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Brasil: Dilma Rousseff prepara festa

Ainda não é certo que a candidata de Lula ganhe à primeira volta, mas em Brasília já se prepara a celebração da vitória. Leia entrevistas e veja debates da eleição presidencial brasileira. Por Adriano Campos, de São Paulo
Dilma Rousseff e Lula. Foto Rede Brasil

Em dia de reflexão, as bandeiras, panfletos e actos públicos com candidatos não cessaram no Brasil. No dia anterior ao pleito, os dois principais candidatos à Presidência da República concentraram os seus esforços no Estado mais populoso, São Paulo. Dilma Rousseff fez passeata com Lula na cidade de São Bernardo, berço político do PT. Questionada sobre a notícia que dava conta do pedido, emitido pelo gabinete de Lula, no sentido de reforçar o aparato policial na Esplanada dos Ministérios, em Brasília, entendido como uma preparação para a festa de vitória, a candidata do PT respondeu que: "Ninguém está preparando festa nenhuma. Temos muito respeito pelo processo eleitoral", mas em seguida não deixou de afirmar estar confiante numa vitória ao primeiro turno.

José Serra, por sua vez, em caminhada pela cidade de Diadema, realçou a confiança em alcançar o segundo turno, evitando comentar temas quentes das últimas semanas e o anúncio da festa de Dilma, sentenciando com um simples: “cada um sabe o que faz”.

Já Marina Silva partiu ao ataque, "O Brasil sabe que eu sou o segundo turno competitivo, que tem condições de competir com a Dilma de igual para igual. O Serra é a repetição do que foi em 2006. Eu sou a grande novidade. O mundo inteiro está olhando para o Brasil porque sinaliza que quer ter o feminino na Presidência da República", disse ela, no Rio de Janeiro.

As duas principais sondagens, efectuadas após o último e mais assistido debate televisivo (e também o mais enfadonho), na quinta-feira, confirmam a tendência das últimas duas semanas: Dilma perdeu terreno e só com as primeiras projecções de domingo se poderá confirmar ou não a realização de um segundo turno. Apesar de continuar a liderar em todos os estados, Dilma registou uma queda que a faz oscilar entre os 47 e 51% das intenções de voto dos 136 milhões de eleitores brasileiros. Do outro lado, José Serra subiu até aos 30%, acompanhado na tendência por Marina, que alcança os 16%. Plínio de Arruda Sampaio, do PSOL, pontuou pela primeira vez alcançando 1%.

Mais do que nas estratégias seguidas pelos candidatos ou no embate de propostas programáticas, a resposta para a inversão de tendências nas últimas duas semanas poderá ser encontrada nos acontecimentos extra-campanha. A demissão da Ministra-Chefe da Casa Civil de Lula, Erenice Guerra, a menos de meio mês das eleições, veio expor mais um caso de favorecimento pessoal e familiar praticado por um membro do Governo Lula e abalar a campanha de Dilma, por ironia a antiga titular do cargo. O caso foi fortemente usado por Serra e Marina e originou uma guerra aberta de Lula com a imprensa já tradicionalmente crítica do PT, levando-o a proferir a polémica afirmação: "Tem dias em que alguns sectores da imprensa são uma vergonha. Os donos de jornais deviam ter vergonha. Nós vamos derrotar alguns jornais e revistas que se comportam como partidos políticos. Nós não precisamos de formadores de opinião. Nós somos a opinião pública".

A juntar a este escândalo, o boato propagado pela campanha de Marina Silva, de que Dilma irá legalizar o aborto durante o seu governo, pois já havia defendido essa posição em 2007 (o que é verídico), parece ter feito mossa na candidatura do PT, com alcance, principalmente, no eleitorado evangélico que já representa 30 milhões de brasileiros. Dilma respondeu, nesta quarta-feira, reunindo-se às pressas com líderes evangélicos (é bem conhecida a ligação de Lula com a Igreja Universal do Reino de Deus) e da igreja católica, onde expressou, claramente, a sua posição contrária à legalização do aborto.

Neste domingo os candidatos à Presidência estarão igualmente atentos ao resultado das eleições para o Senado e Câmara dos Deputados. Apesar do sistema esdrúxulo (que permite o voto no partido e no deputado singularmente) dificultar sondagens mais precisas, é de se esperar que o PT e o seu aliado PMDB reforcem a posição em ambas as casas, embora ainda longe de uma maioria absoluta.

Mas é na importante figura do Governador de Estado (são 25 estados mais o distrito federal) que se podem encontrar as maiores disputas. À conta da sua política de alianças, que o levou a apoiar o candidato do PMDB em Minas Gerais e no Rio de Janeiro, o PT parece fadado a só alcançar o governo de dois estados entre os mais importantes e populosos, Rio Grande do Sul e Bahia. Quanto a São Paulo, de longe o estado mais populoso, com a previsível vitória de Geraldo Alckmin, do PSDB, sobre Aloizio Mercadante, histórico dirigente e principal ideólogo de serviço do PT, parece não ser desta que o PT consegue sair vitorioso. É este cenário que leva muita gente a afirmar que Dilma ficará ainda mais refém do PMDB durante o seu governo do que Lula, sendo que o seu vice na chapa, Michel Temer (PMDB), já avisou que não vem para ser coadjuvante.

Resta dizer que é um país profundamente desigual e cheio de contradições este que vai às urnas neste domingo. A par das eleições, as notícias que mais marcaram a actualidade nos últimos dois dias foram as que deram conta de mais um caso de trabalho escravo numa propriedade agrícola, no interior de São Paulo, e o assassinato de um sindicalista, em Manaus, baleado à queima roupa por um segurança de uma empresa de eletroelectrónica quando distribuía panfletos. Quem meditasse nestes casos, fazendo zaping pela TV brasileira, teria ainda a oportunidade de ver a interrupção de um leilão de gado bovino, na TV RURAL, e ouvir o apelo do apresentador no voto em José Serra, alertando para o perigo “dos muitos que por aí andam apregoando a redução do limite de terra”.

São retratos é certo, mas por isso importam tanto.

Para saber mais sobre a eleição brasileira:

Entrevistas do jornal Brasil de Fato com os candidatos de esquerda Plínio de Arruda Sampaio, Zé Maria, Ivan Pinheiro e Rui Pimenta

Veja abaixo passagens do último debate da rede Globo:

PLÍNIO - DILMA (4a) Debate Globo 30-09-2010

DILMA - PLINIO - SERRA (1) - Debate Globo 30-09-2010

SERRA - PLINIO (4b) Debate Globo 30-09-2010

PLINIO - DILMA (2b) - Debate Globo 30-09-2010

PLÍNIO - Considerações finais (5) Debate Globo 30-09-2010

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Sobre o/a autor(a)

Sociólogo, dirigente do Bloco de Esquerda e ativista contra a precariedade.
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