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Como e porque estamos numa guerra mundial de moedas

Tal como aconteceu nos anos 30, a maioria dos países está a desvalorizar a sua moeda para obter vantagens nas exportações. Por Marco António Moreno
"Esta guerra comercial é produto da debilidade da procura" - Foto de Moedas

Aos casos do Japão, do Brasil e da Coreia, juntam-se o Peru, a Tailândia e a Malásia, que começaram a desvalorizar as moedas em actos que nada mais são que proteccionismo camuflado. Isto é aquilo a que se chama guerra mundial de moedas, que, ainda que o FMI o negue, esta completamente presente. E qual é a origem de tudo isto?

Durante décadas, os países adoptaram as desvalorizações como uma saída das crises internas. Ao desvalorizarem as suas moedas, faziam com que os seus produtos ficassem mais competitivos ante o resto do mundo e com isso podiam garantir a continuação das suas fábricas. Esta foi a conduta propagada pelo próprio FMI por ordens de Washington, porque, face a uma moeda débil, o dólar adquiria grande poder e podia comprar empresas e indústrias a valores muito convenientes, às vezes irrisórios. É um procedimento que foi aplicado nos anos 70 e 80 na Ásia e na América Latina e que funcionou em casos isolados, mas que sempre empobreceu os países que a adoptavam.

Agora esta receita á aplicada em grande escala e em simultâneo, o que evidentemente não terá nenhum efeito significativo. Só o facto de empobrecer mais o ocidente, porque esta guerra comercial é produto da debilidade da procura. E foi o alto desemprego global que debilitou o consumo e por isso os países vendem menos e as fábricas fecham. E aumenta mais o desemprego. Este círculo vicioso não só deixa em perigo a competitividade dos países, mas também a sua estabilidade social. Não há duvida de que as mobilizações irão aumentar. Mais ainda depois da OIT ter sublinhado que os níveis de emprego que se verificavam antes da crise não se recuperarão até 2015.

Com este desemprego alto, os países desenvolvidos estão a sofrer uma procura altamente deficiente. Nenhuma das seis maiores economias de altos rendimentos (Estados Unidos, Japão, Alemanha, França, Reino Unido e Itália) voltou a recuperar o nível económico que tinha há três anos. A actividade destes países está até cerca de 10% abaixo da sua tendência passada. E o indício deste forte decréscimo advém do excesso de oferta. Por último, pesa o incremento nas ultimas semanas do preço do petróleo e dos alimentos básicos.

A perda de milhões de empregos desde 2008 está fortemente relacionada com o colapso da indústria da construção, que ficou paralisada nas principais economias. Mais de dois milhões de habitações nos EUA não têm comprador e, em Espanha, o stock de habitações que não são vendidas supera o milhão, apesar da queda no preço. O negócio das empresas imobiliárias acabou e demorará muitos anos até se voltar a recompor.

Parte do problema está relacionado com a origem da crise financeira na qual o poder foi transferido para uma moeda fiduciária que não tem qualquer suporte real. A honestidade do sistema diluiu-se e propagou-se a ganância e a fraude. O capitalismo real exige uma moeda forte na qual se possa confiar. Mas esta desapareceu há quase quarenta anos e, desde aí, todas as moedas se têm manipulado sem que haja qualquer vestígio de riqueza real.

Desde as guerras napoleónicas até às guerras mundiais do século XX, o sistema financeiro esteve suportado pelo ouro. Nessa altura não se podia desvalorizar nem manipular as moedas. Ninguém podia ser mais competitivo sem motivo aparente ou sequer enriquecer mais além dos limites. Tudo era como era. Com o sistema iniciado por Richard Nixon em 1971, a oferta de dinheiro pode aumentar muito mais depressa que os bens e serviços reais, dando alento à corrupção e aos especuladores. Assim, se nos anos 60 os trabalhadores (90% da população) obtinham 60% dos rendimentos da época, em 2007 obtinham somente 11%. Foi isto que deu lugar à maior desigualdade nos rendimentos da história.

Grande parte de tudo isto deve-se às políticas monetárias dos bancos centrais, que, ao tomar em conta como única variável a inflação dos produtos básicos, descuidou a inflação dos bens de capital. Entretanto, a inflação aumentou 5 vezes em 40 anos, os índices da bolsa de valores aumentaram 20 vezes (de 750 a 15.000), fazendo crer que a economia estava a funcionar perfeitamente.

Oitenta anos depois da maior das crises financeiras de que há registo, voltamos a repetir uma história que se dava por superada. O ser humano é o único animal que tropeça na mesma pedra. Desta vez não só para reviver a crise, mas também para a aprofundar.

Artigo publicado em El Blog Salmón

Tradução de Ana Bárbara Pedrosa para esquerda.net

Marco Antonio Morenoé um economista chileno, que edita o blogue Jaque al neoliberalismo

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