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Gaza dois anos depois da Operação Chumbo Fundido

Quando milhares de habitantes de Gaza correram ao encontro da flotilha da liberdade em Junho, fizeram-no para vislumbrar outro mundo e desafiar a ocupação militar que ainda controla cada faceta das suas vidas. Por Graham Usher
O mar, se às vezes traz flotilhas, também pode enviar ondas de chumbo fundido para arrasar qualquer castelo de areia que Gaza construa. Foto de freegazaorg

A casa de Abu Raad é feita de adobe. Talhada por divisões de cimento, água e areia, o estratagema é necessário por causa dum cerco israelita que proíbe a entrada de qualquer matéria-prima na Faixa de Gaza. Abu Raad perdeu seis casas quando o exército israelita bombardeou o norte de Gaza na operação Chumbo Fundido, em Dezembro de 2008.

Cinquenta e dois familiares seus correram para se salvar, debaixo do fogo israelita, agitando bandeiras brancas. Em 2006, outros 18 tinham sido mortos quando uma bomba “perdida” do exército esmagou uma outra casa perto da fronteira israelita, forçando a fuga para Gaza do norte.

Hoje ele senta-se na sua própria terra, em frente de uma casa de adobe, que parece um castelo de areia. Quando poderá reconstruir a sua casa? "Quando o seu país acabar com o bloqueio ao meu" responde.

Firmeza, cinismo, impotência: este é o estado de espírito quatro anos depois de o mundo esbofetear os palestinianos em Gaza com um bloqueio pela temeridade de votarem a favor de um governo do Hamas, e quase dois anos depois do exército israelita tentar restaurar o brilho ofuscado pelas suas derrotas no Líbano, rebentando com Gaza em pedacinhos. Aquele ataque violento ainda reverbera, como um abalo secundário.

"Passei pelo massacre israelita em Khan Younis em 1956; passei por 1967. Mas nunca passei por nada como Chumbo Fundido. Pensava-se que cada momento seria o último", diz um amigo de Jabalyia.

Em 2009, o norte de Gaza estava juncado de detritos de casas bombardeadas, campos queimados e fábricas arrasadas. Hoje, a terra está limpa, com a reconstrução por grupos islâmicos locais e internacionais, como o turco IHH, tribunos da flotilha cuja tentativa de chegar a Gaza em Maio passado deixou nove mortos mas forçou Israel a aliviar o cerco.

Essa vitória recaiu sobre o Hamas, o movimento islâmico e agora governo que que todos tentaram fazer cair através de bloqueios, assaltos e tentativas de golpes. Três anos depois de ter vencido a Fatah numa guerra civil breve mas sangrenta, o Hamas parece indomável em Gaza, formando uma nova nação palestiniana a partir das ruínas da velha.

A nova ordem é sentida não tanto nos projectos de construção que tanto intrigam o Ocidente: como as estâncias no litoral ou um pequeno centro comercial na Cidade de Gaza. Para a população de Gaza, é mais sentida num novo sentimento de segurança pessoal.

Não há armas em Gaza, sequer nas mãos da polícia. O Hamas baniu a sua exibição. Está a milhas de distância da ilegalidade armada da era Fatah, quando a milícia, as tribos, até os grupos nas festas de casamento podiam inflamar-se de repente e chegar a um estado de guerra. A proibição é rigorosamente imposta, com as grandes famílias a não serem menos punidas do que as pequenas. Isto é populista e muito popular.

Nem os habitantes de Gaza culpam o Hamas por um ataque económico em que pelo menos 40% estão desempregados e 80% dos 1,6 milhões de habitantes de Gaza dependem de ajudas. "O Hamas também está debaixo de cerco", respondem.

Um amigo conduz-me através de terras por cultivar outrora ocupadas por assentamentos judeus que não podem ser convertidos para agricultura, indústria ou habitação por falta de investimento. Aponta para novos projectos de alojamento entre bairros de lata que não podem ser concluídos por falta de materiais. "Se as coisas fossem iguais, Gaza podia avançar", diz. "Mas o cerco retarda tudo".

Incapaz de se desenvolver, o Hamas entrincheira o seu regime. É sustentado pelo dinheiro do Irão e por uma Fraternidade Muçulmana global, mas acima de tudo por uma economia de contrabando que passa por túneis sob a fronteira egípcia, tendo no ano passado fornecido 80% das importações civis de Gaza e, dizem os banqueiros locais, deu ao Hamas uns tranquilos 150-200 milhões de dólares de receita.

Os túneis não vão trazer prosperidade a Gaza. Mas ajudam o Hamas a pagar 32.000 funcionários públicos, incluindo 16.000 em pessoal de segurança, e 40.000 outros envolvidos na economia de mercado negro ou instituições previdenciais. Esses são formidáveis eleitorados – e poderosos sistemas de clientela -- com que nenhum outro grupo político em Gaza consegue rivalizar.

Contudo, o Hamas dificilmente é mais popular do que a Fatah. Como eles, não pode dar o que o seu povo mais quer: não governação, mas libertação.

"Liberdade de movimentação, de viajar, de partir," diz um homem que não saiu de Gaza durante cinco anos. Salvo raras "excepções", a maior parte dos palestinianos permanece retida na maior prisão da terra, fechados por dentro, a sul, pelo Egipto, fechados por fora por Israel em todos os outros lugares.

Devido ao bloqueio, a Fatah ganharia qualquer nova eleição, diz um homem de Nusierat. "Sabemos que a Fatah é corrupta. Mas com eles há pelo menos uma possibilidade de que o cerco possa terminar. Há uma brisa através da grade. Com o Hamas, não há sequer uma brisa".

Os líderes de Hamas parecem concordar. Já não falam em democracia: falam em "planos de 10 anos". Há um autoritarismo arrepiante por trás do que inicialmente tinha sido um poder cauteloso, incerto.

Desde 2007, o Hamas proibiu todas as actividades públicas da Fatah em Gaza, sobretudo em represália por acções semelhantes infligidas ao Hamas na Margem Ocidental pela Autoridade de Ramallah. Mas a medida atinge agora antigos aliados, como as Frentes Populares e Democráticas da OLP e a Jihad Islâmica.

E enquanto o Hamas não impôs uma agenda islâmica agressiva, certos dos seus quadros mais jovens causam danos ao substituir a guerra santa dos maometanos contra Israel (actualmente interdita por um pacto de não-agressão não-anunciado) por cruzadas morais contra os costumes do seu povo.

“Aproveitam-se das pessoas” diz uma médica de Khan Younis. "Ora dizem às mulheres que não podem fumar cachimbos de água; ora dizem a advogadas que têm de usar um hijab no tribunal. Quando se resiste, recuam. Quando não, islamizam".

Isto é que enfurece mais as pessoas. O seu pressentimento é que o Hamas – não menos do que a Fatah – prefere o poder adquirido pelo gabinete a qualquer estratégia para curar o pior cisma que o movimento nacional alguma vez sofreu.

"Eles habituaram-se às cadeiras," diz um activista veterano em Jabalyia.

Quanto à reconciliação entre os dois movimentos, encolhe os ombros. "É tão provável como Israel levantar o cerco". Assim, desagradados, os palestinianos afastam-se da política. Alguns voltam-se para as famílias; outros para a mesquita. Todos buscam a fuga. A depressão é predominante. E, até num território tão populoso como Gaza, o sentido de isolamento é dominador.

Por isso a flotilha inspirou esperança. Quando milhares de habitantes de Gaza correram ao encontro dos barcos em Junho passado, fizeram-no não porque pensavam que podiam romper o cerco. (Qualquer habitante de Gaza lhe dirá que a política de Israel não é matá-los à fome mas contê-los dentro duma “garrafa" que não permita nenhum desenvolvimento, nenhuma prosperidade mas também nenhuma crise humanitária). Ao invés, foram até ao mar porque a flotilha os deixou vislumbrar outro mundo e desafiar uma ocupação militar que, embora remota, ainda controla cada faceta das suas vidas.

Desde então, a vida voltou a uma espécie de hábito monótono. Vendo o sol cair como uma moeda dourada no oceano, pergunto a uma amiga que horas são. "As do costume", sorri e logo franze o sobrolho. Perscruta o horizonte. Sabe que o mar, se às vezes traz flotilhas, também pode enviar ondas de chumbo fundido para arrasar qualquer castelo de areia que Gaza construa.

Graham Usher escreve para o Al-Ahram Weekly, onde esta coluna apareceu originalmente.

Traduzido do Counterpunch

Tradução de Paula Sequeiros para o Esquerda.net

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