You are here

Na Coreia, o G-20 demonstra a sua inoperância

Que aconteceu aos compromissos políticos de transparência, de regulação e de supervisão financeiras? Há uma deriva para a irrelevância desta instituição enquanto “primeiro fórum mundial de cooperação”. Por Juan Vigueras, Conselho Científico da ATTAC Espanha
Footo de Downing Street, FlickR

A globalização financeira, a banca global, recuperaram a sua pujança após o colapso de 2008, mas o seu correspondente político, o G-20, perdeu fôlego. A prova foi dada nos dias 22 e 23 de Outubro, na reunião de ministros das Finanças e governadores dos Bancos Centrais do G-20 em Geongyu, Coreia, que nos deixou a imagem de cada um (Geitner, Lagarde, Jean-Claude Trichet, etc) a olhar em direcções diferentes. A atenção concentra-se na prioridade dada por cada governante e cada país à série de graves problemas económicos provocados pela crise dos mercados financeiros globais aos países e regiões.

O comunicado desta reunião reconhece-o assim:

“A recuperação económica global continua a progredir, mas é desigual e frágil. O crescimento foi forte em muitas economias emergentes, mas o ritmo de actividade continua a ser modesto em muitas economias desenvolvidas. Os riscos de recaída permanecem e são diferentes de um país para outro e de uma região para outra”;

E as receitas dos governos do G-20 continuam a ser as de sempre:

“Prosseguir as reformas estruturais para melhorar e manter a procura global, promover a criação de emprego e aumentar o potencial de crescimento.”

“Nos países avançados, desenvolver e implementar planos de consolidação fiscal (leia-se cortes fiscais e sociais) claros, credíveis, ambiciosos e favoráveis a médio prazo, em conformidade com os compromissos da Cimeira de Toronto, diferenciados de acordo com as circunstâncias nacionais”.

Que aconteceu àqueles compromissos políticos de transparência, de regulação e de supervisão financeiras?

No longo comunicado da reunião preparatória da cimeira de Novembro na Coreia só aparecem algumas linhas retóricas como estas:

Manter “os compromissos para implementar todos os aspectos da agenda de regulação financeira do G-20, de modo internacionalmente congruente e não discriminatório, incluindo os compromissos sobre os derivativos extra-bolsistas, as práticas remuneratórias (os famosos bónus dos operadores bancários), as normas contábeis e os princípios do FSB para reduzir a confiança nas agências de notação creditícia”, “prosseguir o nosso trabalho decisivamente para abordar as jurisdições não-cooperantes (“jurisdições não-cooperantes” é a denominação que substituiu a de “paraísos fiscais para a OCDE e que eram já somente 7 em 19 de Outubro de 2010, que são os que não subscreveram 12 convénios de intercâmbio fiscal e petição de parte).

Fica claro que os governos do G-20 decidiram prescindir das cortinas de fumo mediáticas (paraísos fiscais, bónus, taxa Tobin, etc.) que pretendiam esconder a falta de reformas do sistema. E a próxima cimeira em Novembro do G-20 na Coreia do Sul deverá ser muito menos vistosa que as anteriores.

Analistas internacionais apontam para uma deriva deste fórum para a irrelevância enquanto “primeiro fórum mundial de cooperação”, como era este clube desde a sua criação em 1999, e até à sua ressurreição em 2008. Importantes representantes do governo indiano reconheceram que este fórum passa por sérias dificuldades. E, na referida reunião, não compareceram o ministro da Economia do Brasil e outros países enviaram representantes de segunda linha, quando no princípio todos os países queriam estar presentes.

É evidente a forte tendência para para resolver os seus problemas económicos através de políticas de interesse nacional. Primeiro, os EUA, com a sua política de aumentar os dólares em circulação, inunda o mundo com uma divisa internacional desvalorizada, contra os interesses exportadores dos seus sócios europeus. E a União Europeia continua mergulhada nas intermináveis reuniões em Bruxelas e encontros intergovernamentais.

Enquanto isso, Wall Street mantém a regra do consenso neoliberal e seus padrões criados nos últimos anos que o converteram no centro do sistema financeiro. E fica demonstrada a inoperância do G-20, ressuscitado pelo presidente Bush, após a falência do banco de investimento Lehman Brothers, para agradar o presidente Sarkozy, que disse que ia “refundar o capitalismo”.

Tradução de Luis Leiria para o Esquerda.net

Publicado em "A cortina de Fumo do G-20"

(...)

Resto dossier

O G-20 e a "guerra cambial"

Nos dias 11 e 12 de Novembro reúne-se em Seul a cimeira do G20, num momento de crise internacional e de acérrimas disputas em torno do que já se chama de “guerra cambial”. A cimeira dos ministros das Finanças, realizada em Outubro, pouco contribuiu para a resolução da disputa.

G20 de Seul: Viva o mercado livre!

A reafirmação do fundamentalismo de mercado confirma a incapacidade do G20 para tirar lições do colapso financeiro de 2008 e torna provável uma nova crise a curto ou médio prazo. Texto de ATTAC-França.

A Guerra Mundial Financeira

Vivemos o colapso do sistema de relações monetárias e comerciais multilaterais vigente. Por Fernando Moreno Bernal, da ATTAC Andaluzia

Guerra cambial: uma disputa entre gigantes

A guerra cambial não está apenas relacionada com o câmbio, mas também com as relações económicas internacionais que não estão resolvidas, alerta o economista brasileiro Guilherme Delgado. Para ele, a ideia de que a crise internacional terminou é falsa. Por Patrícia Fachin, do site IHU online

Na Coreia, o G-20 demonstra a sua inoperância

Que aconteceu aos compromissos políticos de transparência, de regulação e de supervisão financeiras? Há uma deriva para a irrelevância desta instituição enquanto “primeiro fórum mundial de cooperação”. Por Juan Vigueras, Conselho Científico da ATTAC Espanha

Alemanha, China e Brasil criticam política dos EUA

Presidente do Federal Reserve dos EUA colhe críticas devido a injecção de dinheiro na economia. Para ministro brasileiro, é "dinheiro que cai de helicóptero". Já ministro alemão adverte que medida criaria mais problemas. Da Deutsche Welle.

Movimentos sociais apelam à realização de protestos

É preciso parar a agenda e o processo não democrático do G20 e construir, a partir de abaixo, alternativas social e ecologicamente sustentáveis e democráticas.

Aumenta o tom e a artilharia pesada na 'guerra de divisas'

O sistema financeiro transformou-se no calcanhar de Aquiles da economia mundial e encaminha-se para a sua queda. Por Marco Antonio Moreno.

O ABC do G-20

Quando foi criado o G-20? Que nações o compõem? Qual o seu peso na economia mundial? Quando ocorrem as reuniões e que se discute?

Entenda o que está em causa com a “guerra cambial”

Os Estados Unidos provocaram a desvalorização forte do dólar e inundaram o mundo com a sua moeda para cobrir os rombos dos seus défices. A lógica dessa movimentação tem por detrás o poder e os interesses do mercado financeiro. Extracto da análise do site IHU Online