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Alemanha: previsível aumento das exportações de armamento

Se o Ministério da Defesa concretizar a reestruturação planeada, tal significará uma significativa redução das compras do Ministério à indústria de armamento alemã. Se o Ministério reduzir as compras, a solução será exportar mais material de guerra.
Leopard 2A5, tanque alemão fabricado po Krauss-Maffei, equipado com canhão fabricado por Rheinmetall - Foto da wikimedia

O Ministério da Defesa alemão está a projectar uma reestruturação das forças-armadas, que consiste no fim da forma actual do recrutamento obrigatório, com uma consequente redução de efectivos. Essencialmente pensa-se numa redução dos actuais 252.000 soldados para 163.500 soldados. Este novo contingente será composto na sua maioria, 156.000 elementos, por soldados profissionais e por soldados com contrato por tempo determinado, acrescendo, em cada ano, 7.500 voluntários. Pretende-se, por um lado, eliminar custos com jovens que para este efeito são destituídos de vocação e por outro transformar o exército num corpo mais pequeno de soldados profissionais, mas mais eficaz e especialmente direccionado para intervenções no seio da Nato. 1

Não é no entanto a finalidade da reestruturação que aqui tencionamos abordar, mas sim um outro efeito seu, que poderíamos chamar um efeito “colateral” da medida.

O problema que se coloca é que, se o Ministério da Defesa concretizar a reestruturação planeada, tal significará uma significativa redução das compras do Ministério à indústria de armamento alemã. Ora uma eventual redução das compras traria um problema suplementar: a perda de postos de trabalho.

Por esse motivo, uma comissão de especialistas constituída para análise da questão, chefiada pelo próprio presidente da agência estadual responsável pela situação do emprego e dos desempregados na Alemanha, a “Bundesagentur für Arbeit”, já tomou posição sobre a matéria: se o Ministério reduzir as compras, a solução será exportar mais material de guerra, para evitar despedimentos, quer nos próprios fabricantes, quer nos fornecedores. A indústria de armamento ocupa na Alemanha cerca de 80.000 trabalhadores, a que acrescem dezenas de milhares nos fornecedores. E mesmo um representante da IG-Metall, a grande central sindical metalúrgica alemã, também já veio avisar que, se forem realizados pelo Ministério cortes nas encomendas de projectos de armamento, tal significará o desemprego de dezenas de milhares de trabalhadores.

Esta solução enquadra-se na linha política da coligação CDU-FDP no poder. A porta-voz do FDP para questões de política de segurança afirma que as propostas da comissão reproduzem muitas concepções da CDU-FDP e que fazem tanto sentido que quase poderiam resultar do próprio contrato de coligação destes partidos. 2 Portanto, para manter os postos de trabalho, a solução será exportar mais armamento, acrescendo ao que a Alemanha já exporta e que faz dela, depois dos USA e da Rússia, o terceiro exportador mundial.

Segundo informação da cadeia informativa n24, referindo-se ao relatório SIPRI (Stockholm International Peace Research Institute) de 2010, que apresenta o ranking das 100 maiores empresas produtoras de armamento de 2008, o consórcio BAE Systems (Grã-Bretanha) é o maior produtor mundial, seguindo-se a Lockeed Martin (USA), a Boeing, (USA) Northrup Grumman,(USA) General Dynamics (USA) und Raytheon (USA). No sétimo lugar a EADS,(Europa Ocidental) seguida pela L-3 Communications (USA), Finmeccanica (Italia) e Thales (França). No 18° lugar surge o primeiro consórcio de armamento russo, Almaz-Antei. Não foram considerados no ranking fabricantes chineses. As empresas alemãs Rheinmetall ( 29° lugar), Krauss-Maffei (42), ThyssenKrupp (49), Diehl (64) und MTU Aero Engines (79) continuam entre os 100 maiores fabricantes mundiais. No seu conjunto, as 100 maiores empresas realizaram em 2008 vendas no valor global de 385 mil milhões de dólares, mais 11% que no ano de 2007. As maiores vendas registaram a BAE Systems, com 32, 4 mil milhões, a Lockeed Martin, com 29,9 mil milhões e a Boieng com 29,2 mil milhões de dólares. 3

Bem dizia, já em 1981, o teólogo alemão Gunther Altner que em valores acumulados, existia em média um potencial explosivo de mais de 10 toneladas de TNT por cabeça da população mundial. 4 Também Herbert Marcuse em 1964 tinha escrito: “submetemo-nos à produção pacífica de meios de destruição, (...), a ser educados para uma defesa que deforma os defensores e aquilo que eles mesmos defendem”. 5

Eis-nos no meio desta espiral de armamento. E quando lemos as declarações dos responsáveis alemães acima mencionadas, ficamos com a noção de que há em tudo isto um limite que já foi ultrapassado. Diga-se, no entanto, que não se trata apenas da Alemanha. Pelo contrário, podemos com um grau de probabilidade muito perto da certeza presumir que o mesmo se passaria nos outros países produtores aqui referidos: em igualdade de circunstâncias pensariam e reagiriam muito provavelmente da mesma forma.

Porque o problema é em todos o mesmo, é que o sentido da humanidade já há muito que se apagou perante as necessidades de um sistema económico que não nos reconhece como seres humanos e apenas nos vê como “consumidores”. No capitalismo actual somos o que somos já nem sequer em função daquilo que temos, mas, pior ainda, em função daquilo que temos mas que não precisamos: como definia o filósofo alemão Vittorio Hösle, o prestígio social depende da capacidade de satisfação de necessidades absurdas e é tanto maior quanto mais absurda é a necessidade que se está em condições de satisfazer6. É para isto que é mobilizado todo o sistema económico, não para as necessidades sociais, mas sim para o desperdício, para a ostentação, para o exibicionismo. É para isto que se gasta o mundo, é para isto que se usam os seus bens naturais, e, sempre que necessário, que se entra em guerra por causa deles.

Nesta cegueira já não há capacidade para distinguir os contextos dos problemas. E no entanto, não se pode pensar no mesmo contexto, seja ele um contexto económico ou seja qualquer outro, a exportação de instrumentos de morte e a exportação de produtos correntes de consumo. Uma economia que apresenta como solução para a redução interna da compra de armamento o correspondente aumento da sua exportação, mesmo que para salvaguardar as vendas dos fabricantes e os postos de trabalho, é uma economia que já não é economia nenhuma, nem mesmo uma versão actualizada do capitalismo concorrencial de mercado. Vai para além dele, já apresenta os sintomas de um sistema de produção que perdeu todo o controle, que entrou em desvario, que enlouqueceu. Porque já não é capaz de distinguir, de um lado, por exemplo, entre uma t-shirt, um computador, uma peça de loiça, um automóvel, uma máquina de café, e do outro lado um tanque de guerra, e pensa que as exportações de todos estes produtos podem ser avaliadas no mesmo contexto, que são igualmente legítimas e que para resolver problemas de emprego interno a solução é inundar o mundo com armamento.

É a este ponto que as coisas chegaram.


Fontes:

1 Veja-se por exemplo o artigo no Financial Times Deutschland, www.ftd.de, de 23.08.2010, “Guttenberg wirbt für Abschied von der Wehrpficht” http://www.ftd.de/politik/deutschland/:bundeswehrreform-guttenberg-wirbt-fuer-abschied-von-der-wehrpflicht/50160306.html?page=2.

2 Estas informações encontram-se no artigo „Deutsche Rüstungsexporte-Kanonen für die Konjunktur, por Sebastian Fischer, em Der Spiegel, edição online de 11 de Novembro de 2010, http://www.spiegel.de/politik/deutschland/0,1518,728405,00.html

3 Informação da “n24”, de 12.04.2010, http://www.n24.de/news/newsitem_5988102.html

4 Gunther Altner, «Ich lasse dich nicht, du segnest mich denn», Predigt anlässlich des Universitätsjubiläums am 30.06.81 in Hannover in einem ökumenischen Gottesdienst, publicada no livro do mesmo autor, Fortschritt wohin? Der Streit um die Alternative, Neukirchen-Vluyn, Neukirchener Verlag, 1984, pág. 231.

5 Herbert Marcuse, One-Dimensional Man, Beacon Press, Boston, 1966, Introduction, p. ix.

6 Vittorio Hösle, Philosophie der ökologischen Krise, München, C.H. Beck, 2. Auflage, 1994, pág. 79.

Sobre o/a autor(a)

Professor universitário em Tübingen, Alemanha
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