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Israel vira à direita após massacre de Gaza

Alegando querer pôr fim aos rockets esporádicos lançados pelo Hamas a partir de zonas junto à fronteira, Israel aproveitou os últimos dias de Bush na Casa Branca e o intervalo entre a vitória de Obama e a tomada de posse, para lançar uma ofensiva mortífera sobre a população palestiniana de Gaza, já sujeita a um bloqueio prolongado. Como previsto, o recém-eleito presidente escudou-se no argumento da importância de os Estados Unidos não terem "duas vozes" em questões internacionais.

Apesar do Conselho de Segurança da ONU ter aprovado uma resolução exigindo o cessar-fogo imediato, os bombardeamentos prosseguiram, vitimando sobretudo crianças. Miguel Portas foi dos poucos estrangeiros a conseguir entrar em Gaza no dia 11 de janeiro, numa curta trégua de hora e meia mesmo assim interrompida, com bombas a cair a 500 metros de distância da delegação de eurodeputados. O bloquista surpreendeu-se com a reacção dos palestinianos: "Era como se não tivesse acontecido nada. Aquelas pessoas habituaram-se às bombas. É como se tivessem perdido o medo por se terem habituado a ele."

Quando no dia 17 a Assembleia Geral da ONU apelou ao cessar-fogo e à retirada das tropas israelitas de Gaza, com o levantamento do bloqueio  à entrada de ajuda humanitária no território. Em resposta, Israel voltou a bombardear uma escola dirigida pela ONU, onde se encontravam 1600 refugiados, tendo morrido pelo menos uma mulher e duas crianças.

Os crimes de guerra israelitas ficaram demonstrados nos relatórios da ONU logo na altura do conflito. À utilização de bombas de fósforo branco, tal como havia feito em 2006 no Líbano, Israel tornou Gaza num autêntico "laboratório de armas", nas palavras de dois médicos noruegueses que fotografaram as brutais mutilações sofridas por palestinianos e enviaram as imagens para um centro especializado na Noruega. Uma delas foi o DIME, uma mistura de matérias químicas (como o tungsténio) com material explosivo, que permite provocar explosões de grande impacto, com um raio de alcance relativamente curto.

Os relatos entretanto surgidos pela voz dos próprios soldados israelitas confirmaram estarmos na presença de crimes de guerra, como ataques deliberados contra médicos, ambulâncias e hospitais, o uso de escudos humanos e as mortes indiscriminadas sobre a população civil totalmente cercada. A estes factos juntou/se a descoberta de centros secretos de tortura para os presos palestinianos e a denúncia da lei que permite deter por 8 dias uma criança menor de 12 anos sem julgamento, ambas feitas pelo Comité Antitortura das Nações Unidas.

A investigação das Nações Unidas produziu o Relatório Goldstone, coordenado pelo jurista sul-africano Richard Goldstone. O documento de mais de 500 páginas conclui que Israel fez uso desproporcional da força e violou o direito humanitário internacional, classificando a invasão como "um ataque desenhado para punir, humilhar e aterrorizar a população civil" com o objectivo de "privar Gaza dos seus meios de subsistência, emprego, habitação e água". Para Goldstone, a intenção de destruir as precárias infraestruturas dos palestinianos visava "virar a população de Gaza contra o Hamas", embora o relatório não ilibe o Hamas de responsabilidade, ao considerar como crimes de guerra o lançamento de rockets sobre a fronteira, que serviu de pretexto ao massacre israelita de Gaza.

O estado de guerra marcou as eleições legislativas de Fevereiro em Israel, e a Comissão eleitoral começou por proibir a participação dos partidos árabes, que contavam com sete deputados dos 120 que compõem o Knesset(4). Apesar da vitória por escassa margem do Kadima, de Tzipi Lyvni, foi o Likud que alcançou o acordo parlamentar para formar governo com a extrema-direita e os trabalhistas.

Com o regresso de Netanyahu à liderança do governo, prevaleceu a política de expansão dos colonatos israelitas na Cisjordânia, que comprometeu ainda mais a esperança nas negociações de paz com os palestinianos. Já em Novembro, a tentativa de construir 900 novos fogos nos colonatos de Jerusalém Leste motivou críticas do próprio Obama, a par do secretário-geral da ONU e de outros líderes políticos na Europa. O governo israelita anunciou o congelamento por dez meses da expansão dos colonatos na Cisjordânia, deixando de fora Jerusalém Oriental e prometendo em troca mais fundos e apoios aos colonos judeus.

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Resto dossier

O Mundo em 2009

Este ano ficou marcado pela crise económica mundial, a precariedade e o desemprego nos países desenvolvidos, onde o capital pôs em marcha novas tácticas. 2009 começou sob o signo da guerra israelita contra Gaza e viu disputarem-se eleições com fortes suspeitas de fraude no Irão e no Afeganistão. Obama frustrou muita da esperança que dizia trazer à Casa Branca e o tempo dos golpes de Estado voltou à América latina. A xenofobia ganhou espaço na Europa, tal como a repressão na China. O ano fechou com os líderes mundiais a deixarem claro que não estão à altura de evitar a catástrofe ecológica. 

Obama e a esperança que diminui

O primeiro ano da administração Obama veio confirmar as reticências de muitos acerca da prometida "mudança" no sistema político e económico dos EUA. A promessa falhada de encerrar Guantanamo no prazo de um ano e o reforço da guerra no Afeganistão são a marca deste início de mandato.

Cimeira de Copenhaga acaba em fracasso

Ao fim de dois anos de negociações, os países reunidos em Copenhaga não conseguiram o tão esperado acordo. Numa manobra de última hora, Obama reuniu as assinaturas de 28 países num texto que não define metas nem é vinculativo para ninguém. A cimeira expulsou algumas ONG presentes e a polícia dinamarquesa reprimiu as acções de rua dos activistas ambientais. Mas não conseguiu impedir que cem mil pessoas se juntassem na maior manifestação de sempre pela justiça climática.

Afeganistão: a guerra continua

Pela primeira vez desde a invasão, morreram mais soldados ocupantes no Afeganistão do que no Iraque. As eleições presidenciais afegãs ficaram marcadas pela fraude generalizada, o que não impediu Obama de reforçar as tropas dos EUA, acusadas de bombardeamentos sobre a população civil.

Irão: presidenciais abrem brecha no regime

A revolta encheu as ruas de Teerão quando foram anunciados os resultados das presidenciais de Junho. O poder de Ahmadinejad tremeu pela primeira vez na campanha, mas apesar das denúncias de irregularidades acabou por ser validada a sua vitória com 64%. A repressão que se seguiu matou dezenas de pessoas e levou quatro mil à prisão. Seis meses depois, cerca de 140 opositores continuam presos e pelo menos cinco foram condenados à morte.

Xenofobia na Europa

O resultado do referendo suíço a proibir a construção de minaretes foi um dos sinais mais visíveis do regresso da xenofobia aos países europeus. Mas a perseguição aos imigrantes foi reforçada na lei de outros países.

Israel vira à direita após massacre de Gaza

A ofensiva terrestre de Israel na faixa de Gaza teve início a 27 de Dezembro de 2008, e terá provocado cerca de 1.417 mortos, entre os quais 926 civis. As Nações Unidas referem ainda a destruição de mais de 50 mil casas, 200 escolas, 800 propriedades industriais, 39 mesquitas e duas igrejas.

Honduras: o regresso dos golpistas à América Latina

Quando alguns membros do exército hondurenho tiraram Manuel Zelaya do palácio presidencial para o levar para a Costa Rica, foi difícil não lembrar o passado da América Latina repleta de golpes de estado com a bênção de Washington. A história voltou a repetir-se nas Honduras do século XXI.

China: 20 anos após Tianamnen, agravam-se as tensões étnicas

A China passou a líder mundial das exportações no primeiro semestre de 2009, mas o ano que lembrou o 20º aniversário do massacre de Tiananmen ficou marcado pela repressão sobre opositores e minorias étnicas.

France Telecom: Suicídios e pressão laboral

O escândalo abalou a França. As dezenas de suicídios de trabalhadores vítimas da reestruturação da empresa traduziam-se em recompensa aos dirigentes da France Telecom, cinco anos após a privatização.

Crise financeira: do G8 ao G20

Na ressaca da maior crise financeira desde o colapso de Wall Street em 1929, o mundo viu crescer o desemprego e a fome. Mas também assistiu à emergência do G20 como principal fórum das questões económicas, com duas cimeiras a adiarem medidas urgentes para travar a ganância dos especuladores.