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Os viciados na Guerra: 2016 e mais alguns

O actual elenco do Pentágono e do exército não consegue refrear-se. A guerra eterna está-lhes na massa do sangue. Esta é na verdade a definição de um vício – não na vitória, mas no próprio estado de guerra. Por Tom Engelhart
Isto parece ser um exército a preparar-se para retirar daqui a pouco tempo? Foto de Isafmedia

Nas grandes histórias são por vezes os pequenos pormenores que nos prendem a atenção. Na segunda-feira, o Washington Post publicou o primeiro de três artigos adaptados do novo livro de Bob Woodward, “Obama's Wars”, um relato nítido da maneira como o alto comando dos EUA encurralou o presidente no mais esconso canto afegão. Para ilustrar esta situação, o Post incluía um gráfico que o exército ofereceu ao presidente Obama numa reunião decisiva, em Novembro de 2009, destinada a analisar as políticas de guerra. Em poucas palavras, o gráfico resumia a “solução” preferida para a guerra do Afeganistão pelos encarregados de a levar a cabo – o Almirante Mike Mullen, presidente da Junta de Chefes do Estado Maior, o General David Petraeus, à época o comandante do Centcom (o Comando Central dos EUA), o General Stanley McChrystal, na altura o comandante-geral da guerra no Afeganistão, e o Secretário de Estado Robert Gates, entre outros.

Designado “Missão Alternativa no Afeganistão”, este gráfico é um exemplo clássico de ilustração visual de um desejo. No cimo encontra-se uma linha verde que sobe continuamente e representa o poder crescente das anémicas “Forças Afegãs” – o exército e a polícia – à medida que se aproximam de um objectivo teórico de 400 mil indivíduos, um resultado pouco provável, dadas as actuais taxas de deserção. Debaixo da trajectória verde de um suposto êxito encontra-se uma modesta linha azul curva, irregular e imprevisível que representa os 40.000 soldados dos EUA que Gates, Petraeus, Mullen e companhia estavam a pressionar o presidente a mobilizar para o Afeganistão.

No entanto, o pormenor que chamava a atenção eram as datas do gráfico. Algures entre 2013 e 2016, de acordo com uma vaga linha branca tracejada (que deixava grande margem para erro), as forças dos EUA seriam reduzidas radicalmente para ficarem um pouco abaixo – não se assustem – dos 68.000 indivíduos. Por outras palavras, daqui a entre 3 e 6 anos, se tudo corresse como planeado – uma grande improbabilidade dado o que se tem passado na guerra do Afeganistão até agora – os EUA poderiam reduzir o número de militares até aos níveis de Novembro 2009). (Quando Obama assumiu a presidência, havia apenas 31.000 soldados americanos no Afeganistão).

E quando é que esse exército diminui para próximo do zero? 2019? 2025? Os marcadores do gráfico eram demasiado políticos para incluir os anos para lá de 1 de Janeiro de 2016, por isso não há forma de sabermos. Mas observem aquele gráfico e perguntem a vós próprios: há alguma dúvida de que os nossos altos comandos, civil e militar, sonhavam, e recomendavam ao presidente de forma muito convincente, uma guerra eterna – uma guerra que o departamento do tesouro calculava que iria custar cerca de 900 mil milhões de dólares?

Claro que, como sabemos agora, o exército “perdeu” esta batalha. Em vez dos 40.000 soldados que queriam, conseguiram “apenas” 30.000 de um presidente frustrado (mais uns poucos milhares de tropas de apoio que o Secretário da Defesa foi autorizado a lá enfiar e algumas forças operacionais especiais que ninguém se preocupou muito em contar, sem esquecermos aqueles soldados extra arrancados à NATO, assim como alguns pequenos aliados que, contra pagamento, não podiam recusar. Isto tudo junto chega a um número suspeitamente aproximado dos 10.000 que o presidente tinha oficialmente negado aos seus comandantes de guerra).

Quando em 1 de Dezembro de 2009 Barack Obama falou aos cadetes de West Point e, através deles, a todos nós, para anunciar a segunda mobilização da sua administração, conseguiu pelo menos indicar uma data prevista para o início da retirada das forças dos EUA. (“Mas todos juntos, estes soldados norte-americanos e internacionais adicionais irão permitir-nos acelerar a passagem da responsabilidade para as forças afegãs e permitir-nos começar a retirar as nossas forças do Afeganistão em Julho de 2011.”) No entanto, não tinha sequer passado um nanossegundo – primeiro “nos bastidores” e rapidamente em público – e já os porta-vozes da administração se apressavam a tranquilizar o resto de Washington dizendo que tal retirada teria “condições de base”. Dadas as condições no terreno desde 2001, não é exactamente uma declaração tranquilizadora.

Entretanto, dias antes do discurso, o comandante da guerra no Afeganistão, McChrystal, já estava a trabalhar afincadamente para esticar a data da retirada que o presidente ainda iria anunciar. Começaria, disse ele, “algures antes de 2013”. Recentemente, o novo e consagrado comandante da guerra do Afeganistão, o General David Petraeus, tem garantido a qualquer pessoa que dele se aproxime que esta conversa de retirada não irá dar em nada.

Mais, Menos Nunca

Não nos esqueçamos aqui de duas coisas: da escassez das opções que o presidente tinha para considerar e das dimensões da mobilização que ele lançou. No final do Outono de 2009, toda a gente em Washington sabia que a “análise” da Guerra no Afeganistão que a administração discutia ferozmente nunca considerou uma opção “menos”, apenas as que envolviam “mais”. Agora vejamos, graças a Woodward podemos atribuir números definitivos a essas opções. A menor das opções “mais” foi a estratégia “contra-terrorismo mais” do vice-presidente Biden, que se concentrava no aumento de instrutores para o exército e a polícia afegãos, acrescidos de mais incursões de veículos aéreos não tripulados e operações das Forças Especiais. Envolvia uma mobilização de 20.000 tropas norte-americanas. De acordo com Woodward, os comandantes do exército, o presidente da Junta de Chefes do Estado-Maior e o Secretário da Defesa puseram isto de parte mais ou menos imediatamente.

A escolha do exército eram os 40.000 soldados e a concentração na contra-insurreição. Entre eles encontrava-se uma opção de 30.000 – 35.000 indivíduos que mal se vislumbrava. A outra única opção mencionada durante o processo de análise envolvia uma mobilização de 85.000 e também esta foi descartada pelo exército porque não havia simplesmente aquela quantidade de soldados. Foi esta então a “gama” total da discussão em Washington acerca da Guerra no Afeganistão. Não admira que o presidente, de acordo com Woodward, tenha exclamado irritado: “Então, qual é a minha opção? Vocês não me deram qualquer opção.”

Também é importante lembrar que esta ronda de mobilização envolvia muito mais do que aqueles 30.000 soldados e vários acrescentos. Ao fim e ao cabo, o “presidente” – e quando se lê o que Woodward escreveu perguntamo-nos se um presidente moderno não será, sob vários aspectos, um simples prisioneiro de Washington – também conseguiu mobilizar pessoal da CIA, três departamentos de estado, a USAID e outro pessoal civil e aumentar os corpos das empresas privadas.

Talvez seja ainda mais significativo o facto de, naquele Dezembro, o presidente e os seus conselheiros principais terem posto a guerra AfPak (Afeganistão/Paquistão) – para utilizar a nova expressão à época – numa espiral em crescimento contínuo. Entre outras coisas, aquela escalada incluía uma aceleração significativa das actividades de construção de bases norte-americanas que ainda não acabou, um aumento exponencial das incursões de veículos aéreos não tripulados da CIA nas fronteiras tribais paquistanesas (a quadruplicação dos ataques desde o último ano da administração Bush, incluindo pelo menos 22 ataques lançados este Setembro, o maior número até agora visto num mês), um pico recente no lançamento de bombas da Força Aérea no Afeganistão (que o General McChrystal reduzira durante algum tempo), um desenvolvimento das actividades das Operações Especiais em todo o Afeganistão e um aumento das violações das fronteiras com o Paquistão.

Estas violações reflectem em particular a frustração crescente dos comandantes norte-americanos que combatem uma guerra que corre mal no Afeganistão, onde inimigos cruciais encontram refúgio do outro lado da fronteira. Graças ao livro de Woodward sabemos que, em 2002, a administração Bush autorizou a CIA a organizar um “exército paramilitar” afegão secreto, baseado nas Forças Especiais dos EUA e dividido em “equipas de perseguição contra-terrorista”. Num total de três mil, estas forças irregulares intervieram como combatentes de proximidade e assassinos no Afeganistão – e, na era Obama, também se têm claramente aventurado pelas fronteiras tribais do Paquistão onde as incursões de veículos aéreos não tripulados da CIA já fazem parte do quotidiano. Para além disso, há apenas alguns dias atrás, helicópteros dos EUA subiram a parada no primeiro de dois incidentes desta natureza, ao aventurarem-se para lá da fronteira para atacar guerrilheiros taliban em retirada, naquilo que os porta-vozes do exército norte-americano classificaram de “auto-defesa”, mas que era conhecido na época do Vietname por “caça”.

Além disso, os comandantes militares norte-americanos, segundo relata o New York Times, ameaçam fazer pior. (“Como prova da frustração crescente dos oficiais norte-americanos, o General David H. Petraeus, o comandante-geral dos EUA no Afeganistão, fez recentemente ameaças veladas aos principais comandos paquistaneses, insinuando que os EUA poderiam lançar operações unilaterais por terra nas zonas tribais se o Paquistão recusasse desmantelar as redes de militantes no norte de Waziristão, de acordo com funcionários norte-americanos.”) No próximo ano, aquela expressão “Af/Pak” pode ganhar vida e ser uma realidade do combate na guerra.

Tudo isto faz parte, claro, da doutrina tácita do Pentágono por uma guerra eterna. Caso pensem que o estabelecimento de 2016 como data para uma retirada do Afeganistão era um plano digno de nota, observem este parágrafo de um artigo recente no New York Times, da autoria de Michael Gordon e John Burns, sobre as preocupações do Pentágono acerca das intenções do novo governo britânico para fazer cortes de 20% nas despesas com a defesa. “Funcionários norte-americanos e britânicos disseram que não esperavam que os cortes reduzissem a capacidade de combate britânica no Afeganistão ao longo dos próximos cinco anos.” Atentemos nisto por um momento: “ao longo dos próximos cinco anos”. Reflecte obviamente as ideias de funcionários anónimos com alguma importância e, se fizermos umas contas simples, regressamos de novo mais ou menos a 1 de Janeiro de 2016. Numa entrevista acabada de publicar na Rolling Stone, podemos constatar que até o Presidente diz, vaga mas lugubremente, acerca da Guerra no Afeganistão: “Vai levar-nos alguns anos a resolver este assunto.”

Ou pensem nas três bases 100 milhões de dólares (ou partes de bases) que, ficámos a saber por Walter Pincus, do Washington Post, o Pentágono se está agora a preparar para construir no Afeganistão. Estas, acrescenta ele, não estarão operacionais até, na melhor das hipóteses, “os finais de 2011”, muito depois da data estabelecida por Obama para a retirada das tropas. De acordo com Noah Shachtman, do blogue Danger Room, a modernização, no valor de 100 milhões de dólares, do futuro quartel das Forças Especiais no norte do Afeganistão, quando concluído, irá integrar: um “edifício de comunicações, Centro de Operações Tácticas, instalações de treino, posto médico, Instalações de Manutenção de Veículos… espaços para refeições, lavandaria e um canil para os cães de serviço... As infra-estruturas de apoio incluem estradas, sistema de produção e distribuição de energia eléctrica, poço de água, produção de água não potável, armazenamento e distribuição de água, sistema de recolha de esgotos, caixas de visita/condutas para sistemas de comunicação, passeios, caminhos, drenagem e estacionamento. Para além disso, o projecto inclui a preparação do terreno e medidas de segurança do recinto que irão incluir torres de vigia.”

Um Estado de Guerra no Horizonte

Digam-me: isto parece ser um exército a preparar-se para retirar daqui a pouco tempo?

E não esqueçam os 1,3 mil milhões de dólares de fundos pendentes no Congresso que Pincus diz que o Pentágono pediu “para a construção plurianual de instalações militares no Afeganistão”. Não há dúvida de que aqui estamos obviamente a falar também de 2012 e 2015. E os 6,2 mil milhões de dólares anuais que o Pentágono projecta gastar na formação das forças afegãs entre 2012 e 2016? E que tal o contrato do Pentágono que Nick Turse, do TomDispatch, descobriu ter sido adjudicado à empresa privada SOS International, acima de tudo para tradutores, cuja data de conclusão está prevista para Setembro de 2014? Ou então o que dizer da gigantesca embaixada, aliás centro de comando, aliás cidadela (feita à semelhança da embaixada dos EUA em Bagdade que é agora a maior do mundo) que a administração Obama decidiu construir em Islamabad, Paquistão?

E não nos esqueçamos do planeamento incessante do Exército para o futuro distante, encarnado num relatório publicado recentemente – “Conceitos Operacionais, 2016-2028” – supervisionado pelo Brigadeiro H.R. McMaster, um conselheiro sénior do General David Petraeus. Opta por pôr de parte as visões futuristas da guerra à “Buck Rogers” e em vez disso imagina operações contra-terroristas, apelidadas sombriamente de “guerras de exaustão” contra um, dois, muitos afegãos, até ao futuro distante.

Por conseguinte, eis aqui uma forma de pensarmos sobre isto tudo: como todos os glutões, o actual elenco do Pentágono e do exército não consegue refrear-se. Não consegue mesmo. A ideia de que terá de fazer dieta, no Afeganistão, ou noutro sítio qualquer, como mais tarde ou mais cedo vai acontecer, é profundamente enervante. A guerra eterna está-lhes na massa do sangue, de tal maneira que, se for necessário, estão preparados para tirar o tapete ao comandante supremo para que ela continue. Esta é na verdade a definição de um vício – não na vitória, mas no próprio estado de guerra. Não esperem que eles se auto-disciplinem. Não o farão.

Tom Engelhardt, co-fundador do American Empire Project, dirige o TomDispatch.com do Nation Institute. O seu último livro “The American Way of War: How Bush’s Wars Became Obama’s” (Haymarket Books), foi publicado recentemente.

Tradução de Ana Carneiro para o Esquerda.net

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