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Abandonando o Iraque - As ruínas que eles deixarão para trás

Ao voltar a Bagdad no mês passado, depois de ter estado ausente por algum tempo, fiquei impressionado com o pouco que tinha mudado. Por Patrick Cockburn
Carro bomba explodido em Kirkuk, 23 de Julho de 2010 – Foto de Khalil Al-A'Nei/Epa/Lusa

A 14 de Junho deste ano, um intérprete do exército dos EUA, chamado Hameed al-Daraji, foi morto a tiro enquanto dormia na sua casa em Samarra, uma cidade a cerca de 97 quilómetros a norte de Bagdad.

De certo modo, este assassinato não teve nada de estranho, uma vez que 26 civis iraquianos foram assassinados em diferentes partes do país no mesmo dia. Mas, além de trabalhar periodicamente para os americanos desde 2003, o Sr. Daraji tinha-se recentemente convertido ao cristianismo e, imprudentemente, passou a usar um crucifixo ao pescoço – uma atitude suficiente para fazer dele um alvo em redutos sunitas.

O que fez os iraquianos, acostumados como estão à violência, prestarem especial atenção ao assassinato do Sr. Daraji foi a identidade do seu assassino. Preso logo após o corpo ter sido descoberto, foi anunciado que o filho confessou ter assassinado o pai, explicando que o trabalho e a mudança de religião do seu pai envergonharam de tal maneira a família que não havia alternativa senão matá-lo. Um segundo filho e um sobrinho do Sr. Daraji também são procurados pelo assassinato e os três jovens têm alegadamente ligações à Al-Qaeda.

A história ilustra até que ponto o Iraque continua a ser um local extremamente violento. Sem que o resto do mundo prestasse muita atenção, cerca de 160 iraquianos foram mortos e centenas feridos durante as últimas duas semanas. O número de mortes de civis no Iraque continua mais elevado do que no Afeganistão, embora actualmente este último tenha quase o monopólio da atenção dos media. Mas a morte do Sr. Daraji deveria fazer duvidar aqueles que supõem que, seja como for, a ocupação do Iraque pelos EUA vive os seus últimos anos e que as tropas de combate americanas deviam mesmo preocupar-se em manterem-se no Iraque para além da sua data de partida prevista para daqui a seis semanas, a 31 de Agosto. Segundo um “Acordo do Estatuto das Forças” (Status of Forces Agreement – SOFA), assinado pelo presidente Bush em 2008, durante os seus últimos dias na Casa Branca, todas as restantes tropas dos EUA deverão sair até ao final de 2011.

As tropas americanas deixam para trás um país que é uma ruína nitidamente instável. Bagdad assemelha-se a uma cidade sob ocupação militar, com os terríveis engarrafamentos causados pelos 1500 pontos de controlo e as ruas bloqueadas por quilómetros de muros de betão que estrangulam as comunicações dentro da cidade. A situação no Iraque é em muitos aspectos "melhor" do que era, mas dificilmente poderia ser diferente uma vez que as mortes, no seu auge em 2006-2007, ocorriam numa média de 3000 por mês. Dito isto, Bagdad continua a ser uma das cidades mais perigosas do mundo, onde é mais arriscado circular do que em Cabul ou Kandahar.

Nem tudo pode ser atribuído à actual liderança política. O Iraque está a recuperar de 30 anos de ditadura, guerra e sanções, e a recuperação é dolorosamente lenta e incompleta por ter sido tão grande o impacto das múltiplas calamidades que atingiram o Iraque depois de 1980. Saddam Hussein desperdiçou dinheiro na sua auto-infligida guerra contra o Irão, não deixando nada para hospitais ou escolas. A derrota infligida pela aliança liderada pelos EUA no Kuwait provocou um colapso na moeda e 13 anos de sanções da ONU que equivaleram a um cerco económico. O Iraque nunca recuperou destas catástrofes. Quando a ONU tentou providenciar a substituição de equipamentos nas centrais energéticas e nas estações de tratamento de água, na década de 1990, os anteriores fabricantes disseram que as instalações eram tão antigas que as peças sobressalentes tinham deixado de se fabricar.

Durante as sanções, o governo não tinha dinheiro e deixou de pagar aos seus funcionários que, no entanto, cobravam pelos seus serviços. Neste momento recebem bons salários, mas a velha tradição de não fazer nada sem um suborno não desapareceu. Fortes níveis de corrupção tornam o estado disfuncional. Para dar um pequeno exemplo: uma amiga, a dar aulas numa universidade em Bagdad, ficou grávida e requereu licença remunerada de um mês para ter seu bebé, como era seu direito. Os administradores da universidade disseram que poderia ter a licença, mas na condição de lhes entregar o salário do mês. O que faz com que a corrupção no Iraque tenha efeitos tão devastadores é que paralisa o aparelho de estado e o impede de desempenhar as suas funções mais essenciais. Em 2004-2005, por exemplo, todo o orçamento para o aprovisionamento militar de 1,2 milhões de dólares (926.640 mil euros) foi roubado, se bem que isso se possa explicar pelo caos dos primeiros anos do estado iraquiano pós-Saddam, com os americanos a clamar vitória em muitos dos combates e sem se saber quem de facto detinha o poder.

Cinco anos mais tarde, é razoável pensar que o aprovisionamento militar tenha melhorado, especialmente no que se refere a peças essenciais de equipamento para as forças de segurança. Aqui, não existe maior prioridade para o governo do que acabar com os bombistas suicidas da Al-Qaeda, a conduzirem veículos cheios explosivos no centro de Bagdad e a fazerem-se explodir à porta dos ministérios, matando e ferindo centenas de pessoas.

Os iraquianos questionam frequentemente porque é que os bombistas conseguem atravessar tantos pontos de controlo sem levantarem suspeitas. Durante o ano passado, tornou-se claro que existe uma razão simples para isso, que dá bem conta da fraqueza da máquina do Estado iraquiano. A manutenção dos bombistas fora de Bagdad é, no mínimo, abalada porque o principal dispositivo de detecção de bombas, usado pelos soldados e pela polícia para encontrar explosivos, é uma comprovada falsificação. O governo pagou grandes quantias pelo detector, designado “sonar” pelos iraquianos, que não traz uma fonte de energia – e, que supostamente, a recebe da pessoa que o maneja, que tem de arrastar os pés para gerar electricidade estática.

Por muito inútil que seja, o “sonar”, uma pega de plástico preto com uma antena prateada, como uma antena de televisão, espetada na frente, é o principal método pelo qual os veículos suspeitos em Bagdad são controlados por soldados e polícias. Se existirem armas ou explosivos, a antena dever-se-ia inclinar na sua direcção, funcionando da mesma forma que uma vara de um adivinho de água.

O que é impressionante acerca do detector de bombas, oficialmente conhecido como ADE-651, é que tem sido repetidamente referido como inútil por peritos governamentais, jornais e televisão. Foi produzido originalmente na Grã-Bretanha, numa exploração de produção de leite desactivada, no Somerset, mas o director da empresa responsável foi preso no Reino Unido por suspeita de fraude e a sua exportação foi proibida. O único componente electrónico no dispositivo é um pequeno disco, no valor de alguns cêntimos, semelhante aos que estão presos à roupa nas lojas para impedirem as pessoas de saírem sem pagar.

Embora o custo de fabrico de cada “sonar” seja de apenas 50 dólares, o Iraque gastou 85 milhões de dólares na compra dos detectores de bombas em 2008 e 2009. Apesar de terem sido denunciados como inúteis, nunca foram retirados e continuam a ser um dos principais meios para deter os bombistas da Al-Qaeda. Um chefe da polícia iraquiana disse-me, confidencialmente, que a polícia sabe que os seus detectores não funcionam, mas continua a usá-los porque têm ordens para o fazer. A suspeita em Bagdad é que foi pago um grande suborno a alguém para comprar os “sonares” e não querem admitir que não passam de lixo. Previsivelmente, as bombas que explodem com um efeito devastador no coração da capital terão passado por uma dúzia de postos de controlo sem serem detectadas.

A corrupção explica muita coisa no Iraque, mas não é a única razão de ter sido tão difícil criar um governo funcional. Saddam Hussein não deveria ser tão difícil de substituir. Parte do problema aqui é que a invasão dos EUA e a queda de Saddam Hussein teve consequências radicais, porque desviou o poder dos árabes sunitas, membros do partido Baath, para os 60 por cento de iraquianos xiitas que estão aliados aos os curdos. O Iraque passou a ter uma nova classe dominante, enraizada na população rural xiita e dirigida por ex-exilados, sem qualquer experiência executiva. Em muitos aspectos, o seu modelo de governo é recriar o sistema de Saddam, só que desta vez com os xiitas no poder. Era costume dizer-se que o Iraque estava sob a alçada de árabes sunitas de Tikrit, a cidade natal de Saddam Hussein, a norte de Bagdad, enquanto que agora as pessoas em Bagdad, queixam-se que um bando similar, bem organizado e integrado, da cidade xiita de Nasiriyah rodeia o primeiro-ministro Nouri al-Maliki.

Em muitos aspectos, o Iraque está a assemelhar-se ao Líbano, às suas políticas e à sua sociedade irremediavelmente dividida por lealdades a seitas e comunidades. O resultado das eleições parlamentares de 7 de Março poderia ser facilmente previsto admitindo que a maioria dos iraquianos votaria como sunitas, xiitas ou curdos. Os cargos de topo do governo e de toda a burocracia são preenchidos informalmente de acordo com a filiação sectária. Em termos simplistas, isto dá a todos uma parte do bolo, mas o bolo é demasiado pequeno para satisfazer mais do que uma minoria de iraquianos. O governo também está enfraquecido por os ministros serem representantes de um certo partido, facção ou comunidade e não poderem ser demitidos por serem corruptos ou incompetentes.

Ao voltar a Bagdad no mês passado, depois de ter estado ausente por algum tempo, fiquei impressionado com o pouco que tinha mudado. O aeroporto continuava entre os piores do mundo. Quando eu quis viajar para Baçorá, a segunda maior cidade do Iraque e o centro da indústria do petróleo, a Iraqi Airways informou que tinha apenas um voo durante a semana e não tinha a certeza quando sairia.

A violência pode ter diminuído, mas poucos dos 2 milhões de refugiados iraquianos na Jordânia e na Síria acham que é suficientemente seguro regressar. Mais de 1,5 milhões de pessoas são Pessoas Deslocadas Internamente (PDI), forçadas a abandonarem as suas casas devido aos massacres sectários de 2006 e 2007 e demasiado assustadas para voltarem. Destes, cerca de meio milhão de pessoas tentam sobreviver em acampamentos clandestinos que a Refugees International descreve como não tendo os "serviços básicos, incluindo água, saneamento e electricidade, construídos em locais precários – debaixo de pontes, ao longo de vias-férreas e entre os depósitos de lixo". Um facto preocupante acerca desses campos é que o número de pessoas que aí vivem deveria estar a diminuir à medida que o conflito entre seitas abranda, mas na verdade a população de deslocados internos é crescente. Actualmente, os refugiados vão para os campos não por causa do medo dos esquadrões da morte, mas por causa da pobreza, do desemprego ou porque a seca prolongada está a afastar os agricultores das suas terras.

O Iraque está cheio de pessoas que têm pouco a perder e nutrem um profundo ódio por um governo que eles vêem como sendo dirigido por uma elite cleptomaníaca, que devora as receitas do petróleo do Iraque. Tal como no Líbano e no Afeganistão, onde as disparidades de riqueza são também enormes, o ódio de classe e as diferenças religiosas combinam-se para exacerbar o ódio entre e no seio das comunidades. A ira dos desalojados explica a brutalidade do saque a Bagdad em 2003, em que as pessoas irromperam dos bairros de lata da cidade de Sadr para pilharem os ministérios e os serviços governamentais.

O Iraque difere do Líbano num aspecto decisivo. É um estado petrolífero com receitas anuais de 60 milhões de dólares, no ano passado, e com reservas de petróleo inexploradas entre as maiores do mundo. As suas exportações de petróleo podem quadruplicar, ao longo da próxima década, ao abrigo de contratos assinados com as companhias petrolíferas internacionais no ano passado. Deveria haver dinheiro suficiente para elevar os padrões de vida e reconstruir as infra-estruturas após prolongado abandono.

À primeira vista, o petróleo poderia ser a solução para inúmeros problemas do Iraque; mas no Iraque no passado, e noutros estados petrolíferos, o petróleo provou ser tanto uma maldição política quanto uma bênção económica. Os países dependentes das exportações de petróleo e de gás são quase invariavelmente ditaduras ou monarquias. O controlo das receitas do petróleo, sem apoio popular, torna-se para os dirigentes a fonte do seu poder. Se existir oposição, então as riquezas petrolíferas permitem aos dirigentes criar e pagar forças de segurança para a esmagar.

Nenhum país do mundo precisa tanto de avaliar cuidadosamente o compromisso entre as comunidades e os partidos como o Iraque, mas o petróleo pode aliciar os governos a recorrerem à força. Isto foi o que aconteceu a Saddam Hussein, que nunca teria tido força para invadir o Irão ou o Kuwait sem a riqueza do petróleo do Iraque. A mesma coisa pode acontecer de novo: um estado todo-poderoso – corrupto e incompetente – pode tentar esmagar os seus adversários, em vez de os conciliar. O petróleo por si só não irá estabilizar o Iraque.

Patrick Cockburn é jornalista e é o autor de "Muqtada: Muqtada Al-Sadr, the Shia Revival, and the Struggle for Iraq".

Artigo publicado em CounterPunch

Tradução de Paula Coelho para esquerda.net

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