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Irão: presidenciais abrem brecha no regime

O descontentamento dos iranianos com as promessas falhadas de Ahmadinejad, nomeadamente no campo da recuperação económica do país, catapultaram o ex-primeiro-ministro Mir-Hossein Moussavi para o lugar de principal adversário do presidente nas presidenciais. A seu lado teve o apoio de boa parte da juventude urbana, que deseja ver no poder os políticos que acompanhem o grande ritmo da modernização dos costumes na sociedade iraniana nos últimos 30 anos

Ao perceber a dimensão da ameaça, o regime não perdeu tempo e logo no início da campanha bloqueou o acesso dos iranianos à rede social Facebook, usada pelos apoiantes de Moussavi para se organizarem e anunciarem as suas iniciativas. Usando o verde como cor de campanha, a onda de esperança da oposição cresceu durante a campanha até ao dia do voto em que participaram mais de 46 milhões de eleitores, 82% dos inscritos.

O anúncio da vitória esmagadora de Ahmadinejad foi por isso recebido por Moussavi como "uma farsa perigosa" e pediu em seguida a repetição das eleições. O governo só admitiu fazer uma recontagem e proibiu as manifestações de contestação aos resultados, bloqueando o envio de sms e restringindo as chamadas de telemóvel. Indiferentes à proibição, milhares de pessoas saíram às ruas de Teerão, gritando "Onde está o meu voto?", num cortejo encabeçado pelo candidato da oposição. Sete manifestantes morreram e iniciou-se uma vaga de prisões e buscas domiciliárias nas residências de dirigentes da oposição.  

Ahmadinejad mobilizou também a sua base eleitoral e deu uma prova de força, juntando o mesmo número de manifestantes na capital. A televisão do Irão transmitiu em directo esta iniciativa e o governo proibiu todos os canais de sequer filmarem a manifestação da oposição. Nas manifestações das semanas seguintes morreram dezenas de pessoas vítimas da repressão - o governo admitiu 20 mortes - e o Conselho dos Guardiães, a máxima autoridade constitucional do país, concluiu que em 50 cidades houve mais votantes que inscritos, o que implica erro em três milhões de votos. A recontagem dos votos não iria colocar em risco a vitória previamente anunciada.

Na sequência dos protestos após as eleições, a linha dura do regime apelou ao julgamento dos candidatos da oposição por quererem liderar um "golpe de estado". Mas a oposição, embora sem o ímpeto inicial, continuou a sair à rua e a fazer-se ouvir, quer durante as habituais marchas anuais anti-Israel, quer nas comemorações do 4 de Novembro, que marcou o 30º aniversário da crise dos reféns da embaixada dos EUA.

Em Outubro, chegaram as primeiras sentenças de morte, para 3 dos cerca de 400 opositores presos, entre os quais estão jornalistas, professores e estudantes das universidades e políticos afectos ao candidato derrotado Mir Hussein Moussavi, e aos ex-presidentes Rafsanjani e Khatami. Um dos líderes estudantis presos e levados a confessar em tribunal, Abdullah Momeni, alega ter sido vítima de tortura na prisão.

Os protestos da oposição voltaram a sair à rua em Dezembro, no funeral do ayatollah Ali Montazeri, que cindiu com Khomeini e se tornou numa voz defensora dos direitos humanos no Irão. Centenas de milhar de pessoas participaram no cortejo fúnebre gritando slogans ant-governamentais.

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Resto dossier

O Mundo em 2009

Este ano ficou marcado pela crise económica mundial, a precariedade e o desemprego nos países desenvolvidos, onde o capital pôs em marcha novas tácticas. 2009 começou sob o signo da guerra israelita contra Gaza e viu disputarem-se eleições com fortes suspeitas de fraude no Irão e no Afeganistão. Obama frustrou muita da esperança que dizia trazer à Casa Branca e o tempo dos golpes de Estado voltou à América latina. A xenofobia ganhou espaço na Europa, tal como a repressão na China. O ano fechou com os líderes mundiais a deixarem claro que não estão à altura de evitar a catástrofe ecológica. 

Irão: presidenciais abrem brecha no regime

A revolta encheu as ruas de Teerão quando foram anunciados os resultados das presidenciais de Junho. O poder de Ahmadinejad tremeu pela primeira vez na campanha, mas apesar das denúncias de irregularidades acabou por ser validada a sua vitória com 64%. A repressão que se seguiu matou dezenas de pessoas e levou quatro mil à prisão. Seis meses depois, cerca de 140 opositores continuam presos e pelo menos cinco foram condenados à morte.

Xenofobia na Europa

O resultado do referendo suíço a proibir a construção de minaretes foi um dos sinais mais visíveis do regresso da xenofobia aos países europeus. Mas a perseguição aos imigrantes foi reforçada na lei de outros países.

Israel vira à direita após massacre de Gaza

A ofensiva terrestre de Israel na faixa de Gaza teve início a 27 de Dezembro de 2008, e terá provocado cerca de 1.417 mortos, entre os quais 926 civis. As Nações Unidas referem ainda a destruição de mais de 50 mil casas, 200 escolas, 800 propriedades industriais, 39 mesquitas e duas igrejas.

Honduras: o regresso dos golpistas à América Latina

Quando alguns membros do exército hondurenho tiraram Manuel Zelaya do palácio presidencial para o levar para a Costa Rica, foi difícil não lembrar o passado da América Latina repleta de golpes de estado com a bênção de Washington. A história voltou a repetir-se nas Honduras do século XXI.

China: 20 anos após Tianamnen, agravam-se as tensões étnicas

A China passou a líder mundial das exportações no primeiro semestre de 2009, mas o ano que lembrou o 20º aniversário do massacre de Tiananmen ficou marcado pela repressão sobre opositores e minorias étnicas.

France Telecom: Suicídios e pressão laboral

O escândalo abalou a França. As dezenas de suicídios de trabalhadores vítimas da reestruturação da empresa traduziam-se em recompensa aos dirigentes da France Telecom, cinco anos após a privatização.

Crise financeira: do G8 ao G20

Na ressaca da maior crise financeira desde o colapso de Wall Street em 1929, o mundo viu crescer o desemprego e a fome. Mas também assistiu à emergência do G20 como principal fórum das questões económicas, com duas cimeiras a adiarem medidas urgentes para travar a ganância dos especuladores.

Obama e a esperança que diminui

O primeiro ano da administração Obama veio confirmar as reticências de muitos acerca da prometida "mudança" no sistema político e económico dos EUA. A promessa falhada de encerrar Guantanamo no prazo de um ano e o reforço da guerra no Afeganistão são a marca deste início de mandato.

Cimeira de Copenhaga acaba em fracasso

Ao fim de dois anos de negociações, os países reunidos em Copenhaga não conseguiram o tão esperado acordo. Numa manobra de última hora, Obama reuniu as assinaturas de 28 países num texto que não define metas nem é vinculativo para ninguém. A cimeira expulsou algumas ONG presentes e a polícia dinamarquesa reprimiu as acções de rua dos activistas ambientais. Mas não conseguiu impedir que cem mil pessoas se juntassem na maior manifestação de sempre pela justiça climática.

Afeganistão: a guerra continua

Pela primeira vez desde a invasão, morreram mais soldados ocupantes no Afeganistão do que no Iraque. As eleições presidenciais afegãs ficaram marcadas pela fraude generalizada, o que não impediu Obama de reforçar as tropas dos EUA, acusadas de bombardeamentos sobre a população civil.