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Obama e a esperança que diminui

A escolha dos colaboradores mais próximos na Casa Branca foi o primeiro teste para verificar que a proclamada intenção de mudança não correspondia à realidade. Afastados os nomes considerados da esquerda do partido Democrata, Obama escolheu vários republicanos para o governo, a começar pela pasta da Defesa onde manteve Robert Gates no mesmo posto onde fora nomeado por George W. Bush após a demissão de Donald Rumsfeld. Também Ray LaHood, secretário dos Transportes e John McHugh, secretário do Exército, ocuparam cargos de responsabilidade no partido Republicano.

Outra das promessas falhadas de campanha foi a de que "nenhum lóbista conseguirá emprego na minha Casa Branca". Após ser eleito, Obama fez aprovar a regra que impedia que lóbistas registados nos últimos dois anos e nomeados para a administração pudessem intervir em áreas relacionadas com o antigo lóbi durante um prazo de dois anos após a nomeação. A contradição valeu-lhe muitas críticas, mas não impediu Obama de nomear 21 ex-lóbistas para a Casa Branca.

O fracasso da emblemática promessa de encerrar a prisão ilegal de Guantanamo em Janeiro de 2010 já foi admitido pelo próprio Obama, com os EUA em dificuldades para dar algum destino aos mais de duzentos detidos sob acusações de terrorismo. Na maior parte dos casos, a falta de provas que possam sustentar as acusações tornam impossível qualquer julgamento civil ou miltar, e as tentativas de colocar esses suspeitos noutros países nem sempre tem sido bem recebida. Alguns deles deverão ser mesmo julgados e a alternativa deverá passar pelo transporte da maioria dos prisioneiros para os EUA, apesar da oposição da opinião pública.

A questão da tortura também esteve no topo da agenda presidencial, com Obama a assinar logo na primeira semana uma ordem executiva proibindo acções de tortura por parte dos militares norte-americanos. Mas deixou de fora a chamada "tortura por procuração", executada por soldados ou mercenários estrangeiros sob a supervisão norte-americana, e que constitui a esmagadora maioria dos actos de tortura praticados nos cenários de guerra ou intervenção dos EUA.

No plano militar, Obama recuou em relação aos planos de Bush para implementar o escudo antimíssil no leste europeu, aliviando a tensão com a Rússia, que considerava o plano como uma ameaça à sua segurança nacional. Mas por outro lado anunciou o reforço das tropas no Afeganistão para um total de 100 mil soldados para proteger o desacreditado governo de Karzai e atacar os talibãs e a al-Qaeda.

O primeiro ano de Obama terminou sob o signo da contradição, com o discurso de aceitação do seu Nobel da Paz a centrar-se na defesa da guerra no Afeganistão e, dias depois na cimeira de Copenhaga, dizendo que era altura de acções e não de palavras para combater as alterações climáticas, sem que a isso tenha correspondido uma proposta concreta sobre metas para a redução das emissões de carbono que pudesse dar origem a um acordo vinculativo.

Uma das prioridades da campanha que está perto de ser alcançada é a da reforma do sistema de saúde, com a Câmara dos Representantes a aprovar pela margem mínima a proposta que visa alargar a protecção na saúde a todos os norte-americanos. Antes de vir a ser lei, a proposta terá ainda de passar no Senado e ser redesenhada para aprovação final em ambas as Câmaras. Apesar de nunca ter posto em causa os seguros privados como base do sistema de saúde no país, a proposta inicial já foi sujeita a tantas alterações que a versão final deverá conter apenas o reforço da regulação das seguradoras e o alargamento da cobertura aos 36 milhões que actualmente não a têm.

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Resto dossier

O Mundo em 2009

Este ano ficou marcado pela crise económica mundial, a precariedade e o desemprego nos países desenvolvidos, onde o capital pôs em marcha novas tácticas. 2009 começou sob o signo da guerra israelita contra Gaza e viu disputarem-se eleições com fortes suspeitas de fraude no Irão e no Afeganistão. Obama frustrou muita da esperança que dizia trazer à Casa Branca e o tempo dos golpes de Estado voltou à América latina. A xenofobia ganhou espaço na Europa, tal como a repressão na China. O ano fechou com os líderes mundiais a deixarem claro que não estão à altura de evitar a catástrofe ecológica. 

Xenofobia na Europa

O resultado do referendo suíço a proibir a construção de minaretes foi um dos sinais mais visíveis do regresso da xenofobia aos países europeus. Mas a perseguição aos imigrantes foi reforçada na lei de outros países.

Israel vira à direita após massacre de Gaza

A ofensiva terrestre de Israel na faixa de Gaza teve início a 27 de Dezembro de 2008, e terá provocado cerca de 1.417 mortos, entre os quais 926 civis. As Nações Unidas referem ainda a destruição de mais de 50 mil casas, 200 escolas, 800 propriedades industriais, 39 mesquitas e duas igrejas.

Honduras: o regresso dos golpistas à América Latina

Quando alguns membros do exército hondurenho tiraram Manuel Zelaya do palácio presidencial para o levar para a Costa Rica, foi difícil não lembrar o passado da América Latina repleta de golpes de estado com a bênção de Washington. A história voltou a repetir-se nas Honduras do século XXI.

China: 20 anos após Tianamnen, agravam-se as tensões étnicas

A China passou a líder mundial das exportações no primeiro semestre de 2009, mas o ano que lembrou o 20º aniversário do massacre de Tiananmen ficou marcado pela repressão sobre opositores e minorias étnicas.

France Telecom: Suicídios e pressão laboral

O escândalo abalou a França. As dezenas de suicídios de trabalhadores vítimas da reestruturação da empresa traduziam-se em recompensa aos dirigentes da France Telecom, cinco anos após a privatização.

Crise financeira: do G8 ao G20

Na ressaca da maior crise financeira desde o colapso de Wall Street em 1929, o mundo viu crescer o desemprego e a fome. Mas também assistiu à emergência do G20 como principal fórum das questões económicas, com duas cimeiras a adiarem medidas urgentes para travar a ganância dos especuladores.

Obama e a esperança que diminui

O primeiro ano da administração Obama veio confirmar as reticências de muitos acerca da prometida "mudança" no sistema político e económico dos EUA. A promessa falhada de encerrar Guantanamo no prazo de um ano e o reforço da guerra no Afeganistão são a marca deste início de mandato.

Cimeira de Copenhaga acaba em fracasso

Ao fim de dois anos de negociações, os países reunidos em Copenhaga não conseguiram o tão esperado acordo. Numa manobra de última hora, Obama reuniu as assinaturas de 28 países num texto que não define metas nem é vinculativo para ninguém. A cimeira expulsou algumas ONG presentes e a polícia dinamarquesa reprimiu as acções de rua dos activistas ambientais. Mas não conseguiu impedir que cem mil pessoas se juntassem na maior manifestação de sempre pela justiça climática.

Afeganistão: a guerra continua

Pela primeira vez desde a invasão, morreram mais soldados ocupantes no Afeganistão do que no Iraque. As eleições presidenciais afegãs ficaram marcadas pela fraude generalizada, o que não impediu Obama de reforçar as tropas dos EUA, acusadas de bombardeamentos sobre a população civil.

Irão: presidenciais abrem brecha no regime

A revolta encheu as ruas de Teerão quando foram anunciados os resultados das presidenciais de Junho. O poder de Ahmadinejad tremeu pela primeira vez na campanha, mas apesar das denúncias de irregularidades acabou por ser validada a sua vitória com 64%. A repressão que se seguiu matou dezenas de pessoas e levou quatro mil à prisão. Seis meses depois, cerca de 140 opositores continuam presos e pelo menos cinco foram condenados à morte.