You are here

Entenda o que está em causa com a “guerra cambial”

Os Estados Unidos provocaram a desvalorização forte do dólar e inundaram o mundo com a sua moeda para cobrir os rombos dos seus défices. A lógica dessa movimentação tem por detrás o poder e os interesses do mercado financeiro. Extracto da análise do site IHU Online
Foto de DG Jones, FlickR

A “guerra cambial” é um desdobramento da crise económica mundial de 2008, o que dá força às teses que afirmavam que as consequências dessa crise se fariam sentir por muito tempo. A essência da “guerra cambial” está relacionada à excessiva liquidez de dólares no mundo e às resistências da China em valorizar a sua moeda. Trata-se, portanto, de uma guerra de gigantes, como destaca o economista Guilherme Delgado em entrevista à IHU On-Line.

No esforço do pós-crise de 2008, os Estados Unidos reduziram a taxa de juros para estimular a retomada da economia, provocando a desvalorização forte do dólar frente às demais moedas e inundando o mercado internacional de recursos. Os americanos estão a inundar o mundo com dólares para cobrir os rombos de seus défices, sem a menor preocupação pelos estragos que provocam.

Como na crise económica mundial, a lógica dessa movimentação tem por detrás o poder e os interesses do mercado financeiro. Segundo o economista Pedro Rossi, pesquisador do Centro de Estudos de Conjuntura e Política Económica da Unicamp (Cecon), "assistimos à subordinação das trajectórias cambiais às decisões de agentes financeiros".

O economista destaca que “o mercado internacional de moedas, conhecido também como Forex (foreign exchange market), é o mais líquido do planeta. Nele negoceiam-se em torno de 4 biliões (milhões de milhões) por dia, segundo o Banco para Compensações Internacionais (BIS). Esse montante desmedido excede com folga as necessidades reais da economia: em 15 dias, o mercado de moedas transacciona o equivalente ao PIB mundial no ano todo; ou ainda, em cinco dias, todo o stock de acções. Trata-se de um mercado que negoceia, além dos fluxos de comércio e serviços, o stock de riqueza global, mudando constantemente a forma da sua denominação monetária”.

Esse mercado joga, diz o economista, com “uma estratégia financeira que busca usufruir o diferencial de juros entre duas moedas, onde se assume um passivo ou uma posição vendida na moeda de baixos juros e, simultaneamente, um activo ou uma posição comprada na moeda de altos juros”. Em síntese, diz Pedro Rossi, “há algum tempo assistimos a um processo de subordinação das trajectórias cambiais às decisões de portfólio dos agentes financeiros. Esse processo gera a descolagem da trajectória das taxas de câmbio em relação aos fundamentos económicos”.

O mercado financeiro, portanto, tem interesse na guerra cambial ou na "guerra global de moedas", para utilizar a expressão do ministro da Fazenda do Brasil, Guido Mantega, e especula nesse cenário. A chegada volumosa de dólares, no caso brasileiro, está associada, por um lado, aos ganhos elevados das taxas de juros brasileiras e, por outro, à forte oscilação do câmbio.

No caso brasileiro, para se evitar uma valorização ainda maior do real frente ao dólar, o governo, por um lado, aumentou o Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) duas vezes e, por outro, passou a comprar dólares. Essa compra de dólares pelo Tesouro é tudo o que o investidor estrangeiro quer, destaca análise da organização Auditoria Cidadã da Dívida, “pois o governo paga estes dólares com títulos da dívida interna, que rendem aos especuladores os maiores juros do mundo".

A guerra cambial, portanto, é um tema complexo. Situa-se no contexto da crise económica mundial hegemonizada pelo mercado financeiro e é estimulada por políticas proteccionistas dos Estados-nação. A longo prazo apenas será debelada a partir de um nova concertação mundial do tipo Bretton Woods, algo difícil de se construir. Até lá, os solavancos na economia mundial continuarão e assistiremos a um “salve-se quem puder”, onde cada país utiliza as armas que tem e que pode para proteger sua economia.

Guerra cambial e G20

O grau de dificuldade de superação da guerra cambial pode ser visto no encontro do G20. O jornalista Vinícius Torres Freire, falando sobre o encontro, comenta que os "países do G20 assinam comunicado para americano ver e para brasileiro lamentar”. Segundo ele, “os ministros pariram um comunicado sem graça e de escasso valor prático, como de costume, mas no qual se diz que o valor das moedas dos países do grupo deve ser cotado pelo mercado (rir, rir)”.

O que está em jogo?, indaga Vinícius Torres Freire, e destaca: “Políticas de câmbio e económicas que permitem a alguns países terem grandes superávits externos (grosso modo, exportação de bens e serviços muito superiores às importações). Por exemplo, China e Alemanha, a China em especial, pois, além de poupar muito (o que redunda em muito excedente exportável), ‘manipula’ a sua moeda, adopta políticas de câmbio que baixam ainda mais o valor do yuan (o que torna os produtos chineses ainda mais baratos)”.

Como alerta o economista Guilherme Delgado, a guerra cambial não está apenas relacionada ao câmbio, mas está ligada às “relações económicas internacionais que não estão resolvidas”. Segundo ele, a ideia de que a crise internacional terminou é falsa. “As repercussões monetárias e financeiras da crise estão presentes até agora”.

Delgado destaca que um dos principais factores da guerra cambial está relacionado à tentativa da economia norte-americana tentar recuperar-se da crise de 2008, e com isso, o dólar, que, desde o Acordo de Bretton Woods, rege o sistema monetário internacional, gradualmente pode perder espaço entre as economias. “Quando se perde a hegemonia da potência emissora da moeda de reserva, os países adoptam políticas de defesas cambiais e comerciais para preservar a sua posição competitiva no mercado internacional. (...) Países como o Brasil, que têm uma situação emergente no comércio mundial e que são vitimados pela crise das finanças globais, precisam de defender-se até que haja condições de um acordo global, no qual eles consigam se inserir de uma forma mais autónoma e segura do ponto de vista dos seus interesses estratégicos”, aconselha.

Na avaliação do economista, os países querem sair da dependência da zona do euro e do dólar “porque essas moedas estão se revelando frágeis em relação ao projecto de construção de uma nova ordem monetário-financeira internacional, que foi gestada nos anos 1940 do pós-guerra, a qual cumpriu o seu papel, mas está em fase de exaustão”.

Guilherme Delgado corrobora as razões da origem da crise cambial. Segundo ele, a origem dessa guerra está nos EUA e envolve os gigantes da economia mundial: “O Brasil está sendo atacado por uma guerra cambial, na qual os interesses comerciais e financeiros da potência hegemónica dos EUA estão em jogo”.

Na opinião do economista, “no momento, estamos vivendo uma guerra entre os grandes: a Europa tenta defender as suas posições de competição no comércio internacional; os EUA defendem a sua situação crítica; e a China, que é o grande emergente mundial, tenta defender a sua crescente participação no comércio internacional. Dos emergentes, como é o caso do Brasil, Índia e China, cada qual quer preservar ou melhorar a posição competitiva.

Repercussão da crise de 2008

O economista José Luis Oreiro, também entrevistado pela IHU On-Line, tem um diagnóstico semelhante ao de Guilherme Delgado. Segundo ele, “essa ‘guerra cambial’ é uma repercussão da crise de 2008”.

Ele explica que a desaceleração e a lenta recuperação da economia norte-americana são os factores responsáveis pela desvalorização do dólar, que vem atrapalhando a competitividade de outras economias. Na avaliação de Oreiro, três grupos fazem parte da guerra mundial: “Os EUA tentam desvalorizar o dólar frente às demais moedas, visando aumentar a competitividade das exportações americanas para, com isso, tentar sair da crise por intermédio de um aumento da procura externa dos seus produtos. Um segundo grupo de países: China, Suíça, Tailândia e outros tentam defender-se dessa política norte-americana, adoptando medidas no sentido de impedir ou reduzir a valorização das suas moedas frente ao dólar; e um terceiro grupo, incluindo os países da América Latina – inclusive o Brasil – e países africanos, têm sido passivos frente à desvalorização do dólar”.

Brasil: Dólar fraco + Real forte = desindustrialização

Na opinião do economista José Luis Oreiro, na guerra cambial, o Brasil está “tateando no escuro”. Para o economista as consequências dessa guerra podem ser graves para o Brasil. Segundo ele, há risco de desindustrialização: “Essa é a grande implicação negativa que a guerra cambial tem para o Brasil, sem contar o efeito sobre o saldo em conta-corrente no balanço de pagamentos. As projeções que fiz com a professora Eliane Araujo mostram que o Brasil pode chegar a um défice em conta-corrente da ordem de 7% do PIB, em 2014. Um défice desse tamanho não é financiável e implica numa crise de balanço de pagamentos por volta da metade do mandato do próximo presidente da República”, diz ele.

Na sua opinião, o Brasil deve adoptar políticas radicais diante dessa conjuntura e desvalorizar a moeda nacional “para voltar a uma situação de mais competitividade da economia brasileira”. Entre as medidas, propõe o controle na entrada de todos os capitais estrangeiros e a redução das taxas de juros. “O Brasil não pode, neste contexto internacional, ter uma taxa de juros que é até oito vezes maior do que a que prevalece no restante do mundo”, afirma.

Além dessas medidas imediatas, José Luis Oreiro defende que o Brasil reveja a sua relação com a China. Segundo ele, “para a economia brasileira seria melhor se a moeda chinesa estivesse valorizada. O Brasil já está perdendo muitos mercados no exterior para a China, além do que o mercado interno nacional está sendo invadido – há algum tempo – por produtos chineses. Se observarmos a atitude recente do governo chinês, não podemos esperar que medidas de valorização cambial sejam feitas de forma voluntária”.

Na sua opinião, “apoiar a desvalorização da moeda chinesa é o mesmo que dar um tiro no pé. Seria bom para o Brasil que a China valorizasse a sua moeda em relação ao dólar, porque isso implicaria numa valorização do yuan frente ao real e, com isso, aumentaria a competitividade das exportações brasileiras frente à China”. Oreiro acredita que o Brasil cometeu uma série de erros no passado com respeito à China: “Um deles foi ter reconhecido o país como economia de mercado. Se isso não tivesse acontecido, hoje o Brasil poderia utilizar uma série de instrumentos, entre os quais, taxas comerciais para reduzir a importação de produtos chineses, dado que, obviamente, a China está manipulando o câmbio no sentido de produzir um câmbio subvalorizado. A política brasileira em relação à China tem sido essencialmente errada”.

O economista Guilherme Delgado concorda que a China tem se fortalecido na guerra cambial: “A China hoje é um grande credor internacional porque é o maior exportador mundial; atrela a sua moeda à moeda americana. Portanto, o yuan é uma moeda desvalorizada. A grande pressão norte-americana é para que a China adopte a mesma política brasileira, que é valorizar ou seguir valorizando a moeda nacional em relação ao dólar. Essa não é a política chinesa e nem deve ser a política brasileira, agora que o Brasil sentiu claramente o sintoma dessa valorização cambial”.

As consequências dessa guerra à economia nacional, segundo Delgado, “é que o país perde competitividade, ou seja, capacidade de exportar” e penaliza sobretudo a indústria nacional.

(...)

Resto dossier

O G-20 e a "guerra cambial"

Nos dias 11 e 12 de Novembro reúne-se em Seul a cimeira do G20, num momento de crise internacional e de acérrimas disputas em torno do que já se chama de “guerra cambial”. A cimeira dos ministros das Finanças, realizada em Outubro, pouco contribuiu para a resolução da disputa.

G20 de Seul: Viva o mercado livre!

A reafirmação do fundamentalismo de mercado confirma a incapacidade do G20 para tirar lições do colapso financeiro de 2008 e torna provável uma nova crise a curto ou médio prazo. Texto de ATTAC-França.

A Guerra Mundial Financeira

Vivemos o colapso do sistema de relações monetárias e comerciais multilaterais vigente. Por Fernando Moreno Bernal, da ATTAC Andaluzia

Guerra cambial: uma disputa entre gigantes

A guerra cambial não está apenas relacionada com o câmbio, mas também com as relações económicas internacionais que não estão resolvidas, alerta o economista brasileiro Guilherme Delgado. Para ele, a ideia de que a crise internacional terminou é falsa. Por Patrícia Fachin, do site IHU online

Na Coreia, o G-20 demonstra a sua inoperância

Que aconteceu aos compromissos políticos de transparência, de regulação e de supervisão financeiras? Há uma deriva para a irrelevância desta instituição enquanto “primeiro fórum mundial de cooperação”. Por Juan Vigueras, Conselho Científico da ATTAC Espanha

Alemanha, China e Brasil criticam política dos EUA

Presidente do Federal Reserve dos EUA colhe críticas devido a injecção de dinheiro na economia. Para ministro brasileiro, é "dinheiro que cai de helicóptero". Já ministro alemão adverte que medida criaria mais problemas. Da Deutsche Welle.

Movimentos sociais apelam à realização de protestos

É preciso parar a agenda e o processo não democrático do G20 e construir, a partir de abaixo, alternativas social e ecologicamente sustentáveis e democráticas.

Aumenta o tom e a artilharia pesada na 'guerra de divisas'

O sistema financeiro transformou-se no calcanhar de Aquiles da economia mundial e encaminha-se para a sua queda. Por Marco Antonio Moreno.

O ABC do G-20

Quando foi criado o G-20? Que nações o compõem? Qual o seu peso na economia mundial? Quando ocorrem as reuniões e que se discute?

Entenda o que está em causa com a “guerra cambial”

Os Estados Unidos provocaram a desvalorização forte do dólar e inundaram o mundo com a sua moeda para cobrir os rombos dos seus défices. A lógica dessa movimentação tem por detrás o poder e os interesses do mercado financeiro. Extracto da análise do site IHU Online