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A oportunidade perdida de Obama

A administração Obama proclama aos quatro ventos que a economia americana recupera e que logo regressarão os tempos felizes. O investimento aumentará, o desemprego reduzir-se-á e as contas públicas encontrarão novamente o seu ponto de equilíbrio. Infelizmente, os dados não permitem confirmar estas previsões felizes. E, entretanto, o tempo corre.
Alejandro Nadal: "Sem um estímulo fiscal adicional, a recuperação económica nos Estados Unidos abortará e haverá uma recaída". Foto Alessio85/Flickr

Não é claro por que motivo os assessores de Barack Obama escolheram acreditar nas previsões mais optimistas dos seus modelos macroeconómicos. Nos cenários mais favoráveis desses modelos, o investimento e o emprego aumentariam, e o crescimento geraria uma maior arrecadação, com a qual o défice seria eliminado nuns poucos de anos.

A verdade é que a economia americana não vai por esse caminho. O sector privado continua na sua trajectória de desendividamento. As famílias não estão interessadas em pedir crédito para ir às compras. Por sua vez, as empresas enfrentam um cenário de reduzida procura e uma sobre-capacidade instalada, pelo que os seus níveis de investimento são baixíssimos. Assim, o estímulo fiscal foi o único que permitiu compensar parcialmente este colapso da procura agregada.

Esse pacote fiscal que Obama conseguiu aprovar no início da sua administração atingiu os 700 mil milhões de dólares, montante que parece colossal, mas que na realidade foi insuficiente para tirar definitivamente a economia americana da crise. Mesmo assim, o estímulo fiscal permitiu evitar uma queda mais forte do PIB e serviu para recuperar um crescimento débil. O problema é que o desemprego permaneceu alto (perto dos 10 por cento da população economicamente activa). Os prognósticos de crescimento mais favoráveis para 2011 não ultrapassam os 2,4 por cento, o que é insuficiente para reverter a tendência negativa em matéria de emprego.

Hoje, em lugar de propor um novo pacote de estímulo fiscal, a equipa de Obama optou por outro caminho e afirma que o primeiro estímulo fiscal deu bons resultados. Recentemente, Tim Geithner, o secretário do Tesouro, apontou que a economia já melhorou o suficiente para deixar que o sector privado se encarregue de consolidar a recuperação. O próprio Barack Obama manifestou-se neste sentido há um par de semanas e pouco faltou para anunciar que já se deve regressar aos dogmas neoliberais de austeridade e orçamento equilibrado. Este erro terá consequências políticas desastrosas.

Em vez de manter uma intervenção decidida na economia americana, a Casa Branca está a mudar de rumo e a perder a única oportunidade que tem para realizar as mudanças que Obama prometeu na sua campanha. Em particular, deveria estar a procurar activamente um novo pacote fiscal para consolidar o crescimento e promover a mudança estrutural que é necessária para resolver o grave problema do desemprego. A sua mensagem deveria falar com verdade, apontando com clareza que, embora o primeiro estímulo tenha de facto funcionado, revelou-se insuficiente.

Os republicanos no Congresso esgrimem uma versão diferente. Na sua narrativa, o estímulo fiscal teria fracassado, pelo que não é necessário recorrer a outro pacote fiscal. Deste modo, os republicanos culpam directamente Obama pela falta de bons resultados na luta contra a recessão. Em Novembro, quando chegarem as eleições e todos possam ver com clareza que as historietas sobre a recuperação careciam de fundamento, os democratas pagarão o custo político de ter uma economia com um nível de desemprego de 10 por cento.

Diz-se que Obama teme perder a sua credibilidade se reconhecer que se enganou ao pedir um estímulo fiscal que acabou por ser insuficiente. Mas outra explicação é que, como muitos políticos, este homem não consegue entender os aspectos básicos da política económica e deixou tudo à sua equipa. À cabeça está Geithner, um agente do mundo financeiro que tem incutido no seu pequeno cérebro o dogma de que o défice fiscal é danoso para a economia a médio e longo prazos. A teoria macroeconómica dominante vê no défice fiscal um problema porque supostamente conduz a um aumento na taxa de juros e a uma queda no investimento privado. É preciso dizer que essa mesma teoria é aquela que nunca previu a crise actual.

Além disso, hoje o problema não é nem a inflação, nem os aumentos na taxa de juros, que está a zero. Evidentemente, o défice não é a solução para os problemas estruturais da economia americana, mas de momento é evidente que a frágil recuperação é resultado directo do défice fiscal. Sem um estímulo fiscal adicional, a recuperação económica nos Estados Unidos abortará e haverá uma recaída.

Faltam 86 dias para as eleições legislativas nos Estados Unidos. O eleitorado passará a factura a Obama pela recaída e os republicanos recuperarão o controlo do Congresso. O custo desta ominosa eventualidade pagá-lo-emos todos.

 


Artigo de Alejandro Nadal.

Fonte La Jornada, tradução de www.infoalternativa.org.

Sobre o/a autor(a)

Economista, professor em El Colegio do México.
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