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Guerra cambial: uma disputa entre gigantes

A guerra cambial não está apenas relacionada com o câmbio, mas também com as relações económicas internacionais que não estão resolvidas, alerta o economista brasileiro Guilherme Delgado. Para ele, a ideia de que a crise internacional terminou é falsa. Por Patrícia Fachin, do site IHU online

A guerra cambial que se desenha no cenário internacional é uma batalha entre grandes economias: “a Europa tenta defender as suas posições de competição no comércio internacional; os EUA defendem a sua situação crítica; e a China, que é o grande emergente mundial, tenta defender a sua crescente participação neste comércio mundial”. A constatação é do economista Guilherme Delgado e foi expressa na entrevista que segue, concedida por telefone à IHU On-Line.

Segundo ele, um dos principais factores da guerra cambial está relacionado à tentativa de a economia norte-americana tentar recuperar-se da crise de 2008 e, com isso, o dólar, que desde o Acordo de Bretton Woods rege o sistema monetário internacional, poder gradualmente perder espaço entre as economias. “Quando se perde a hegemonia da potência emissora da moeda de reserva, os países adoptam políticas de defesas cambiais e comerciais para preservar a sua posição competitiva no mercado internacional. (...) Países como o Brasil, que têm uma situação emergente no comércio mundial e que são vitimados pela crise das finanças globais, precisam defender-se até que haja condições de um acordo global, no qual consigam inserir-se de uma forma mais autónoma e segura do ponto de vista dos seus interesses estratégicos”, aconselha.

Na avaliação do economista, os países querem sair da dependência da zona do euro e do dólar “porque essas moedas estão a revelar-se frágeis em relação ao projecto de construção de uma nova ordem monetário-financeira internacional, que foi gestada nos anos 1940 do pós-guerra, a qual cumpriu o seu papel, mas está em fase de exaustão”.

Guilherme Delgado é doutor em Economia pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Trabalhou durante 31 anos no Instituto de Pesquisa Económica Aplicada - Ipea.

Confira a entrevista.

IHU On-Line - Quais são os critérios para definir a taxa cambial, hoje, no mercado global?

Guilherme Delgado – O regime cambial brasileiro, desde 1999, é de livre flutuação. Então, as transacções comerciais e financeiras que o país realiza com o exterior, as quais provocam entrada e saída de capitais (de dólares ou de outras moedas estrangeiras), geram um fluxo de entrada de dólares. Já o movimento comercial de importações de mercadorias e serviços gera a saída de dólares. O que ocorre actualmente é uma super entrada de dólares pelo lado financeiro, na medida que existe uma liquidez externa muito grande dirigida aos países emergentes como fonte de aplicações financeiras ou de investimentos. Em contrapartida, temos um movimento comercial ruim, porque as exportações têm sido, crescentemente, penalizadas e diminuídas, enquanto as importações são ampliadas. Então, há um défice de transacções de mercadorias e serviços. Essa super entrada de capitais provoca uma forte valorização do real em relação ao dólar, e isso inibe as exportações, facilitando, por outro lado, as importações. Esse é o quadro que estamos a viver: défice nas transacções comerciais e superávit nas transacções financeiras, o que provoca uma forte apreciação da moeda brasileira em relação ao dólar.

É possível controlar o câmbio e o sistema financeiro? Quais as implicações do controle e da flutuação cambial?

A primeira implicação do actual regime é uma apreciação elevada do real. Com isso, o país perde competitividade, ou seja, capacidade de exportar. Esse movimento é também facilitador das importações de mercadorias e serviços: viajar para o exterior torna -se barato, por exemplo, e essa política inibe a indústria nacional. Como se controla isso? Actualmente o governo está apelando para instrumentos fiscais, como é o caso do Imposto sobre Operações Financeiras – IOF, para inibir a excessiva entrada de capitais estrangeiros na economia. Inicialmente, este era um imposto extremamente baixo, de 0,30%. Depois, aumentou para 2, para 4 e deve ser aumentado para 6% afim de tentar travar o ritmo das aplicações financeiras na economia, com o intuito de reduzir a valorização da moeda nacional.

Há uma guerra cambial, na qual os EUA, que são os emissores da moeda de reserva internacional, estão financiando os seus défices internos, provocados pela crise internacional, diante de forte emissão de moeda de reserva. Isso inunda o mundo de dólares e, portanto, torna a moeda muito barata. Diante disso, os países têm de adoptar medidas de contra-ataque para não ficarem reféns no comércio e nas finanças internacionais. O Brasil está sendo atacado por uma guerra cambial, na qual os interesses comerciais e financeiros da potência hegemónica dos EUA estão em jogo.

Pode nos explicar o que é e o que significa essa “guerra cambial”? É uma guerra entre países emergentes e desenvolvidos? Que interesses existem por trás dela?

Essa guerra acontece em situações de transição nas relações económico-financeiras internacionais. Quando se perde a hegemonia da potência emissora da moeda de reserva, a linha de defesa das políticas cambiais e comerciais tenta resolver o seu problema gerando o máximo de excedentes externos, o máximo de exportações e o mínimo de importações, na perspectiva de sair bem do processo competitivo. Essa perspectiva não resolve o problema global; pelo contrário, isso tende a reduzir o comércio e as transacções até que se chegue a um acordo internacional sobre condições de comércio e finanças.

No momento, estamos vivendo uma guerra entre os grandes: a Europa tenta defender as suas posições de competição no comércio internacional; os EUA defendem a sua situação crítica; e a China, que é o grande emergente mundial, tenta defender a sua crescente participação no comércio internacional. Dos emergentes, como é o caso do Brasil, Índia e China, cada qual quer preservar ou melhorar a posição competitiva. Essa situação requer um novo acordo internacional de comércio e finanças, mas, enquanto isso não acontece, a estratégia privada ou público-privada de cada país seria defender o seu quinhão. É o que se faz hoje. A expressão “guerra cambial” é verdadeira não apenas quando o assunto é câmbio, mas também quando se fala nas relações económicas internacionais que não estão resolvidas. A ideia de que a crise internacional terminou não é verdade.

Essa guerra cambial sinaliza a não-hegemonia da moeda americana como moeda de troca internacional? Vislumbra a ascensão do yuan?

Sinaliza, sim, a crise do dólar. Na medida em que a potência hegemónica é debilitada na sua capacidade económica de exercer uma competitividade global, percebe-se uma fragilidade da economia americana. A crise financeira de 2008 exacerbou essa dependência externa da economia americana em relação aos seus financiadores e aos grandes exportadores, como China e Japão. Então, tudo isso é um caldo de cultura e aponta uma debilidade da moeda de reserva internacional como grande âncora da economia global desde o pós-guerra. A China hoje é um grande credor internacional porque é o maior exportador mundial; atrela sua moeda à moeda americana. Portanto, o yuan é uma moeda desvalorizada. A grande pressão norte-americana é para que a China adopte a mesma política brasileira, que é valorizar ou seguir valorizando a moeda nacional em relação ao dólar. Essa não é a política chinesa e nem deve ser a política brasileira, agora que o Brasil sentiu claramente o sintoma dessa valorização cambial. O sintoma claro é o aparecimento de défices em conta-corrente extremamente elevados. O défice é financiado pela entrada de capitais externos de empréstimos ou de riscos. A entrada expressiva desses capitais valoriza a moeda nacional e, portanto, torna as exportações menos competitivas e aumenta a condição do défice. O Brasil estava ignorando o défice como um problema, mas agora adoptou uma política defensiva em relação à entrada excessiva de capitais estrangeiros, passando a tributar. O país está na linha certa, embora isso tenha sido feito tardiamente.

Brasil e China pretendem desenvolver um sistema de câmbio directo entre real e yuan, sem passar pelas cotações do dólar e do euro. Quais as vantagens e desvantagens dessa relação cambial para a economia brasileira? O Brasil tem condições de fazer esse tipo de negociação?

Essa relação sinaliza a crise da moeda de reserva. Quando se estabelecem outras moedas como referência no comércio, supostamente a moeda de reserva não cumpre mais esse papel. Por outro lado, esse tipo de medida também não é uma solução porque, se o Brasil estabelecer um acordo bilateral com a China para fazer do yuan uma moeda de reserva e vice-versa com o real, cria-se um sistema monetário muito complexo e baseado em convénios e não no intercâmbio e na capacidade de ter uma moeda simples que possa expressar o intercâmbio mundial de mercadorias. Os países querem sair da dependência da zona do euro e do dólar porque essas moedas estão se revelando frágeis em relação ao projecto de construção de uma nova ordem monetária-financeira internacional. A transição a esse processo de hegemonia financeira em geral é demorado. Esse assunto será retomado nesta fase de instabilidade monetária internacional.

Como avalia a relação cambial entre Brasil e China?

O país tem uma situação de relação comercial com a China relativamente desfavorável ao Brasil porque, assim como os EUA, a China tem uma moeda muito desvalorizada. Então, uma relação Brasil X China de forma privilegiada, sem alterações cambiais que permitam um novo padrão de paridades entre as moedas, pode não ser funesta, por um lado, porque o Brasil será inundado de produtos chineses. De qualquer modo, perderá competitividade industrial, da mesma forma como perderia também para a economia americana, mantida essa paridade actual.

É preciso ter um novo quadro de paridade entre as moedas euro, dólar, yuan, real, etc. que reflicta uma relação económica internacional mais equilibrada para que os países não apresentem défices em conta-corrente de forma crescente e insustentável, como é o caso brasileiro. O Brasil está caminhando para uma situação de défice em conta-corrente insustentável. Portanto, isso não é um bom parâmetro para se fazer acordos internacionais. Temos de mudar a nossa relação cambial, seja mediante um pacto internacional, se houver, ou através de políticas internas defensivas para evitar uma crise cambial. Esse ainda não é o caso presente no Brasil porque temos reservas altas, mas essas reservas não resolvem o problema futuro, quando se acumula défices crescentes e se precisa cada vez mais de empréstimos ou entradas de capitais para financiar esses défices. Ou o Brasil resolve esse problema, ou qualquer acordo assimétrico seja com a China, EUA, ou União Europeia, não irá resolver a questão. Uma nova relação com a China é importante desde que o Brasil consulte o interesse nacional estratégico nesse campo.

Então o Brasil tem mais a ganhar com a valorização do yuan?

O Brasil tem mais a ganhar com uma certa valorização da moeda chinesa porque a sua desvalorização, acompanhando a desvalorização da moeda americana, aumenta a nossa dependência externa. A política de desvalorização do yuan é boa para a China, mas não é boa para o Brasil. A valorização da moeda chinesa é boa para o Brasil no sentido de inibir o défice em conta-corrente com a China, mas, evidentemente, isso afectará o preço das matérias-primas que o Brasil exporta para a China e terá outras consequências.

Quais as consequências para a economia global caso um acordo cambial entre China e Brasil se torne real?

Essa relação Brasil X China tem muito mais a ver com a oposição face aos EUA porque eles ainda são a única moeda de reserva mundial e têm uma estratégia de emissão crescente dessa moeda de reserva com o fito de resolver problemas internos. Os EUA têm um défice público monumental, em parte, em função da ajuda que teve de dar aos bancos.

Leia a entrevista na íntegra no site do IHU Online

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