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O estranho plano de Rashid

Ahmed Rashid quer entregar o Paquistão aos EUA e instituições sob o seu controlo. É um pouco mesquinho para as outras potências. Seria mais aconselhável expandir a lista.

Há uns dias atrás, o jornalista paquistanês favorito do Ocidente, Ahmed Rashid, escreveu uma “coluna de convidado” no sítio web da BBC no qual sugeria que o modelo governativo afegão fosse transferido para o Paquistão:

“O Fundo para a Reconstrução do Paquistão podia ser gerido por um conselho de administração que incluísse o Banco Mundial, outras agências de empréstimos internacionais e proeminentes economistas independentes paquistaneses e personalidades sem qualquer vínculo ao governo.

“Os paquistaneses ainda tomariam todas as decisões mais importantes, mas aqueles que o fizessem não podiam ser os amigos íntimos do presidente, o primeiro-ministro ou os líderes da oposição. A burocracia financeira do Paquistão e o exército teriam lugar à mesa, mas certamente não teriam qualquer poder de voto sobre como gastar o dinheiro.

“O seu trabalho seria a implementação imparcial da recuperação supervisionada pelo Fundo. Este Fundo seria não só para controlar o dinheiro, mas também para ajudar o governo a elaborar um esforço de reconstrução neutro, não político. Iria, além disso, ajudar a planear reformas económicas de longo prazo….”

A noção de que o Banco Mundial, o FMI e amigos são “não políticos” e “neutros” é caricata e não vale a pena perder tempo com ela, principalmente quando a sua supervisão efectuada ao maior banco do Afeganistão (em grande parte detido e controlado pela família Karzai, quase tão corrupta como Zardari e os seus amigos) não parece ter sido muito eficaz, pois faliu na mesma altura em que o sítio web da BBC publicou o texto inovador.

Claro que é inegável que a decadência e a desintegração internas do Paquistão, sobre a qual tenho escrito há tantos anos, prosseguem a passos rápidos. Uma desilusão profunda acompanhada de niilismo já estava instalada há algumas décadas, quando, num dos seus poemas, Faiz Ahmed Faiz se referiu à pátria como “uma floresta de folhas mortas”, “uma congregação de dor”. E desde então piorou.

Como se a guerra Af-Pak (apoiada por Rashid e companhia) já não fosse suficientemente má. A reacção que criou, na forma de extremistas religiosos armados que bombardeiam alvos em todas as principais cidades paquistanesas, é incontrolável. Ou, dito de outra forma, se o Estado paquistanês, com o seu exército de meio milhão de efectivos, as suas inúmeras redes secretas operacionais militares e policiais, escondidas em cada canto e instituição do país, é incapaz de penetrar e isolar os grupos que transportam as bombas, então o fim está verdadeiramente próximo.

Ou pode ser que os serviços secretos se tenham infiltrado a partir de dentro e de fora. Caso contrário, seria um mistério completo explicar o timing de alguns ataques contra alvos internos ou agentes e soldados dos serviços secretos externos. Tomemos o exemplo de alguns anos atrás: os membros dos serviços secretos dos Estados Unidos e da NATO decidem encontrar-se para um almoço informal num restaurante de luxo de Islamabad. A localização e a lista de convidados são secretas, só conhecidas deles próprios e dos seus guardas de confiança dentro dos serviços secretos do Paquistão. Uma bomba bem colocada interrompe o almoço, deixando um rasto de morte. E isto não foi o Wikileaks, com certeza.

A corrupção política destruiu o país a outros níveis, espalhando a raiva contra os políticos e o desespero pela incapacidade de alguém poder fazer alguma coisa. A indiferença pela política é profunda e o cidadão comum considera os políticos no poder como um negócio sujo, e tenta refugiar-se na vida privada. O cidadão activo, pelo menos neste momento, é uma raça em extinção, apesar da coragem de uma pequena minoria de activistas e jornalistas que se recusam a desistir.

O país tropeça de um desastre para o outro, e com o fosso que existe entre os super-ricos, cujos banquetes de casamento são trazidos de avião do Dubai, e que construíram escolas, universidades e hospitais para si próprios, e as famílias da classe média normal que não conseguem aceder a essas instituições e que procuram desesperadamente alguma forma de emigrar para algum lugar – o que já não é fácil, dada a segurança reforçada desde o 11 de Setembro. E isto é só 20% da população.

Os apresentadores de televisivos que falam de uma revolução de limpeza nunca conseguem fazer uma, e aqueles que os ouvem, cujos sofrimentos se tornam evidentes apenas quando os desastres ocorrem, estão tão desmoralizados e amedrontados e concentrados em alimentar os seus filhos e a eles próprios que a acção política significativa está, no momento, longe dos seus pensamentos. Os extremistas religiosos, felizmente, continuam impopulares. O seu modelo de desenvolvimento não é nenhum segredo na região.

Ahmed Rashid quer entregar o país aos Estados Unidos e instituições sob o seu controlo. Certamente que isto é um pouco mesquinho para as outras potências mundiais. Tendo em conta a instabilidade da economia dos Estados Unidos, seria mais aconselhável expandir a lista. Talvez quatro multinacionais mundiais (com base nos Estados Unidos, Alemanha, China e Rússia) pudessem formar um consórcio (AFPAKCO) e convidar os estados falhados, começando pelo Paquistão.

O que a Blackwater, os seus subsidiários e rivais estão a fazer pelos exércitos dos Estados Unidos e da Inglaterra, podia ter uma réplica na sociedade civil através dos grandes bancos, dos gigantes do petróleo e a da indústria nuclear. Podiam controlar e gerir alguns países, e se eles atrapalhassem, o Banco Mundial e o FMI podiam resgatá-los. As elites, muitas com o seu número já nas folhas de pagamento, seriam, com prazer, completamente vendidas. E se o consórcio estivesse bem generalizado, o Exército paquistanês de bom grado podia policiar a nova estrutura em troca de um cheque mensal mais chorudo do que o que recebe actualmente do CENTCOM.

Onde em tempos a Companhia das índias Orientais controlou todo um subcontinente, o consórcio AFPAKCO agora só precisava de comprar um pequeno pedaço de terra do Norte. Desta vez o interesse económico próprio pode obrigar à educação da população, certificando-se de que a força trabalhadora está convenientemente alimentada (alimentos geneticamente modificados seriam acessíveis nesta frente) e que se mantém relativamente saudável.

Naturalmente que os meios de comunicação social, tão selvagens e sem controlo, hoje em dia, teriam de ser contidos e ajustados às necessidades da AFPAKCO. Aqui a BBC, a CNN e a Fox podiam tomar o controlo, e Rashid seria a pessoa indicada para ser nomeado como o primeiro Director Geral da consolidada PTV. É uma questão táctica se alguns canais pornográficos devem ser autorizados para fins recreativos, embora nesta frente muitos dos políticos que actualmente desperdiçam o seu tempo podem fornecer conselhos e serviços úteis.

Dentro de 25 anos, sejamos pessimistas, uma enorme revolta anti-AFPAKCO pode irromper e trazer verdadeira mudança e independência de uma maneira bem diferente e sob uma nova liderança não manchada de laços de sangue, corrupção e colaboração. Então sim, este seria um novo começo.

O último livro de Tariq Ali,“The Obama Syndrome: Surrender at Home, War Abroad” é publicado este mês pela Verso.

Publicado no Counterpunch

Tradução de Noémia Oliveira para o Esquerda.net

Sobre o/a autor(a)

Escritor paquistanês, activista revolucionário estabelecido em Inglaterra.
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