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Israel: Uma laureada com o Prémio Nobel da Paz na prisão

O jornalista israelita Gideon Levy denuncia que Mairead Corrigan Maguire passou o “fim de semana na cela dos deportados no Aeroporto Ben-Gurion”. A prémio Nobel da Paz de 1976 foi expulsa de Israel nesta terça feira.
Mairead Corrigan Maguire no barco "Rachel Corrie" em Junho de 2010, antes do ataque israelita

A fotografia foi recentemente distribuída pelos propagandistas das IDF [Forças de Defesa de Israel]: Mairead Corrigan Maguire é vista a ser retirada do navio sequestrado Rachel Corrie, no porto de Ashdod, enquanto um soldado do exército mais moral do mundo estende a mão para ajudar a respeitável mulher a desembarcar. Não foi muito tempo depois da violenta tomada do Marmara Mavi pelas IDF, e os propagandistas israelitas estavam agora a apressar-se a vender a sua mercadoria barata, que mostra como Israel trata verdadeiros activistas da paz, em contraste com os “terroristas” turcos a bordo do navio anterior.

Apenas quatro meses se passaram desde o evento anterior, e a mesma senhora passou agora um fim de semana na cela dos deportados no Aeroporto Ben-Gurion. Enquanto nós estávamos a ter outro fim de semana quente e agradável, a laureada com o Prémio Nobel da Paz estava numa prisão israelita e ninguém parecia importar-se. Não estávamos envergonhados, não estávamos indignados, não fizemos barulho. Foi um espectáculo que só poderia ter tido lugar em Israel, na Coreia do Norte, na Birmânia (Myanmar) e no Irão – o estado prendendo e deportando um vencedor do Prémio Nobel da Paz – e não levantou mais do que um bocejo aqui.

Um tribunal já confirmou a expulsão, num acto tipicamente automático, e o Supremo Tribunal Federal vai debatê-la hoje.

O novo Israel é novamente retratado como um estado virado para si mesmo, detestável, com um ramo da polícia do pensamento no Aeroporto Ben-Gurion. Intelectuais de renome mundial, como Noam Chomsky e Norman Finkelstein, o mais famoso palhaço de Espanha, Ivan Prado, e agora Mairead Corrigan Maguire, são deportados dele de forma vergonhosa só porque se atreveram a visitar o país. E tudo isso é apoiado por uma indiferença pública patológica.

A irlandesa Corrigan Maguire é vítima de terrorismo de estado. Antiga secretária na Cervejaria Guinness, em Belfast, ela tinha três sobrinhos, todas crianças na época, que foram mortos durante um assassinato dirigido a britânicos na Irlanda do Norte. A mãe, sua irmã, que se suicidou algum tempo depois, também foi gravemente ferida no ataque. Corrigan Maguire acabou por se casar com o viúvo da sua irmã e adoptou os seus filhos. A terrível tragédia familiar transformou-a num activista da paz, e ela começou a içar a bandeira da resistência não-violenta. Por esse motivo, ela ganhou o Prémio Nobel da Paz de 1976 (atribuído retroactivamente, no ano seguinte).

Nos últimos anos, Corrigan Maguire tentou içar esta bandeira em Israel, que sabe muito sobre estado de terror, assassinatos e matança de transeuntes, mas que agora está a fechar brutalmente as suas portas na cara dela.

Corrigan Maguire manifestou-se em Bil’in há alguns meses e participou em duas flotilhas para Gaza. Este é o seu pecado. Israel também está a alegar que Corrigan Maguire “reagiu de forma violenta” enquanto funcionários do governo tentavam colocá-la à força num avião. É difícil imaginar essa mulher gentil a reagir de forma violenta. Ela mesma diz que só tentou resistir passivamente, a fim de concluir o procedimento de petição concedido por lei.

Israel, como a Coreia do Norte, deve ter algo a esconder sobre o seu regime de ocupação e é por isso que impede as pessoas de consciência de entrar e informar sobre isso o mundo. Israel, como a Coreia do Norte, tem medo de quem tenta protestar contra isso ou criticar o seu regime. Não entrarão terroristas aqui, mas também ninguém que se oponha ao terror mas se atreva a criticar a ocupação. Por razões de segurança, vamos qualificá-los igualmente de “terroristas”, como falsamente chamámos aos activistas turcos. Será mais fácil para nós lidar com eles. Sim, nós preferimos o terror, porque sabemos bem como lidar com isso.

Todos aqueles que estão a pregar hipocritamente aos palestinianos para que pratiquem resistência não-violenta era melhor que dessem uma olhadela á prisão dos deportados no aeroporto Ben-Gurion. É desse modo que os manifestantes não-violentos vão ser tratados. Uma activista da paz está a ser mantida lá, uma mulher de consciência que foi autorizada a receber os seus bens de uso pessoal no final da semana apenas depois da invenção do tribunal de comarca em Petah Tikva. Ela aguarda a decisão do nosso farol de justiça, o Tribunal Supremo, que, pode-se supor, também não se atreverá a opor-se à expulsão.

Se o tribunal mantiver de facto o acto vergonhoso hoje, em resposta à petição da organização Adalah, então saberemos não só aquilo em que nos tornámos – que é assim que tratamos aqueles que defendem a não-violência – mas que o nosso sistema judicial é também um colaborador na traição e está contaminado até aos dentes.

Uma laureada com o Prémio Nobel está numa prisão israelita, poucos dias depois de Israel ter sequestrado outro barco de auxílio comprometido com Gaza, cujos passageiros incluíam um sobrevivente do Holocausto judeu, um pai israelita que perdeu um filho devido ao terrorismo, e um piloto da força aérea que se tornou objector de consciência. Sequestrou o barco para impedi-los de chegar ao seu destino e lembrar ao mundo o bloqueio. Este é o retrato de Israel hoje.

Artigo publicado no jornal israelita Haaretz, traduzido por Informação Alternativa

Sobre o/a autor(a)

Jornalista israelita e activista da defesa dos direitos humanos.
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