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Saindo do Afeganistão

As denúncias do Paquistão pelo Presidente Obama e pelo Primeiro-ministro britânico, David Cameron, por “promoverem o terror” fazem perder a noção de que não haverá paz no Afeganistão sem o envolvimento paquistanês. Por Patrick Cockburn
General Ashfaq Pervez Kayani, actual chefe das forças armadas paquistanesas, foi chefe do ISI entre 2004 e 2007

O constante aceno de Cameron não vai mudar a inter-dependência existente entre as insurreições afegãs e o exército paquistanês que remonta à invasão soviética de 1980.

Porém, o elo entre as forças militares paquistanesas e os talibã é tanto uma oportunidade como uma ameaça. Os refúgios no Paquistão são cruciais para os talibã, portanto os seus líderes terão de abrir conversações de paz se o Paquistão insistir neste assunto. Tal é o nível de compromisso paquistanês no Afeganistão, permanente e duradouro, que o exército paquistanês terá de fazer parte integrante de quaisquer negociações.

As conversações sérias acerca do termo da guerra no Afeganistão têm de juntar os quatro grandes intervenientes do conflito: os EUA, o governo afegão, o Paquistão e os talibã. O objectivo das negociações deveria ser a formação de um governo nacional unitário. Outras iniciativas como as promessas de garantias aos talibã dos estados a oeste, do lado do governo de Cabul são absurdas e enganadoras para eles mesmos, por pensarem que estão a ganhar. Os seus líderes comentam abertamente que os EUA não teriam dispensado dois dos seus comandantes no Afeganistão, em menos de um ano, se pensassem que estariam a desempenhar uma estratégia bem sucedida. Os compromissos do Presidente Obama e de David Cameron relativos às datas para a retirada das tropas, mesmo que estes sejam condição para o progresso político e militar, mostram que nenhum dos líderes se sente politicamente forte para enviar mais soldados. Assim, para a aliança liderada pelos EUA, o tempo está a esgotar-se rapidamente.

Não somente a guerra contra os talibã não vem sendo ganha, mas também as insurreições vêm crescendo à medida que o governo de Cabul se torna mais fraco, apesar da chegada de novos contingentes de tropas americanas, no valor de 30.000 soldados. Campanhas altamente publicitadas, como a da reocupação de algumas aldeias agrícolas em Marja, na província de Helmand, falharam na tentativa de expulsar os guerreiros talibã. Esta falta de progresso verifica-se sabendo que existe apenas um número de 28.000 guerreiros talibã, enfrentando mais de 145.000 forças da NATO e 97.000 soldados do exército afegão.

A razão deste falhanço passa por problemas como a oposição da maioria dos afegãos à ocupação das suas aldeias e cidades pelas tropas estrangeiras, o descrédito do governo afegão do Presidente Hamid Karzai, devido às eleições fraudulentas de Agosto de 2009, e a crença entre o povo afegão de que este gere um regime de corrupção e de senhores da guerra. “Como resultado,” disse um especialista afegão, “a insurreição é bem aceite entre o povo, mesmo nos locais onde os talibã não estão.”

Os EUA e os seus aliados nunca souberam bem o que fazer quanto a um governo afegão que é cada vez mais desacreditado. Por agora estão a executar duas políticas completamente contraditórias: uma é a “afeganização” – entregar a guerra ao governo afegão, através da expansão do exército e da polícia afegãos, de um dia para o outro; dando-lhes também mais poder e ajuda monetária. A segunda política, empreendida pelo comandante americano general David Petraeus e pelo exército americano, consiste na criação de milícias locais que respondem directamente às ordens do general, em detrimento de Karzai, assim, enfraquecendo o governo central. Há assassinatos de possíveis comandantes talibã pela Task Force – 373, um esquadrão com o objectivo de assassinar, aterrorizar e enfurecer os camponeses que são, regularmente, vítimas acidentais.

Mesmo que o governo afegão não fosse fraco não iria ser possível ganhar a guerra pela via militar já que os talibã têm santuários na fronteira com o Paquistão. As críticas do Paquistão, incluindo a explosão de Cameron aumentaram gravemente em volume na semana que corre, sendo que a fuga de informação para a Wikileaks revelou que os serviços secretos militares do Paquistão – o Inter-Services Intelligence ou ISI – antevia as operações diárias dos talibã. Tais relatórios, que, aparentemente vêm dos serviços secretos afegãos, são pouco convincentes e assumidos como imaginação dos informadores locais. É pouco provável, para dizer pouco, que os agentes do ISI andassem a comprar pessoalmente bebidas alcoólicas nos mercados de Peshawar para as injectar com veneno e depois as dar às tropas do Ocidente. O ISI tem experiência e perícia suficientes para evitar o fornecimento de provas fáceis dos seus contactos com os talibã. Porém, uma característica principal da guerra afegã é o facto de os talibã não poderem ser derrotados porque quando a pressão aumenta eles procuram abrigo no Paquistão, onde os seus líderes têm as suas bases.

A íntima relação entre os talibã e o exército paquistanês não mudou em 2001, com o 11 de Setembro, altura em que a América estava na sua fase mais sensível, em termos de ataque. Não é provável que isso aconteça. A América necessita de manter boas relações com o exército paquistanês – uma força de três quartos de milhão, armas nucleares e com o controlo da política paquistanesa no Afeganistão – ou seja, não consegue fazer pressão eficaz por forma a que o Paquistão feche as suas fronteiras, mesmo supondo que esta guerra é viável. No início deste mês, Washington aplaudia a recolocação do general Ashfaq Pervez Kayani como chefe das forças armadas paquistanesas, embora Kayani, visto hoje como simpatizante das necessidades americanas, tenha sido chefe do ISI entre 2004 e 2007, quando estava a ajudar os talibã e recomeçar a guerra no Afeganistão.

Em vez de atacarem o quase controlo dos talibã por parte do Paquistão, Cameron e Obama fariam melhor se usassem o seu poder para acabar com a guerra civil no Afeganistão e a intervenção estrangeira que dura há mais de 30 anos. Os líderes talibã podem não querer entrar em conversações, ao acreditarem que estão no caminho para a sua vitória total sobre os EUA e a rendição dos seus aliados. Iriam preferir ver Karzai pendurado numa corda do que ao fundo da mesa das negociações. Contudo, se os generais paquistaneses acharem que chegou o momento do acordo com o Afeganistão, então será difícil para os talibã conseguir a recusa desse acordo.

Actualmente, os EUA, o Reino Unido e os seus aliados em conjunto com o governo afegão estão a dar prioridade à “afeganização” da guerra, ao invés de tentar negociar o seu fim. Esta foi a estratégia delineada na conferência internacional, em Cabul, no início do mês. Numa “afeganização” semelhante à “vietnamização” ocorrida no Vietname do Sul, há 40 anos, ocorre o encobrimento de uma retirada do ocidente. No que se refere à política substantiva terrestre regista-se o seu atraso pela fragilidade e pela legitimidade decrescente do governo de Cabul. Tendo falsificado os resultados das eleições presidenciais de 2009; em Fevereiro, Karzai apodera-se do controlo da Comissão para as Queixas Eleitorais, antes independente; em Setembro, é provável que fixe os resultados das eleições parlamentares.

Esta “afeganização” só pode mostrar resultados com o passar do tempo, e esse tempo ainda não passou. Um desenvolvimento do estado afegão a alta velocidade não iria funcionar. Por exemplo: o número oficial do exército afegão é de 94.000 homens, a sua força real é provavelmente de cerca de 60.000 e o plano para aumentar este sector tem como objectivo para 2011 atingir os 134.000 homens. A força policial, evidentemente corrupta, tem planos semelhantes de atingir grandes objectivos em espaços de tempo muito diminutos. Experiências passadas demonstram que, frequentemente, os recrutas se alistam para formarem uma pequena poupança monetária, alimentarem-se durante uns tempos e no final da recruta desaparecerem logo que possível. Muitos deles estão de tal forma mal-nutridos que não conseguem correr e usar os pesados equipamentos americanos ao mesmo tempo. Se encontrarem recrutas, é improvável que sejam pashtun, a comunidade a que pertencem 42% dos afegãos e na qual os taliban nasceram. Então, os soldados afegãos enviados para as terras dos pashtun serão maioritariamente tajiques, uzbeques e hazaras, que nem sequer falam a língua local.

O ênfase neste treino revela uma outra fraqueza do governo de Cabul: há falta de um grupo de apoiantes que esteja disposto a lutar e morrer por ele. Isto contrasta com os talibã e os seus aliados que de alguma forma usando armas de infantaria obsoletas conseguem aguentar-se contra as forças ocidentais pesadamente armadas e apoiadas pela força aérea mais moderna do mundo. O veredicto do combate durante o último ano mostra que o aumento de tropas e a “afeganização” está a falhar na tentativa de reequilibrar as forças contra os talibã. Tal facto poderá levar a que os talibã não tenham vontade de negociar quando estão a atingir os seus objectivos, apesar de a hostilidade da maioria dos afegãos que não são pashtun lhes negar a vitória total. Em negociações, eles sempre denunciaram Karzai como consequência americana e por isso apenas falarão com os EUA enquanto forças da ocupação acerca da retirada das tropas e da libertação dos prisioneiros. Os Estados Unidos, por sua vez, insistem que o governo de Karzai devia falar sozinho com os insurrectos, embora as negociações apenas sejam sérias se os EUA estiverem envolvidos.

Os obstáculos são enormes, mas esta pode ser a altura para a realização de um acordo. A Casa Branca gostaria de ver o Afeganistão afastado da primeira página dos jornais e do tema principal dos noticiários televisivos antes das próximas eleições presidenciais dos EUA, em 2012. Tal só se dará se os soldados americanos pararem de morrer, à semelhança do que aconteceu no Iraque em 2008, então o interesse dos média dos EUA no Afeganistão também iria diminuir progressivamente. Para alcançar isto, os Estados Unidos não necessitam de chegar a um acordo final, mas precisam de um cessar-fogo para parar as baixas de guerra não-politicamente sustentáveis. Um problema para os EUA é que muitos dos seus generais aprenderam as lições erradas no Iraque. Lá, as insurreições estavam divididas, não tinham qualquer comando central e, principalmente, estavam confinadas a um quinto da população iraquiana, que é sunita, e tinha a oposição de quatro quintos que são de origem xiita ou curda. Encurralados entre os sanguinários fanáticos da al-Qa’ida e as milícias e soldados xiitas, os rebeldes sunitas passaram do ataque às tropas americanas à aliança que formaram com os mesmos. A situação no Afeganistão é completamente diferente.

O governo de Hamid Karzai tem um incentivo para alcançar um acordo antes de os americanos começarem a retirada, uma vez que a sua força política depende destes. Um diplomata de Bagdade pô-lo desta forma: “A desconfiança nos estrangeiros faz parte do ADN dos afegãos.” Adicionou que Karzai e outros líderes afegãos sofrem de um “síndrome de Najibullah” – um medo de que sejam abandonados pelos seus patrocinadores estrangeiros como foi o último chefe-de-estado comunista Mohammad Najibullah, torturado e enforcado pelos talibã, em 1996. O seu possível destino pode pelo menos levá-lo a pensar em considerar conversações com os talibã e o Paquistão, mesmo que isto signifique que alguns dos membros do seu governo se alienem, pela sua pertença à antiga aliança anti-talibã do Norte, que recuperou da quase-derrota, aproveitando a vantagem da decisão dos EUA, após o 11 de Setembro de eliminar os talibã, com a sua concretização em, Cabul, Março de 2001.

O apoio do exército paquistanês aos talibã foi essencial para a sua sobrevivência e contra-ataque, em 2006. Chamado para conversações pelos EUA, pelos talibã e pelo governo de Karzai, o Professor Gilles Dorronsoro, um especialista no Afeganistão no Carnegie Endownment for International Peace, persuasivamente argumentou que “as negociações com os líderes talibã podem ser levadas a cabo sob a condição de o exército paquistanês aceitar em actuar como um mediador. Sem o Paquistão, não haverá qualquer solução no Afeganistão”. Agora, o exército paquistanês tem alguns incentivos para tentar um acordo. Estas negociações fariam do Paquistão, ao invés da Índia, o maior aliado americano da região. E mais do que isso, é para vantagem do Paquistão que os talibã se tornam parte de um poder internacionalmente reconhecido ao partilhar governo em Cabul. Pouco beneficiou o Paquistão ao ser o maior apoiante do regime ilegal Talibã no Afeganistão, entre 1996 e 2001.

E claro, seria muito melhor do ponto de vista da América, Reino Unido, NATO e do governo de Karzai se o exército paquistanês fosse o responsável por parar a transposição da fronteira Afegã-Paquistanesa de 2500 quilómetros pelos talibã sem pedido de autorização. Não há qualquer sinal de que isto possa acontecer, e de qualquer maneira também não seria de fácil execução. O exército paquistanês já está esticado mais do que o suficiente, reconquistando os distritos ocupados pelos talibã paquistaneses nas áreas tribais de administração federal, nas fronteiras a noroeste.

Os comandantes militares locais paquistaneses disseram-me que vêem os seus próprios rebeldes como criminosos e fanáticos, não merecedores do nome de talibã. Não podem fazer mais nada a não ser honrar os talibã afegãos que vêem como guerreiros da liberdade pashtun, lutando contra uma ocupação estrangeira e um governo hostil em Cabul.

E questionam ainda o porquê de ser dito à polícia do seu lado da fronteira que, como se fosse fácil, a coligação liderada pelos EUA e pelo exército afegão falhou redondamente na tentativa de proteger o seu lado. De variadas formas, o que é agora necessário conquistar, é o que foi alcançado no acordo de Bona, em 2001, quando se deu conta da queda dos talibã e Karzai foi seleccionado pelos Estados Unidos como novo líder do Afeganistão. Os talibã não estiveram presentes na conferência de paz e foram tratados como se tivessem sido completamente apagados da cena política permanentemente. A comunidade pashtun viu-se a si mesma marginalizada e em desvantagem no poder, e os interesses paquistaneses foram ignorados num acordo que foi a receita para a instabilidade. Nove anos após Bona, o Afeganistão está devastado pelos conflitos aparentemente insolúveis. Todavia, a solução pode ser encontrada apenas se, desta vez, os quatro jogadores que detêm o poder real do país negociarem um acordo.

Patrick Cockburn é o autor de Muqtada: Muqtada Al-Sadr, the Shia Revival, and the Struggle for Iraq

Tradução de João Tiago Branco para esquerda.net

Publicado em Counter Punch

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