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Afeganistão: a guerra continua

O ano de 2009 chega ao fim com o anúncio do envio de mais 30 mil soldados norte-americanos para combater no Afeganistão, o que perfaz um total de 100 mil, mais 38 mil dos países da NATO. Portugal é o país que mais aumenta o seu contingente em termos percentuais. O objectivo proclamado é o de aniquilar a al-Qaeda, embora seja no vizinho Paquistão que se suspeitam existir as principais bases do grupo de Osama bin Laden.

Os EUA prevêem ficar no Afeganistão nos próximos anos, com o início da retirada previsto para meados de 2011. No discurso de aceitação do Nobel da Paz, Barack Obama fez a defesa da guerra no Afeganistão, qualificando-a de "justa". Contudo, nem mesmo o embaixador dos EUA em Cabul foi um entusiasta do reforço das tropas, afirmando que o governo de Hamid Karzai teria de dar mais garantias de combate à corrupção e aos talibãs.

Mas o comportamento das tropas da NATO foi alvo de muitas queixas, após terem sido responsáveis por várias chacinas da população civil. Os relatos de bombardeamentos aéreos sobre casamentos e aldeias chocaram a opinião pública internacional e acrescentaram mais razões para a revolta dos afegãos contra as tropas ocupantes. Um dos massacres levou à demissão do ministro do Trabalho alemão, que enquanto detinha a pasta da defesa terá sonegado informação sobre a responsabilidade das suas tropas no ataque que vitimou dezenas de civis em Kunduz.

2009 foi o primeiro ano em que as tropas da NATO sofreram mais baixas no Afeganistão que no Iraque, com cerca de 500 mortos. As vítimas civis do conflito ultrapassaram a fasquia dos mil mortos no fim do primeiro semestre, uma subida de 24% em relação a 2008, ano em que já se tinha atngido um recorde de vítimas civis. As tropas britânicas anunciaram que o número total dos seus militares mortos no Afeganistão já supera os do Iraque.  Com o intensificar da guerra em 2010, a tendência parece ser de uma subida ainda mais pronunciada, o que é admitido pelo próprio general David Petraeus, o militar escolhido por Obama para liderar a guerra em solo afegão.

O dilema da situação afegã não é apenas militar. Os homens escolhidos pelos EUA para liderarem o processo político são conhecidos pelas ligações á corrupção e ao narcotráfico. O vice-presidente do país, que ocupa a pasta da defesa nos governos de Karzai, é um antigo "senhor da guerra" aliado dos norte-americanos e que os próprios EUA admitem ter ligações ao tráfico de heroína. E até o irmão do presidente Karzai foi acusado pelo New York Times de estar ao serviço da CIA e ser um dos grandes traficantes de ópio do país que produz mais de 90% da oferta mundial desta substância.

As eleições presidenciais, que supostamente seriam a base da reconstrução do Estado afegão, revelaram-se uma gigantesca fraude feita de modo a dar a vitória esmagadora a Karzai, com centenas de milhares de votos falsos a entrarem nas urnas. Karzai foi forçado a aceitar uma segunda volta mas o seu adversário, Abdullah Abdullah, recusou participar.

"As urnas ficaram todas nas mãos da mafia e dizia-se que o importante não é quem vota, mas quem conta os votos. O fantoche sem vergonha que é Hamid Karzai foi o escolhido para ganhar e assim continuar no poder", disse a ex-deputada e activista pelos direitos humanos Malalai Joya quando esteve em Lisboa, a convite do Bloco de Esquerda. Entre outros atentados às liberdades fundamentais, Malalai denunciou uma lei assinada pelo presidente que na prática legaliza a violação das mulheres, tal como no tempo dos talibãs.

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Resto dossier

O Mundo em 2009

Este ano ficou marcado pela crise económica mundial, a precariedade e o desemprego nos países desenvolvidos, onde o capital pôs em marcha novas tácticas. 2009 começou sob o signo da guerra israelita contra Gaza e viu disputarem-se eleições com fortes suspeitas de fraude no Irão e no Afeganistão. Obama frustrou muita da esperança que dizia trazer à Casa Branca e o tempo dos golpes de Estado voltou à América latina. A xenofobia ganhou espaço na Europa, tal como a repressão na China. O ano fechou com os líderes mundiais a deixarem claro que não estão à altura de evitar a catástrofe ecológica. 

Obama e a esperança que diminui

O primeiro ano da administração Obama veio confirmar as reticências de muitos acerca da prometida "mudança" no sistema político e económico dos EUA. A promessa falhada de encerrar Guantanamo no prazo de um ano e o reforço da guerra no Afeganistão são a marca deste início de mandato.

Cimeira de Copenhaga acaba em fracasso

Ao fim de dois anos de negociações, os países reunidos em Copenhaga não conseguiram o tão esperado acordo. Numa manobra de última hora, Obama reuniu as assinaturas de 28 países num texto que não define metas nem é vinculativo para ninguém. A cimeira expulsou algumas ONG presentes e a polícia dinamarquesa reprimiu as acções de rua dos activistas ambientais. Mas não conseguiu impedir que cem mil pessoas se juntassem na maior manifestação de sempre pela justiça climática.

Afeganistão: a guerra continua

Pela primeira vez desde a invasão, morreram mais soldados ocupantes no Afeganistão do que no Iraque. As eleições presidenciais afegãs ficaram marcadas pela fraude generalizada, o que não impediu Obama de reforçar as tropas dos EUA, acusadas de bombardeamentos sobre a população civil.

Irão: presidenciais abrem brecha no regime

A revolta encheu as ruas de Teerão quando foram anunciados os resultados das presidenciais de Junho. O poder de Ahmadinejad tremeu pela primeira vez na campanha, mas apesar das denúncias de irregularidades acabou por ser validada a sua vitória com 64%. A repressão que se seguiu matou dezenas de pessoas e levou quatro mil à prisão. Seis meses depois, cerca de 140 opositores continuam presos e pelo menos cinco foram condenados à morte.

Xenofobia na Europa

O resultado do referendo suíço a proibir a construção de minaretes foi um dos sinais mais visíveis do regresso da xenofobia aos países europeus. Mas a perseguição aos imigrantes foi reforçada na lei de outros países.

Israel vira à direita após massacre de Gaza

A ofensiva terrestre de Israel na faixa de Gaza teve início a 27 de Dezembro de 2008, e terá provocado cerca de 1.417 mortos, entre os quais 926 civis. As Nações Unidas referem ainda a destruição de mais de 50 mil casas, 200 escolas, 800 propriedades industriais, 39 mesquitas e duas igrejas.

Honduras: o regresso dos golpistas à América Latina

Quando alguns membros do exército hondurenho tiraram Manuel Zelaya do palácio presidencial para o levar para a Costa Rica, foi difícil não lembrar o passado da América Latina repleta de golpes de estado com a bênção de Washington. A história voltou a repetir-se nas Honduras do século XXI.

China: 20 anos após Tianamnen, agravam-se as tensões étnicas

A China passou a líder mundial das exportações no primeiro semestre de 2009, mas o ano que lembrou o 20º aniversário do massacre de Tiananmen ficou marcado pela repressão sobre opositores e minorias étnicas.

France Telecom: Suicídios e pressão laboral

O escândalo abalou a França. As dezenas de suicídios de trabalhadores vítimas da reestruturação da empresa traduziam-se em recompensa aos dirigentes da France Telecom, cinco anos após a privatização.

Crise financeira: do G8 ao G20

Na ressaca da maior crise financeira desde o colapso de Wall Street em 1929, o mundo viu crescer o desemprego e a fome. Mas também assistiu à emergência do G20 como principal fórum das questões económicas, com duas cimeiras a adiarem medidas urgentes para travar a ganância dos especuladores.