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A Industrialização da Insegurança (1)

No dia a seguir à divulgação deste documento explodia num mercado de Bagdad um camião de explosivos que fez cerca de 130 mortos e mais de 300 feridos.

Exercitemos a memória para termos uma perspectiva realista do futuro: porque haveria de correr bem uma coisa que começou mal?

I. Fará em breve quatro anos que, nas vésperas da invasão, o Financial Times, em editorial exclusivamente dedicado a este tema e impresso com dobro do tamanho da letra usual, tomava posição sobre o assunto: o jornal nunca apoiaria uma acção unilateral, à margem da ONU, por parte dos EUA e dos seus poucos aliados. Sublinhava ainda o risco de a acção "perturbar seriamente a segurança internacional e aumentar as ameaças que o Sr. Bush diz estar a tentar combater" (28/02/2003). Dois meses mais tarde, a 30 de Maio, outro editorial tinha com o título "Onde estão elas?" e afirmava que "fomos enganados" (sic) quanto às armas de destruição massiva, a justificação oficial da invasão.

II. É ainda pertinente lembrar o que escreveu dias antes da invasão Martin Wolf, o economista de referência do mesmo jornal. Num artigo intitulado "A América poderá não gostar do mundo que está prestes a criar" (12/03/2003), Wolf argumentava que a busca da segurança absoluta torna os outros absolutamente inseguros. Afinal a humilhação e o ódio são o melhor combustível para o terrorismo.

III. Mas tudo isto os nossos governantes de então não quiseram ver. E não consta que Durão Barroso e Paulo Portas alguma vez tenham pedido desculpa por terem feito Portugal alinhar numa mentira incendiária. (É curioso, aliás, notar como o Governo destes cavalheiros deixou tão poucas saudades. Não é fácil encontrar comentários ou análises sobre actuação do actual governo que estabeleçam a governação anterior como contra-exemplo positivo).

IV. Entretanto tivemos os escândalos das adjudicações sem concurso de contratos de reconstrução a empresas como a Halliburton (ligada a Dick Cheney), a pornografia de Abu Grahib, o linchamento de Saddam Hussein e a continuada vergonha de Guantanámo (395 encarcerados, nenhum dos quais julgado até ao momento).

V. Uma nota especial sobre o fenómeno dos exércitos privados no Iraque e a dimensão das oportunidades que a guerra abriu para o comércio da força. As mortes dos funcionários de empresas de "segurança" como a Blackwater ou a Titan ultrapassam largamente as do exército britânico (pelo menos 187 versus 130, dados até 31 de Janeiro de 2007). Especialistas do negócio não hesitam em dizer que estes empreendedores da morte são sem sombra de dúvida a segunda força organizada na zona a seguir a exército regular norte-americano (ver o documentário Iraq for Sale, 2006). Estas empresas providenciam uma parte significativa dos serviços militares em curso e, em muitas operações, não se limitam a ser sub-contratadas, assumem mesmo o papel de controlo. A particularidade destes especuladores da violência é que 1) não podem ser levados a tribunal marcial, 2) as suas actividades não são cobertas pela Convenção de Genebra, 3) as suas baixas não são contadas oficialmente pelo Pentágono.

VI. Os exemplos importam, e os exemplos dos grandes importam muito. Da superpotência solitária saiu uma lição de irresponsabilidade para o mundo. A gestão danosa desta Administração criou na Babilónia de hoje algo pior do que vozes que não se entendem, criou uma Babel de horror onde só se erguem gritos de morte.

Sandro Mendonça (2)

(1) Artigo originalmente publicado do Diário Económico de 21 de Fevereiro 2007, retirado de Jornal defesa e relações internacionais

(2) Departamento de Economia do ISCTE, SPRU, University of Sussex e membro do Painel I&D - Investigações e Debates
 

Sobre o/a autor(a)

Professor de Economia. Diretor da Licenciatura em Economia, ISCTE-IUL Business School.
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