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O crescimento predador na Índia

A economia da Índia mantém elevadas taxas de crescimento desde há vários anos e para muitos é um modelo a seguir. Afirma-se, inclusivamente, que a experiência do subcontinente é sinal de que o neoliberalismo pode funcionar. A realidade é diferente. Por Alejandro Nadal
42 por cento da população total do país (1173 milhões) vive com menos de um dólar por dia. Foto Geoprimary/Flickr

A evolução da economia indiana é um processo patológico que se alimenta da desigualdade social e da destruição ambiental.

A Índia manteve um crescimento modesto desde a independência em 1947. O projecto de industrialização susteve uma expansão reduzida (4 por cento) embora estável entre 1950 e 1980. O rendimento per capita aumentou, em média, 1,3 por cento/ano, durante este período. A balança comercial manteve um deficit permanente e a economia fechou-se aos fluxos comerciais e de capital.

A crise da dívida mundial dos anos 80 submeteu a Índia aos ditames do Fundo Monetário Internacional e nos anos 90 impuseram-se reformas de corte neoliberal, o que representou uma viragem radical na política económica. Nos últimos 10 anos, a Índia teve uma taxa de crescimento média anual de 6,8 por cento. A imprensa apresentou este facto como um milagre económico.

Durante esses anos, a desigualdade e a pobreza agudizaram-se na Índia. Hoje, 42 por cento da população total do país (1173 milhões) vive com menos de um dólar por dia. 75 por cento da população vive com dois dólares por dia e o modelo económico não vai reverter esta estrutura tão desigual.

Apesar das taxas de crescimento de 6 e 7 por cento, o aumento do emprego formal na Índia é insignificante e não ultrapassa o 1 por cento anual. Naturalmente, isso significa que a expansão económica se baseia em aumentos de produtividade muito importantes. Isto surge relacionado com a estratégia de orientar o investimento para a exportação, o que exige que se reduzam ao máximo os custos salariais para poder competir. Por isso, a racionalização das cadeias produtivas é acompanhada de cortes drásticos no emprego. Apesar do milagre verificado nas taxas de crescimento, a Índia mantém um deficit crónico nas suas contas externas e precisa de financiamento. Para isso, optou por receber fluxos de capital, provenientes dos investimentos estrangeiros directos, mas também dos investimentos em carteira (capitais de curto prazo). Isto representa, porém, um custo enorme: a política macroeconómica deve respeitar regras do jogo que nada têm a ver com as necessidades da população indiana.

A política monetária está dominada pela necessidade de atrair capitais ao espaço económico indiano. Isso implica manter taxas de juro elevadas. Além disso, apenas os privilegiados têm acesso ao crédito, tudo isso imprime um viés regressivo na distribuição da riqueza ao favorecer a carteira de activos dos estratos mais ricos e aprofundar a desigualdade. Isso é, no entanto, irrelevante: o que importa é manter o fluxo de capitais que permita financiar o défice externo.

Tudo isto explica que a Índia tenha hoje as reservas mais altas da sua história (cerca de 230 mil milhões de dólares). Nisto é parecida com a China, sendo que aquilo que diferencia esta última é que a China apresenta um enorme superavit (ou excesso das receitas sobre as despesas) na sua balança comercial, enquanto a Índia sofre de deficit económico. As reservas da Índia não o são propriamente, são mais um recurso que em qualquer momento pode evaporar-se.

A política fiscal rege-se pelo dogma do orçamento equilibrado e em como não constranger os donos do capital para não afectar os seus investimentos e o equilíbrio fiscal é realizado mediante o corte nos gastos sociais e reduzindo a quantidade de recursos mobilizados para a conservação ambiental. A abertura ao investimento estrangeiro passa pela entrega de concessões nas indústrias extractivas, florestais e turísticas. Isso resulta na desapropriação de terras onde se encontram as jazidas (de ferro em Chhattisgarh, de bauxite em Orissa, etc.) ou as cobertas por densas florestas que representa uma riqueza comercial de acesso fácil. Muitas dessas terras são o lugar de populações indígenas ou adivasi (termo que deriva do sânscrito e que significa primeiros habitantes do bosque). Os adivasi representam menos de 8 por cento da população da Índia, embora constituam 40 por cento da população que assim se vê privada de vales, colinas e bacias hidrográficas. A entrega das suas terras a mega-corporações ligadas às indústrias extractiva e turística é uma das características mais violentas do milagre neoliberal na Índia.

O economista Amit Bhaduri, professor emérito da Universidad Jawaharlal Nehru em Nova Deli, qualificou este processo como crescimento depredador. Deve-se clarificar que não se trata de uma metáfora. É, efectivamente, um complexo processo económico e político no qual os perdedores subjugam a sua forma de vida a um crescimento que favorece o crescimento de poucos e não pode elevar o nível de vida da maioria da população.

O paralelismo com o México é extraordinário. Realmente, a única diferença são as taxas de crescimento. Tudo o mais é idêntico. O mesmo modelo, a mesma injustiça.

 


Alejandro Nadal é economista e professor investigador do Centro de Estudos Económicos do Colegio de México. Artigo publicado no La Jornada, 18 de Julho de 2010.

Traduzido por Vanessa Pereira.

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Sobre o/a autor(a)

Economista, professor em El Colegio do México.
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