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Honduras: o regresso dos golpistas à América Latina

Naquela madrugada de 28 de Junho, os golpistas conseguiram impedir a realização de uma consulta popular convocada por 400 mil assinaturas que perguntava aos hondurenhos se concordavam ou não com uma nova urna nas eleições gerais de Novembro para eleger uma assembleia constituinte em 2010. A oposição representada no Congresso Nacional e nos Tribunais Superiores, nomeados pelo Congresso, opôs-se veementemente à consulta popular e às mudanças na Constituição propostas por Zelaya, que comprometiam os poderes instalados nas Honduras, ao nível económico e militar.

Afastado Zelaya, os golpistas começaram por sofrer o isolamento internacional, com a suspensão do país da Organização dos Estados Americanos e a União Europeia a retirar os seus embaixadores do país. Em Portugal, o parlamento aprovou por unanimidade um voto de condenação do golpe, por iniciativa do Bloco de Esquerda.

Na capital Tegucipalga, a população não respeitou o recolher obrigatório decretado pelos golpistas e as ruas foram invadidas pela presença militar para conter a revolta dos que pediam o regresso do presidente.

"Se os Estados Unidos não estão por detrás deste golpe, os golpistas não poderão manter-se nem 48 horas no poder", declarou Zelaya à cadeia Telesur no dia seguinte a ter sido expulso do país. Mas a posição norte-americana foi evoluindo desde a condenação até à preocupação, terminando na aceitação da marcação de eleições presidenciais pelos golpistas, boicotadas pelos apoiantes do presidente Zelaya.

Zelaya nunca desistiu de voltar ao país, e após algumas tentativas falhadas acabou por encontrar abrigo na embaixada brasileira, que a partir daí foi alvo de um bloqueio pelas tropas apoiantes do golpe. O presidente do Congresso, Roberto Micheletti, foi designado presidente das Honduras, com o apoio da direita e da Igreja e a reunião da OEA foi dominada pelo golpe de estado no país.  

As negociações entre os golpistas e Manuel Zelaya para permitir o regresso do presidente ao cargo que lhe pertence duraram até Novembro e fracassaram por completo, com Zelaya a considerar ilegais as eleições marcadas para Novembro e a recusar-se "a encobrir o golpe de estado", como escreveu numa carta a Barack Obama. O suposto governo de unidade acabou por ser composto apenas por apoiantes de Micheletti, naquela que foi a machadada final nos esforços para conseguir um acordo entre ambas as partes.

Já após as eleições boicotadas pelos apoiantes do presidente, a situação das Honduras também fez parte da agenda da cimeira ibero-americana no Estoril, onde os países membros não chegaram a acordo acerca da atitude a tomar face ao reconhecimento ou não das eleições. Divergências diplomáticas que não afectaram a cimeira do Mercosul, com os presidentes do Brasil, Argentina, Paraguai, Uruguai e da Venezuela (na qualidade de país associado) a manifestarem "o total e pleno desconhecimento do pleito eleitoral realizado em 29 de novembro pelo Governo de facto".

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Resto dossier

O Mundo em 2009

Este ano ficou marcado pela crise económica mundial, a precariedade e o desemprego nos países desenvolvidos, onde o capital pôs em marcha novas tácticas. 2009 começou sob o signo da guerra israelita contra Gaza e viu disputarem-se eleições com fortes suspeitas de fraude no Irão e no Afeganistão. Obama frustrou muita da esperança que dizia trazer à Casa Branca e o tempo dos golpes de Estado voltou à América latina. A xenofobia ganhou espaço na Europa, tal como a repressão na China. O ano fechou com os líderes mundiais a deixarem claro que não estão à altura de evitar a catástrofe ecológica. 

Obama e a esperança que diminui

O primeiro ano da administração Obama veio confirmar as reticências de muitos acerca da prometida "mudança" no sistema político e económico dos EUA. A promessa falhada de encerrar Guantanamo no prazo de um ano e o reforço da guerra no Afeganistão são a marca deste início de mandato.

Cimeira de Copenhaga acaba em fracasso

Ao fim de dois anos de negociações, os países reunidos em Copenhaga não conseguiram o tão esperado acordo. Numa manobra de última hora, Obama reuniu as assinaturas de 28 países num texto que não define metas nem é vinculativo para ninguém. A cimeira expulsou algumas ONG presentes e a polícia dinamarquesa reprimiu as acções de rua dos activistas ambientais. Mas não conseguiu impedir que cem mil pessoas se juntassem na maior manifestação de sempre pela justiça climática.

Afeganistão: a guerra continua

Pela primeira vez desde a invasão, morreram mais soldados ocupantes no Afeganistão do que no Iraque. As eleições presidenciais afegãs ficaram marcadas pela fraude generalizada, o que não impediu Obama de reforçar as tropas dos EUA, acusadas de bombardeamentos sobre a população civil.

Irão: presidenciais abrem brecha no regime

A revolta encheu as ruas de Teerão quando foram anunciados os resultados das presidenciais de Junho. O poder de Ahmadinejad tremeu pela primeira vez na campanha, mas apesar das denúncias de irregularidades acabou por ser validada a sua vitória com 64%. A repressão que se seguiu matou dezenas de pessoas e levou quatro mil à prisão. Seis meses depois, cerca de 140 opositores continuam presos e pelo menos cinco foram condenados à morte.

Xenofobia na Europa

O resultado do referendo suíço a proibir a construção de minaretes foi um dos sinais mais visíveis do regresso da xenofobia aos países europeus. Mas a perseguição aos imigrantes foi reforçada na lei de outros países.

Israel vira à direita após massacre de Gaza

A ofensiva terrestre de Israel na faixa de Gaza teve início a 27 de Dezembro de 2008, e terá provocado cerca de 1.417 mortos, entre os quais 926 civis. As Nações Unidas referem ainda a destruição de mais de 50 mil casas, 200 escolas, 800 propriedades industriais, 39 mesquitas e duas igrejas.

Honduras: o regresso dos golpistas à América Latina

Quando alguns membros do exército hondurenho tiraram Manuel Zelaya do palácio presidencial para o levar para a Costa Rica, foi difícil não lembrar o passado da América Latina repleta de golpes de estado com a bênção de Washington. A história voltou a repetir-se nas Honduras do século XXI.

China: 20 anos após Tianamnen, agravam-se as tensões étnicas

A China passou a líder mundial das exportações no primeiro semestre de 2009, mas o ano que lembrou o 20º aniversário do massacre de Tiananmen ficou marcado pela repressão sobre opositores e minorias étnicas.

France Telecom: Suicídios e pressão laboral

O escândalo abalou a França. As dezenas de suicídios de trabalhadores vítimas da reestruturação da empresa traduziam-se em recompensa aos dirigentes da France Telecom, cinco anos após a privatização.

Crise financeira: do G8 ao G20

Na ressaca da maior crise financeira desde o colapso de Wall Street em 1929, o mundo viu crescer o desemprego e a fome. Mas também assistiu à emergência do G20 como principal fórum das questões económicas, com duas cimeiras a adiarem medidas urgentes para travar a ganância dos especuladores.