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Sahara Ocidental: “Se houver guerra, será total”, diz Ahmed Bujari

Após o desmantelamento do acampamento de El Aaiún pelas forças do exército e policiais marroquinas, jovens saharauis em Tindouf reclamam o regresso às armas. Ahmed Bujari alerta em entrevista para os efeitos imprevisíveis desta crise.
Ahmed Bujari, representante da Frente Polisario junto da ONU

Ahmed Bujari, é representante da Frente Polisario junto da ONU e tem participado em todas as rondas de negociações com as autoridades marroquinas promovidas pelo(s) SG das Nações Unidas.

A entrevista é de Antonio G. González para o levante-emv.com(El Mercantil Valenciano) e a tradução da Associação de Amizade Portugal Sahara Ocidental.

O delegado da Polisario em Madrid alertou sexta-feira passada para o provável regresso às armas, após a resposta vaga da comunidade internacional ante os sangrentos acontecimentos de El Aiún. Seria na realidade o regresso ao conflito armado com Marrocos após vinte anos de interregno. Até onde vai realmente esta advertência?

Tornou pública apenas uma análise concreta da situação, dos factos, e revelou que existe um clamor saharaui para mudar as coisas. E isso pode perfeitamente levar a concluir que a via diplomática se está esgotando.

O cessar-fogo com Marrocos foi declarado em 1991. Serviu para alguma coisa, do ponto de vista da Polisario?

Por um lado, nestes vinte anos fortaleceu-se a identidade e a unidade saharaui. Mas também se verificou que a comunidade internacional não cumpriu com as suas obrigações assumidas na resolução do conflito sobre a última colónia de África registada na agenda da ONU. Isso levanta a questão da coerência do sistema internacional, que mete água um pouco por todo o lado, mas os direitos saharauis estão em relação directa com aqueles que querem os saharauis. Que não haja dúvidas sobre isso.

Tem novos dados sobre o ocorrido com o desalojamento violento do acampamento saharaui perto de El Aaiún? Que informação tem?

As informações vão chegando com muita dificuldade. Mas temos razão em pensar que as coisas chegaram à dimensão de massacre. Por isso solicitamos ao Conselho de Segurança uma investigação sobre os acontecimentos. Mas França e Marrocos, como temem essa investigação, não a tornaram possível [Paris exerceu o seu direito de veto].

Que indícios têm?

Marrocos teve a ousadia de dizer quantas baixas teve, mas não fala das vítimas. E se uma força atacante, que aproveita o factor surpresa e a superioridade, tem um saldo de onze vítimas mortais e dezenas de feridos, é razoável pensar que a força atacada e surpreendida tenha uma lista de baixas cinco vezes superior. Estes são os cálculos. Por outro lado, há factos e indícios de que testemunhas oculares viram 36 cadáveres na morgue do hospital em El Aaiún. E há testemunhas oculares de uma fossa comum onde foram enterrados 16 homens e 19 mulheres. Todos estes indícios reclamam uma investigação. O Governo marroquino deitou por terra todo o esforço de vinte anos para convencer os saharauis de que a sua ocupação [do Sahara] era o paraíso para eles.

Dá a impressão de que o único caminho de manter o conflito na agenda internacional e que não acabe no esquecimento, é a intifada saharaui. Mas está à vista que isso será sangrento?

Os saharauis foram forçados ao caminho mais duro em 1975 quando Espanha nos abandonou. Fomos vítimas, em Fevereiro de 1976, de napalm e de fósforo branco [armas químicas utilizadas já pelos EUA no Vietname]. Centenas de saharauis morreram depois, seiscentos desapareceram, segundo os próprios mediamarroquinos, autoridades militares marroquinas lançavam combatentes saharauis feridos desde helicópteros. Ou seja, temos estado a viver o horror desde 1975. E o que se passou no acampamento de El Aiún é a continuação do horror que exerce uma potência ocupante contra um povo.

Há uma nova geração de saharauis em El Aiún que dizem negar-se a aguentar outros vinte anos de negociações. Tudo aponta para a sua radicalização.

A Polisario pretendia dar toda a prioridade à via diplomática, mas a brutalidade marroquina e a indiferença do Conselho de Segurança, por interferência directa da França, não permitem continuar a acreditar na via diplomática. Por isso, qualquer desenlace é possível. O que é mais difícil é que não há forma de o conter, escapa-se-nos. Daí o enorme erro do Conselho de Segurança ao não acordar uma missão de investigação.

Se se radicaliza a situação, os jovens de El Aiún não se porão à margem, mas podem vocês fazer frente ao muro marroquino?

Se Marrocos força essa saída os termos e os cenários de uma provável guerra serão muito diferentes daqueles que tiveram lugar nos anos setenta e oitenta. E sobre os muros... seriam os primeiros a voar, os muros e onde haja presença militar no Sahara Ocidental. Seria uma guerra total.

É de supor que, para que isso possa acontecer, vocês contam com o apoio da Argélia; de outro modo seria difícil?

Numa guerra total nessa região já não se sabe quantos amigos e quantos inimigos haverá.

Não entendi bem o que disse?

Digo que entraríamos no desconhecido e que isso poderia trazer surpresas agradáveis como desagradáveis...

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