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Orçamento versus quotidiano

Sem uma inversão de rumo, sem um rompimento com as lógicas e práticas do bloco central de interesses e poderes do PSD e do PS, não vamos a lado nenhum.

Há uns meses atrás todo o país se referia a Passos Coelho como o futuro primeiro-ministro. E toda a gente falava em Sócrates enquanto um governante desgastado. Um verão, e alguns lapsos da direcção do PSD depois e o PS reverteu parte do jogo a seu favor.

De um lado, soa a incrível a ingenuidade do PSD em acreditar que o intuito de destruição explícita do Estado Social seria passível de ser mansamente aceite pelo grosso não só da opinião pública, mas também da opinião publicada. A ideia de gizar uma dicotomia entre um paradigma socialista, antigo, defensor de um laxismo estatal e gerador das crises de que padece o país e um paradigma social-democrata, novo, onde uma apologia de um Estado Mínimo estaria directamente relacionada com o descolar económico de um jardim à beira-mar plantado, foi eficientemente desmontado pelo aparelho do PS.

De outro lado, parece mentira, apesar de ser bem verdade, o jeito malandro com que Sócrates encostou Passos Coelho literalmente à parede com a questão do orçamento. Teixeira dos Santos falou no parlamento, Silva Pereira disse na RTP e o próprio Sócrates fez o anúncio a partir de Nova Iorque que, ou o PSD aprovava o pacote todo com aumento de impostos e afins incluídos, ou o governo se demitia e aí é que os mercados enlouqueceriam de vez e então é que desembarcaria na Portela o FMI. A culpa, naturalmente, seria, do PSD e da sua falta de sentido de Estado.

O discurso pegou e os apelos, vindos dos mais venerandos arautos, para que o PSD se abstenha na votação têm-se repetido quase até à exaustão; e assim, nesta altura do campeonato, enquanto a pele de réptil de Sócrates se continua regenerando, Passos Coelho não sabe como se desenrascará desta embrulhada. Vai tentando, apresenta umas propostazinhas que em nada beliscam o espírito do orçamento, mas é coisa que não se leva muito a sério. Entretanto, com excepção de uns quantos neófitos ultraliberais, ninguém colocou com seriedade a hipótese de que o PSD deixasse de aprovar o orçamento. Porque toda a gente sabe que em que é que, independentemente da formatação a que chegar o texto final, esta disputa ridícula entre PSD e PS vai acabar: mais recessão, mais desemprego e mais desastre social.

O problema é que, enquanto eles brincam aos orçamentos, fogem aos debates fundamentais que podem inverter a lógica decadente em que estamos instalados. Por exemplo, não se discutiu o facto de grande parte dos males do país, e já agora do conjunto da Europa, se relacionarem muito mais com um problema de receita do que de despesa. Nenhuma discussão houve sobre a revitalização da actividade económica, o estímulo ao consumo, mais importante que tudo, a criação de emprego.

Enquanto uns e outros se preocupam com cálculos eleitorais, em como vão descalçar, daqui por uns meses, a bota do inevitável aprofundamento do descalabro económico e social, outros, a maioria, preparam as suas estratégias de resistência, individuais e colectivas, para os tempos complicados que aí vêem. Com umas quantas certezas: uma, a de que, apesar de mais hábil politicamente do que Passos Coelho, Sócrates não tem soluções nenhumas para os problemas do quotidiano dos portugueses; outra, a de que, sem uma inversão de rumo, sem um rompimento com as lógicas e práticas do bloco central de interesses e poderes do PSD e do PS, não vamos a lado nenhum; outra ainda, a de que urge, cada vez mais, uma política socialista de facto que governe não para cumprir as loucas exigências financeiras dos desígnios do FMI e do BCE mas sim para ir ao encontro das necessidades concretas dos seus cidadãos.

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