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Aumenta o tom e a artilharia pesada na 'guerra de divisas'

O sistema financeiro transformou-se no calcanhar de Aquiles da economia mundial e encaminha-se para a sua queda. Por Marco Antonio Moreno

Desde finais do mês passado, a economia mundial está em alerta vermelho. A guerra de divisas, desencadeada para evitar valorizações não desejadas face ao dólar, continuou. A tentativa de trégua, efectuada a semana passada pelos ministros das finanças de 187 países junto dos representantes do Banco Mundial e do Fundo Monetário Internacional, só encorajou o fogo cruzado. O sistema financeiro transformou-se no calcanhar de Aquiles da economia mundial e encaminha-se para a sua queda. Tal como previmos em A Origem do Caos Financeiro.

Por isso não é estranho que o debate económico tenha sido reformulado em termos de um campo de batalha e, se repararmos, tenha terminado a retórica da cooperação para impulsionar o crescimento mundial, retórica que existiu até há alguns meses. O tom mais combativo instalou-se nos centros de poder e o Senado dos Estados Unidos apresentou o projecto de lei para sancionar duramente os países que manipulem a sua moeda. Mais uma vez, os Estados Unidos olham para o exterior sem reconhecer que os grandes desequilíbrios globais e a concorrência desigual (ver gráfico de Der Spiegel) foram instaurados pelas suas próprias políticas, a começar pelo gasto excessivo e pela grande desigualdade dos depósitos que o economista Robert Frank reconhece hoje em The New York Times, dando conta do fim do sonho americano.

Foram os grandes desequilíbrios desencadeados pelo consumo excessivo e pela ânsia de crédito de países como a China, que produziam mas não consumiam, que colocaram o mundo nesta situação complexa que não se resolve a curto prazo. É por isso que a utilização desta agressiva artilharia pesada é inútil. Uma artilharia que vai da flexibilização quantitativa (emissão de dinheiro para comprar títulos de dívida) ao controlo de capital, à intervenção da moeda e até ao risco dos incumprimentos. Tudo isto para fazer com o que o dólar caia mais depressa do que o previsto e se antecipe à valorização do yuan. Não foi por acaso que a Pimco vendeu esta quinta-feira os títulos de dívida do Tesouro dos Estados Unidos: a insolvência da principal potência mundial começa a tornar-se real e a causar estragos em todo o planeta.

Ninguém pode negar agora que a economia caminha sobre terreno minado. Apesar dos planos de incentivo, das fracas recuperações e do ruído que as Bolsas tentam manter, a incerteza face ao futuro torna-se cada vez mais preocupante. Todas as acções se encaminham para o proteccionismo e para a repetição dos erros da Grande Depressão, numa direcção que ameaça minar a estabilidade global. Desta vez, a guerra comercial pode evoluir para uma explosão da bolha dos títulos de dívida soberana. Os fundos que se investem na dívida pública atingiram níveis comparáveis aos que se registaram nos produtos de bolsa antes da explosão da bolha tecnológica, no ano 2000.

Por outro lado, os cortes nos gastos e os planos de austeridade fiscal que os governos de muitos países são obrigados a assumir, estão a gerar situações de grande descontentamento. No caso do Reino Unido, o recente Prémio Nobel Christopher Pissarides fez notar que estes cortes mergulharão o país na pobreza. No caso de Espanha, Michael Piore avisa que «reduzir salários não ajuda nada». Como afirmámos noutros artigos, os planos de austeridade em fase de elaboração não só nos conduzem directamente ao fracasso, como comprometem o equilíbrio e a estabilidade social, ao fazerem com que esta guerra continue a subir de tom.

Publicado em El Blog Salmón

17 de Outubro de 2010

Tradução de Helena Pitta para o Esquerda.net

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