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A guerra no Afeganistão: ecos do Vietname

Os War Logs, um arquivo de documentos militares confidenciais que abarcam seis anos da guerra do Afeganistão, publicados na internet pela organização Wikileaks, relatam uma luta inflamada e cada dia mais encarniçada, na perspectiva dos Estados Unidos. E, para todos os afegãos, um horror crescente.
"Os War Logs, por mais valiosos que sejam, podem contribuir para a doutrina dominante de que as guerras só são algo mau quando não são vencidas",diz Chomsky. Foto dlr2008/Flickr

Os War Logs, por mais valiosos que sejam, podem contribuir para a doutrina dominante de que as guerras só são algo mau quando não são vencidas – algo assim como o que os nazis sentiram depois de Estalingrado.

No mês passado ocorreu o fiasco do general Stanley A. McChrystal, obrigado a retirar-se do comando das forças dos Estados Unidos no Afeganistão e substituído pelo seu superior, o general David H. Petraeus. Uma provável consequência é um relaxamento das normas de combate, de forma que se torne mais fácil matar civis, e uma prolongamento da guerra à medida que Petraeus use a sua influência para conseguir este resultado no Congresso.

O Afeganistão é a principal guerra em curso do presidente Obama. A meta oficial é proteger-nos da Al-Qaeda, uma organização virtual, sem base específica – uma rede de redes e uma resistência sem líderes, como foi chamada na literatura profissional. Agora, ainda mais do que antes, a Al-Qaeda consiste em facções relativamente independentes, associadas frouxamente ao redor do mundo.

A CIA calcula que entre 50 e 100 activistas da Al-Qaeda talvez estejam no Afeganistão, e nada indica que os talibãs desejem repetir o erro de dar refúgio à Al-Qaeda. Por outro lado, o talibã parece estar bem estabelecido no seu vasto e árduo território, uma grande parte dos territórios pashtun.

Em fevereiro, no primeiro exercício da nova estratégia de Obama, os marines norte-americanos conquistaram Marja, um distrito menor na província de Helmand, principal centro da insurgência.

Uma vez ali, informa Richard A. Oppel Jr., do The New York Times, “os fuzileiros se confrontaram com uma identidade talibã tão dominante que o movimento se assemelha mais a uma organização política numa região de um só partido, com uma influência que abarca a todos...”.

“Temos que reavaliar a nossa definição da palavra 'inimigo', disse o general de brigada Larry Nicholson, comandante da brigada expedicionária de fuzileiros na província Helmand. A maioria das pessoas aqui identificam-se a si mesmas como talibã... Temos que reajustar a nossa forma de pensar, de forma que não pareça que estamos expulsando os talibãs de Marja, mas que estejamos a tratar de expulsar o inimigo.

Os marines enfrentam um problema que sempre espreitou os conquistadores, e que é muito familiar para os Estados Unidos, desde o Vietname. Em 1969, Douglas Pike, o mais importante académico governamental nos assuntos do Vietname lamentou que o inimigo – a Frente de Libertação Nacional (FLN) – era o único partido político verdadeiramente baseado nas massas no Vietname do Sul”.

Qualquer esforço para competir politicamente com esse inimigo seria como um conflito entre uma sardinha e uma baleia, reconheceu Pike. Em consequência, devíamos superar a força política do FLN recorrendo à nossa vantagem comparativa, a violência – com resultados horrendos.

Outros enfrentaram problemas similares: os russos, por exemplo, no Afeganistão, durante os anos 80, quando ganharam todas as batalhas mas perderam a guerra.

Escrevendo a respeito de outra invasão estadunidense – a das Filipinas em 1989 -, Bruce Cumings, historiador especialista em Ásia na Universidade de Chicago, fez uma observação hoje aplicável ao Afeganistão: “quando um marine vê que sua rota é desastrosa, muda de curso, mas os exércitos imperiais afundam as suas botas em areias movediças e seguem marchando, ainda que seja em círculos, enquanto os políticos enfeitam o livro de frases dos ideais norteamericanos”.

Depois do triunfo de Marja, esperava-se que as forças lideradas pelos Estados Unidos atacariam a importante cidade de Kandahar, onde, segundo uma investigação do exército, a operação militar é rechaçada por 95% da população e onde 5 em cada 6 consideram os talibãs como nossos irmãos afegãos – mais uma vez, ecos de conquistas prévias. Os planos sobre Kandahar foram adiados, e isso foi parte dos antecedentes para a saída de McChrystal.

Dadas essas circunstâncias não é de se estranhar que as autoridades dos Estados Unidos estejam preocupadas que o apoio popular à guerra no Afeganistão seja ainda mais enfraquecido. Em maio passado a Wikileaks publicou um memorando da CIA acerca de como manter o apoio da Europa à guerra: o subtítulo do memorando era: porque contar com a apatia talvez não seja suficiente.

O perfil discreto da missão no Afeganistão permitiu aos líderes franceses e alemães desprezarem a oposição popular e aumentarem gradualmente o seu contributo às tropas da Força de Assistência à Segurança Nacional (ISAF), assinala o memorando. Berlim e Paris mantêm o terceiro e quarto níveis mais altos de tropas na ISAF, apesar da oposição de 80% dos inquiridos alemães e franceses a maiores envios de forças. É necessário, em consequência, dissimular as mensagens para impedir ou ao menos conter uma reacção negativa.

O memorando da CIA deve fazer-nos recordar que os Estados têm um inimigo interno: a sua própria população, que deve ser controlada quando a política do Estado tem oposição no povo. As sociedades democráticas dependem não da força, mas da propaganda, manipulando o consenso mediante uma ilusão necessária e uma super-simplificação emocionalmente poderosa, para citar o filósofo favorito de Obama, Reinhold Niebuhr.

A batalha para controlar o inimigo interno, então, continua a ser altamente pertinente – de facto, o futuro da guerra no Afeganistão pode depender dela.
 


Artigo publicado no jornal mexicano La Jornada. Tradução de Katarina Peixoto para a Carta Maior.

Sobre o/a autor(a)

Linguista, filósofo e activista político americano
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