Ela não proíbe o uso para controle de doenças. Em vez disso, o DDT é proibido para fins agrícolas, não sendo uma razão menor o facto de que pulverizá-lo indiscriminadamente estimula a resistência aos mosquitos da malária. Se houver outro instrumento, por favor indique-o e cite o texto que for relevante. Se não houver, só precisa de admitir que está errado. Como sugerem as passagens que citei do seu livro, não é nenhuma vergonha agir assim. Vergonha é manter uma afirmação que se mostrou ser falsa.

Em vez de responder ao meu desafio, você começa os suas mensagens por citar selectivamente dois artigos que fazem alegações amplas e generalizadas (várias dos quais afinal são falsas), mas que não fornecem nenhuma prova da proibição global. Dei-me ao trabalho de ler esses artigos na totalidade e cheguei à conclusão que ambos, em secções que não cita, deixam bem claro que não houve nenhuma proibição global. Isso dificilmente ajuda o seu caso.

Então você dá o passo extraordinário de se virar para Patrick Moore a pedir ajuda. Moore, como estou certo que sabe, representa uma quantidade de indústrias poluidoras e destrutivas, e ajuda-as nas suas batalhas contra ambientalistas. Por exemplo, ele liderou a campanha da indústria madeireira contra as pessoas que tentam parar o corte total de florestas antigas no Canadá ocidental. Foi um porta-voz proeminente do movimento que nega que as alterações climáticas por acção humana estejam a ter lugar e foi frequentemente criticado por não declarar os seus interesses comerciais. Ele é a fonte de uma quantidade de mitos escabrosos sobre o movimento ambientalista.

Por exemplo, no “Grande Golpe do Aquecimento Global”, transmitido no Channel 4 em 2007, fez a seguinte afirmação:

“Quando abandonei o Greenpeace estava entre eles a adoptar-se uma campanha para proibir o cloro no mundo inteiro. Tal como eu disse, ‘é pá, isto é um dos elementos na tabela periódica, sabem; quer dizer, não me parece que seja nossa competência proibir todo um elemento’.”

Mas o Greenpeace nunca fez campanha para proibir o cloro em todo o mundo. Em vez disso fez campanha contra certos organoclorados, como a dioxina, e procurou – com sucesso – impedir que o cloro fosse usado para branquear pasta de papel no Ontário e na Colômbia Britânica por causa da poluição que estava a causar em rios e lagos.

Só isto deveria fazê-lo ter cuidado ao convidar Patrick Moore como perito sobre o que tem sido ou não interdito em todo o mundo.

Verdadeiro na forma, este mestre da propaganda empresarial tentou ajudá-lo inventando um conceito completamente novo no direito internacional: “uma proibição mundial de facto”. Que frase de raposa matreira que isto é – e que pouco ajuda o seu caso! Ou houve uma proibição mundial ou não houve. Se houve, mostre-me onde e quando.

Poderá ser verdade que, em certos lugares e momentos, o DDT tenha sido difícil de obter para fins de controle de doenças quando se acreditava que era a opção mais eficaz, embora você tenha ainda de me mostrar provas sérias de que seja esse o caso – que é um assunto muito diferente duma proibição em todo o mundo. Se for verdade, contudo, lamento-o. Como você, acredito que eliminar a malária pelos meios mais eficazes tem de ser uma prioridade global. Em 1989 tive problemas com um amigo em Manaus em cuja casa ficava quando deixei funcionários entrar e pulverizar as paredes com DDT. Achei que era o que se devia fazer; ele não.

Patrick Moore também lhe enviou um extracto do livro dele na esperança de que poderia livrá-lo do aperto em que está. Verifiquei algumas das afirmações que faz neste extracto e imediatamente achei que são exageradas e incorrectas.

Por exemplo, ele continua a afirmar que:

“O DDT até foi descontinuado para uso no controle da malária pela Organização de Saúde Mundial e a USAID.”

e que:

“a OMS e a USAID recusaram ajudar países que usavam DDT para o controle da malária.”

Essas afirmações são falsas. Não só essas agências não recusaram ajuda com esses argumentos, como nunca deixaram de usar DDT para o controle da malária, onde acreditavam que era a melhor opção. Em muitos casos não foi a melhor opção. Como Allan Scha, a perita em malária e antiga Coordenadora do Programa de Malária Global da OMS, indica na Lancet:

“a pulverização residual de interiores é uma intervenção eficaz, desde que um programa de infra-estruturas possa ser criado e mantido e que inclua pulverizadores formados, supervisores, gerentes, estoques, equipamento e transportes, que as estradas permitam o acesso a cada aldeia no momento devido e pelo menos uma vez por ano, e que os insecticidas não sejam desviados para a agricultura. … Tendo em vista as dificuldades encontradas na manutenção da pulverização residual de interiores, a OMS investiu substancialmente na exploração de outros métodos, mosquiteiros para as camas especialmente tratados com insecticida. Essas redes foram eficazes em diversos testes rigorosos, especialmente em reduzir a mortalidade infantil em África. Poucos testes compararam as redes tratadas com insecticida e a pulverização residual de interiores, mas os resultados sugerem por enquanto que os métodos são mais ou menos iguais em eficácia. … Na escolha entre pulverização residual de interiores e redes tratadas com insecticida, um grupo de pesquisa da OMS reunido em 2004 observou que a decisão, na maior parte dos casos, deve ser baseada em factores operacionais. Como as redes com insecticida de longa duração podem ser geridas facilmente com um risco mínimo da desvio de insecticida, para a maioria dos países mais sobrecarregados que não desenvolveram uma infra-estrutura de pulverização residual de interiores, a prioridade será assegurar a cobertura das populações em perigo com tais redes de longa duração”.

(com um tirar de chapéu a Tim Lambert)

Eis o que USAID diz:

“A USAID nunca teve 'uma política', como tal, pró ou 'contra' o DDT para a PRI (pulverização residual de interiores). A verdadeira mudança nos dois últimos anos foi um novo interesse e ênfase no uso da PRI em geral – com DDT ou qualquer outro insecticida – como uma estratégia eficaz de prevenção da malária na África tropical.”

Isto não foi difícil de encontrar – levou 20 segundos no Google – então, porque o Patrick Moore continua a espalhar este mito?

A USAID também diz que o uso de pulverização com DDT “para prevenir a malária é uma excepção admissível ao abrigo da Convenção de Estocolmo” e que a decisão sobre usar ou não DDT “é baseada na rentabilidade económica; em factores entomológicos; em materiais de construção locais; e na política do país anfitrião”.

Por outras palavras, tem ainda de me mostrar qualquer prova séria do que quer que seja, sem falar da afirmação de que houve uma proibição mundial. Pode continuar a desperdiçar o meu tempo e o seu se quiser, tentando defender algo que é evidentemente falso, ou pode mostrar um pouco da honestidade intelectual a que apela no seu livro aceitando que está errado. No momento actual você está a fazer-se parecer com “um propagandista de historietas com manias de infalibilidade.”

Entretanto tudo isso me pôs a pensar. Você intitula-se ambientalista e afirma estar a tentar reformar o movimento ambiental para bem dele. Contudo repete e logo tenta defender um mito posto a circular por lobistas corporativos sobre o movimento ambientalista – que conseguiu uma proibição global do DDT, matando milhões – mesmo quando é incapaz de mostrar provas para o apoiar. Então vira-se para um dos inimigos mais entrincheirados do movimento ambientalista a pedir ajuda. Por que devemos continuar a acreditar em si quando afirma que está do nosso lado?

Como Patrick Moore, você tira proveito das suas credenciais como fundador do primeiro movimento ambientalista. Como Patrick Moore, agora trabalha como consultor empresarial. A propósito, quem representa a sua companhia agora? A lista de corporações que a Sourcewatch dá como os suas clientes – inclusive a ExxonMobil, a Aramco Saudita, a Cargill, Dow Chemical, a Shell e a BP - põe-me os cabelos de pé. Mas está correcta? E por que deixou de transpor esta lista para o seu sítio Web? Como Patrick Moore, ataca o movimento ambientalista de formas que se ajustam aos interesses corporativos: apelando a que nós, realmente, deixemos as nossas campanhas pela regulamentação e o controle democrático, a favor de tecno-soluções.

Quando me cruzei pela primeira vez com o seu trabalho, tomei-o pelo seu valor nominal. À medida que li mais, comecei a pensar se você estará, como afirma, a ser pioneiro de uma nova forma do ambientalismo, ou antes de uma nova forma da consultoria corporativa. Parece estar a tentar moldar o debate ambiental para o ajustar às empresas para quem trabalha. A nossa correspondência não contribuiu em nada para afastar esta impressão. Consegue desenganar-me destas suspeitas?

Você é mais perigoso do que outros adversários do movimento verde promovidos pelas corporações. Não nega que as alterações climáticas estejam a acontecer. Não se torna abusivo, permanece educado e encantador, soa sempre razoável. Você é, por conseguinte, um operador mais eficaz do que eles: persuadiu muita gente influente que está a trabalhar para o bem do planeta. Temo que a campanha que está a dirigir seja o exercício mais insidioso e subtil na propaganda empresarial que encontrei até agora. Por conseguinte, ninguém, até agora, o desafiou. Com esta resposta, isso muda.

Sinceramente seu,

George Monbiot

www.monbiot.com

Publicado no Sítio Web de The Guardian, 10 de Novembro de 2010

Tradução de Paula Sequeiros para o Esquerda.net

ireferência aos spin doctors, especialistas em comunicação, propagandistas pagos para levar a opinião pública a acreditar determinadas versões dos factos

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