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Quem tem medo da paz?

A declaração [da ETA] ficou aquém das expectativas, ao não corresponder ao apelo da Declaração de Bruxelas, que pedia um "cessar fogo permanente e incondicional", mas é sem dúvida um passo importante rumo a um processo de paz digno desse nome.

Em 5 de Setembro, a ETA emitiu um comunicado em que fez saber que "há alguns meses tomou a decisão de não levar a cabo acções armadas ofensivas."A declaração ficou aquém das expectativas, ao não corresponder ao apelo da Declaração de Bruxelas, que pedia um "cessar fogo permanente e incondicional", mas é sem dúvida um passo importante rumo a um processo de paz digno desse nome. Sobretudo porque nasce da pressão da esquerda abertzale, empenhada em criar as condições para reproduzir algo semelhante ao que aconteceu na Irlanda do Norte nos anos 90. Figuras centrais nesse processo, como Gerry Adams, John Hume e Brian Currin, já vieram a público apelar a uma resposta positiva por parte do governo espanhol.

Sendo compreensível que haja cautela e algum cepticismo, a reacção dos principais partidos espanhóis deixa muito a desejar: apelidar o gesto de meramente "insuficiente" e exigir da ETA uma declaração de cessação das actividades militares sem que esteja no horizonte um processo político é, na melhor das linguagens, um tiro no pé, como ficou bem claro na Irlanda, onde os entraves que foram sendo levantados à participação do Sinn Féin nas negociações quase fizeram descarrilar todo o processo. Um processo de paz não é um passo de magia nem o momento de apontar o dedo e trocar galhardetes de sofrimento; é um processo lento, que visa sobretudo garantir que existe confiança mútua numa dinâmica democrática a longo prazo.

Aliás, comparando a história recente do País Basco e da Irlanda do Norte torna-se claro que a opção por ilegalizar os partidos políticos com ligações aos movimentos armados apenas isola quem tem a possibilidade (e a vontade) real de inverter a estratégia de violência. Alguém acredita que é ilegalizando partidos, proibindo manifestações em prol de direitos cívicos e reagindo a um passo na direcção certa, por tímido que seja, realçando a fragilidade actual da ETA e reiterando a aposta nas soluções securitárias (que aumentam o potencial de conflito) que se incentiva a base de apoio da ETA a acreditar na viabilidade de processos exclusivamente democráticos? A responsabilidade de decretar um cessar fogo permanente e "suficiente" cabe exclusivamente à ETA, mas quem o deseja de facto deve tudo fazer para que ele se torne uma realidade.

A paz no País Basco e no Estado Espanhol não se resume ao silêncio da armas da ETA. Se assim fosse, há muito que as não havia. Neste momento, existe no País Basco a vontade de pôr termo a um quotidiano saturado de violência — que é real porque não é imposta, mas fruto da consciência de que a violência é um círculo vicioso terrível, que mais não faz do que agudizar o conflito. Não reagir positivamente aos esforços da esquerda abertzaleé dizer a toda essa gente que não vale a pena mudar de estratégia, porque não há alternativa ao léxico do "terrorismo".

A primeira tarefa da comunidade internacional é deixar bem claro a todas as partes que não admitimos que a violência, venha ela de onde vier, seja um trunfo político para quem não tem coragem para se imaginar para lá das bombas e das próximas eleições.

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