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A melhor maneira de roubar um banco é geri-lo

Falhas graves de supervisão têm custos sistémicos, sobretudo em pequenas economias abertas. O facto de a casa não estar arrumada cria agora dificuldades adicionais ao país. O governador encolhe os ombros. Numa audiência parlamentar lamentou: "não há regulação e supervisores que descubram todas essas fraudes quando elas estão a ser cometidas. É impossível!". Há aqui um padrão.

Seguindo a reboque dos eventos, e aparentemente transformado em inefável centro de investigação académica, o BdP não se mostra organizado para cumprir as funções que lhe foram atribuídas. Não só não monitoriza satisfatoriamente as instituições financeiras (incluindo essas predadoras entidades de empréstimos a pronto deixadas à solta durante anos a fio) como, também, não tem estado ao lado dos consumidores. Não partiu do BdP qualquer iniciativa de impor à banca os arredondamentos à milésima no crédito ou o controlo de comissões abusivas nos PPR. Nunca, nem depois de tantos anos a defender contenção salarial, o regulador deu sinais de estender esse mesmo convite aos administradores da banca.

Procuremos recursos para desenvolver estas matérias. Os três livros seguintes podem ser consultados gratuitamente no sítio da editora, a Princeton University Press: press.princeton.edu.

1. Quando alguém tem o poder de fixar a própria remuneração variável surgem patologias sérias. Casos como a Merrill Lynch, o Royal Bank of Scotland ou a seguradora AIG, onde os gestores se premiaram sistematicamente com remunerações grotescas, revelam que até operadores visíveis no centro do sistema são demasiado vulneráveis à pilhagem e à fraude. Como escreveu John Kenneth Galbraith em "The New Industrial State", livro agora oportunamente reeditado: "as grandes organizações servem sobretudo quem está, só depois vêm as outras clientelas" (leia-se, os accionistas ... na retórica habitual da governança societária os consumidores ou os colaboradores não constam).

2. Portanto, a actual crise não pode ser atribuída a meros erros de investimento (subprime) ou ao mau carácter de alguns (Madoff). Dois economistas conhecidos, George Akerlof e Robert Shiller, colocam o dedo na ferida com o seu livro "Animal Spirits" publicado já em 2009. Os alicerces "micro-psicológicos" da macroeconomia são enviesados e erráticos; e num sistema de motivações complexas de onde foi removido o lastro estabilizador do Estado as flutuações tornam-se devastadoras. Entretanto, e na pior altura, o foco exclusivo dos bancos centrais europeus na inflação e nos défices públicos atrofiou as capacidades de vigilância sobre a alta (e a baixa) finança.

3. Por trás da crise está um colapso geral de ética e responsabilidade. Esta desintegração não surgiu por meio de uma mão invisível. Como se percebe lendo "Analyzing the Global Political Economy", de A. Walter e G. Sen, há instituições que promovem activamente a instabilidade. Os "off-shores" são disto exemplo; paraísos fiscais associados à lavagem de dinheiro e à especulação gratuita. Ao contrário da percepção habitual, dois terços destas plataformas artificiosas encontram-se no velho continente, sobretudo na Suíça e a Grã-Bretanha, e não em sítios longínquos e estereotipados como as Bermudas. Daí que devam ser os Europeus a demonstrar liderança decisiva nesta matéria. E isto obriga, também, a que Portugal resolva o seu problema com o "off-shore" da Madeira. Mas não contemos com o encorajamento do BdP. Como por lá se diz: "É impossível!".

Sandro Mendonça, Dep. de Economia, ISCTE, e SPRU, University of Sussex
opin.econ@gmail.com

Artigo publicado no jornal "Público" de 27 de Março de 2009

Sobre o/a autor(a)

Professor de Economia. Diretor da Licenciatura em Economia, ISCTE-IUL Business School.
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