You are here

Fechar, outra vez

É claro que, entre as centenas de escolas a encerrar, haverá casos justificáveis. Mas a verdade é que esta medida aprofunda as desigualdades que já existem.

Isabel Alçada já tinha perdido há muito tempo a graça daquele sorriso pretensamente conciliador que exibia no início do seu mandato. Com o anúncio, no final da semana passada, do encerramento de 701 escolas do 1º ciclo do Ensino Básico já no próximo ano lectivo, é quase impossível não recordar Maria de Lurdes Rodrigues: medidas burocráticas, desajustadas e brutais, impostas durante as férias, à espera que a coisa passe sem grandes estragos.

“Todos têm o direito a aprender”: a ministra tenta convencer-nos que se trata do interesse das crianças, do combate ao insucesso e abandono escolares, do desígnio da “igualdade de oportunidades”. Mas é claro que não é. Aliás, em alguns aspectos, é precisamente o contrário.

Desde logo, forçam-se mais cerca de dez mil crianças a deslocamentos pendulares diários, numa nova rotina que, para muitas delas, há-de começar cedo e acabar tarde demais para que ir para a escola não seja uma tortura. Impor este cenário a uma criança entre os 6 e os 10 anos é encurtar significativamente o seu direito a tempos livres de obrigações, essenciais para o seu desenvolvimento pessoal.

É claro que, entre as centenas de escolas a encerrar, haverá casos justificáveis, apesar do procedimento escolhido. Mas a verdade é que esta medida, além de tudo o resto, aprofunda as desigualdades que já existem. Na maioria dos locais onde esta mega-operação burocrática vai determinar o encerramento da sua escola, a desigualdade já é o quotidiano. A obsessão economicista do Governo atinge brutalmente os territórios abandonados pelas políticas públicas durante décadas de insensibilidade, em que as populações vão perdendo os equipamentos que poderiam compensar o isolamento resultante dum país desequilibrado e injusto. Esta pretensa ideologia da “eficiência” tenta simplificar a explicação de decisões erradas, aplicando friamente critérios desligados das pessoas e dos seus verdadeiros contextos de vida, na sua relação com o território e com a escala económica e social realmente presente. Enquanto esperneia aproveitando a oportunidade que as ofensivas de Passos Coelho lhe concedem, este Governo aplica estritamente o programa de regressão do Estado Social precisamente onde é mais decisivo. E, já agora, de caminho, está-se a oferecer, aqui e ali, um negócio de bandeja aos privados que se posicionam nas desistências das políticas públicas – e isto já aí está e é muito mais concreto do que qualquer encenação sobre uma pretensa revisão constitucional.

Fecham-se, assim, duma só vez, centenas de escolas, aplicando um critério universal, como se o país fosse todo igual. Seria interessante saber em quantas das localidades afectadas por esta decisão já encerrou, por exemplo, um centro de saúde nos últimos anos; e em quantas delas deixará de haver uma estação dos correios, se for concretizada a trágica e ruinosa privatização dos CTT.

Assim é esta “eficiência” que despreza as pessoas. Milhares de vidas por esse país fora sentem que não contam nas contas dos sucessivos governos, encurraladas no local onde vivem, circunscritas e penalizadas por estarem longe da estreita faixa litoral onde este irracional modelo de desenvolvimento permite um esboço de civilização. Já chega: é mesmo preciso dizer que isto não faz sentido.

Sobre o/a autor(a)

Ativista da Associação de Combate à Precariedade – Precários Inflexíveis
(...)