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Pescadores do Mississipi não confiam em descontaminação

Os pescadores mostram que as águas e a fauna marinha estão contaminadas pelo petróleo e os dispersantes, mas estão a ser acusados de estarem a mentir. Por Dahr Jamail, da IPS
Uma ave morta apanhada em Waveland, Mississipi – Foto de Bevil Knapp/Epa/Lusa

Biloxi, Estados Unidos, 24/8/2010 – O Estado norte-americano do Mississipi reabriu todas as suas áreas de pesca. Mas os que se dedicam à captura de camarões negam-se a lançar as suas redes, pois acreditam que as águas e a fauna marinha continuam contaminadas pelo derramamento de petróleo da multinacional British Petroleum (BP). “Este é o único lugar no Mississipi onde é possível capturar ostras, e agora tem petróleo e dispersantes por cima”, disse à IPS o pescador James Miller, apontando para a enseada do Rio Mississipi do seu barco de pesca.

No dia 20 de Abril, a plataforma de exploração Deepwater Horizon, que a BP arrendava à firma suíça Transocean, explodiu e dois dias depois afundou. Só foi possível deter o derramamento no dia 15 de Julho. Durante esse tempo foram lançados no mar quase cinco milhões de barris de petróleo (cerca de 758 milhões de litros).

No dia 6 deste mês, os estaduais Departamento de Recursos Marinhos e Departamento de Qualidade Ambiental, em coordenação com o Escritório Nacional de Administração Oceânica e Atmosférica (NOAA) e a Administração de Drogas e Alimentos dos Estados Unidos (FDA) ordenaram a reabertura de todas as águas territoriais do Mississippi a todas as actividades pesqueiras.

A medida inclui a pesca comercial e recreativa, tanto de peixes como de camarões, que tinham cessado por precaução após o derramamento. Contudo, James, junto com muitos outros pescadores comerciais de camarão, nega-se a lançar as suas redes. A IPS acompanhou-o no seu barco, junto com o pescador Mark Stewart e o activista Jonathan Henderson, da Gulf Restoration Network, uma organização ambientalista que trabalha para documentar e aliviar os efeitos da catástrofe.

O objectivo era demonstrar ao público que a área onde eles pescam está contaminada tanto com petróleo como pelo dispersante químico Corexit. O seu método foi simples: prenderam um pedaço de pano num anzol, colocaram na água por um breve período e retiraram. O pano ficou coberto por uma gordurosa substância castanha que os pescadores identificaram como uma mistura do petróleo com os dispersantes.

James e Mark, ambos participantes do programa Naves de Oportunidade, da BP, foram treinados para identificar esses produtos, e alguns membros do governo do Mississipi acusam-nos de mentir. “Por que mentiríamos sobre o petróleo e os dispersantes nas nossas águas, quando o nosso sustento depende do que pescamos aqui?”, perguntou James à IPS.

“Eu quero que isto fique limpo para podermos voltar a viver como antes. Mas se as nossas águas estão contaminadas, não tem sentido pescar”, afirmou. A IPS observou James e Mark realizarem oito testes em diferentes pontos na área da enseada do Mississipi. Em todos os casos, os panos apresentaram as mesmas manchas.

Numa ronda anterior de testes, ambos levaram junto o cientista Ed Cake, da Gulf Environmental Associates. Sobre essa experiência, o cientista escreveu que “quando o barco parava para retirar amostras, pequenas borbulhas entre meia e uma polegada (entre 1,27 e 2,54 centímetros) de diâmetro surgiam na superfície periodicamente, e pouco depois estouravam, deixando um pequeno rastro de petróleo”.

James levou as amostras a uma reunião comunitária na localidade de D’Iberville, para mostrá-las aos pescadores e às suas famílias. Na reunião, todos apoiaram por unanimidade uma petição exigindo a demissão de William Walker, director do Departamento de Recursos Marinhos do Mississipi e responsável pela abertura das áreas de pesca.

No dia 9, e apesar de todos os relatórios sobre bolhas de alcatrão, petróleo e dispersantes encontradas em águas do Estado, o director declarou que “não deveria haver ameaças”. Também ordenou a todos os governos costeiros locais que deixassem de realizar trabalhos relativos ao desastre, financiados com dinheiro que a BP entregou ao Estado. Nos últimos dias, pescadores e cientistas encontraram petróleo, peixes mortos e “água negra” em diferentes pontos do Rio Mississipi.

“Enviámos amostras a todos os meios de comunicação que conhecemos, tanto do Mississipi como em Washington”, disse Mark à IPS. Ele é a terceira geração de pescadores da sua família. “Neste barco transportamos pessoal de Ray Mabus, que levaram amostras contaminadas que extraímos, e não ouvimos nada a respeito”, acrescentou. Raymond Mabus é secretário da Marinha norte-americana e ex-governador do Mississipi, encarregado pelo presidente Barack Obama de elaborar “o mais rápido possível um plano de restauração de longo prazo da costa do Golfo”, explicou.

Muitos pescadores da região acusam Ray de não fazer o seu trabalho. “Pensamos que abriram a temporada de camarões prematuramente”, disse James à IPS. “Como podemos voltar a colocar o nosso produto no mercado quando nos Estados Unidos todos sabem o que aconteceu aqui. Nos últimos meses, vi tantos animais mortos que nem foi possível contá-los”, afirmou.

Vários pescadores de camarões, entre eles James e Mark, deram uma entrevista colectiva no dia 19 na cidade de Biloxi. Outros pescadores ali presentes também não estão a trabalhar por medo de as pessoas ficarem doentes ao consumirem o que pescarem. “Queremos que o governo e a BP sejam transparentes em relação aos dispersantes Corexit”, disse à IPS o pescador Danny Ross, de Biloxi.

Envolverde/IPS

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