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Fernando Rosas: Existe uma tendência para reeditar "propaganda anti-republicana"

A tese historiográfica que considera a implantação do Estado Novo como a “causa natural do caos da I República” é uma interpretação "simplista e redutora", considerou o historiador e deputado do Bloco, Fernando Rosas.
Fernando Rosas insere as mais recentes conclusões do historiador Rui Ramos sobre a I República numa “corrente neo-conservadora”, definindo-o como seu principal representante.

O presidente do Instituto de História Contemporânea (IHC) da Universidade Nova de Lisboa, tem assinalado o “reaparecimento e reafirmação” de uma corrente historiográfica “de forte cunho ideológico monárquico-conservador” e que constitui uma quase reedição “do discurso propagandístico do Estado Novo sobre a I República”. Uma observação incluída na Introdução à “História da Primeira República Portuguesa” (ed. Tinta da China, Lisboa, 2009), que coordenou com Maria Fernanda Rollo.

“É uma tese muito redutora e que passa por alto todas as especificidades e particularidades históricas que a República teve na nossa história do século XX. Porque fecha o problema, remetendo para uma espécie de caos sanguinário inexplicável que também não é preciso explicar muito, a não ser para dizer que a nova ordem tinha de substituir o caos. Como se fosse algo inevitável”, considerou Fernando Rosas numa entrevista à Lusa.

Na perspectiva do historiador, esta interpretação “simplista” teve como contraponto a reacção da “historiografia maçónico-republicanista”, de sinal contrário: a República “como um regime perfeito, de grandes ideais, sem sombras, sem lados negros”. Em alternativa, enfatiza uma abordagem “que seja, tanto quanto possível, científica, académica, baseada numa leitura equilibrada da realidade”.

Fernando Rosas insere as mais recentes conclusões do historiador Rui Ramos sobre a I República – autor e coordenador da “História de Portugal” (Bertrand, 2009) – nesta “corrente neo-conservadora”, definindo-o como seu principal representante.

“Trata-se de uma espécie de reedição dos velhos tropos da propaganda anti-republicana, agora trabalhados com algum aparatus historiográfico que a propaganda lhe não conferia. Penso que Rui Ramos é o autor mais visível dessa sensibilidade”, assevera Rosas, na mesma entrevista.

O deputado do Bloco não nega a existência de um confronto ideológico entre estas duas correntes, o que considera normal. “O mal era se toda a gente pensasse da mesma maneira”, sublinha.

No entanto, não deixa de insistir no significado da fractura entre as diversas linhas de interpretação. “Quando Rui Ramos diz que o Partido Republicano não tinha base social, que era uma espécie de bando de arruaceiros que a benevolência da polícia consentiu que fossem longe demais, naturalmente está a exprimir um ponto de vista ideológico erróneo sobre aquilo que era o Partido Republicano como realidade social e política capaz de tomar o poder em Outubro de 1910”.

Fernando Rosas admite estar a “simplificar” essa abordagem histórica, mas volta à carga quando denuncia uma das “piores mistificações que se faz nessa História de Portugal”, quando se compararam os mortos nas greves durante a I República e no Estado Novo. “É desconhecer que as greves eram proibidas no Estado Novo e autorizadas na República. Qualquer tentativa de greve no Estado Novo era severisimamente reprimida, enquanto as greves na República eram autorizadas, por vezes reprimidas, mas autorizadas”.

Uma comparação feita nestes termos” mistifica e branqueia a natureza do regime salazarista. E por isso existe um grande campo de divergência, mas é natural, a história é também um campo de luta de ideias”.
 

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