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O olho sem pálpebra

Que linda moça! Que brilho nos seus olhos! Mas Muirland estava impressionado com o estranho clarão que emanava desses mesmos olhares. Aproximou-se. Coisa estranha! A sua mulher, pelo menos foi o que pensou, não tinha pálpebras.

"O olho sem pálpebra", publicado na antologia anónima Contes bruns (1832), em que também colaborou Balzac, é um conto de ambiente escocês sobre as crenças populares dos duendes e das fadas, representadas com adesão ao espírito pânico e pagão, mas também com uma condescendência ao anátema cristão que as associa aos cultos diabólicos. E a época da descoberta romântica do folclore e da moda escocesa dos romances de Walter Scott.

Mas não é apenas pela documentação folclórica que este conto merece ser lembrado hoje. A imagem dominante é um perturbador pesadelo psicológico: um olho escancarado que está sempre às costas de um homem, sem nunca o perder de vista. Posto que esse homem havia causado a morte da mulher por ciúme, o olho sem pálpebra que o persegue constitui uma espécie de contrapasso.

O final transporta-nos para além do oceano, entre os pioneiros do Ohio e os peles-vermelhas. Mas é claro que as barreiras geográficas não contam para os duendes escoceses (Italo Calvino).

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